❝Lawrence estava em casa e os dois eram felizes. No entanto, sem saber ao certo quando nem por que, Irina havia guardado a ideia de que a felicidade, quase por definição, era um estado de que não se tinha consciência na hora. (...)Convencionalmente, tem-se consciência da felicidade no exato momento em que ela começa a escapar. (...) Ela só fora alertada para sua felicidade por ter roçado de perto num futuro alternativo em que essa felicidade seria aniquilada.❞
Eu já tinha expectativas altíssimas com O Mundo Pós-Aniversário desde que o nome Lionel Shriver ganhou um valor especial para mim em 2011. Para quem não sabe, ela é a autora do impecável (Só uma linha de rasgação de seda, prometo!), pertubador, mindfucking, assustador e reflexivo Precisamos Falar Sobre Kevin, um grande best-seller americano que ganhou (ainda mais) fama com a produção de sua adaptação pros cinemas ano passado. Dessa vez, Lionel saiu um pouco do campo da maternidade e partiu para um terreno que havia, à primeira vista, me decepcionado um pouco pela previsibilidade: Traição. Subestimando o livro pela temática mais do que batida, eu posso até ter cometido um erro aceitável, se eu não tivesse esquecido a premissa óbvia que Shriver não é uma escritora ordinária. Então essa(s) história(s) é(são) longe de ser(em) ordinária(s).
Se está se perguntando porque a abertura para o plural ali em cima, deixa eu explicar melhor. Esse livro começa com um primeiro capítulo/prelúdio apresentando a tímida ilustradora de livros infantis Irina McGovern, uma mulher contida e inteligente que mora há quase dez anos com seu parceiro, Lawrence Trainer, um homem (Não, eles não são casados, algo que sempre incomodou um pouco Irina) atencioso, trabalhador e fiel. Com uma relação pacífica, vida sexual ativa e uma ainda existente intimidade que é motivo de inveja até para os amigos do casal, Irina acredita ter tirado a nota preta na vida. Até que um dia, Lawrence precisa viajar à trabalho no dia em que um antigo amigo do casal, um famoso jogador profissional de sinuca Ramsey Acton, faz aniversário. Irina e Lawrence sempre saiam para jantar com Ramsey e sua histérica ex-mulher Jude uma vez por ano justamente para comemorar a data, e agora com Lawrence viajando e Jude fora da jogada, Irina decide sair com o colega em um jantar só para "fazer a social" (Antes que perguntem, o próprio Lawrence empurrou a mulher para a enrascada). Entretanto, Irina começa a sentir algo que nunca em todos esses nove anos de amor pleno pelo "marido" teve vontade de fazer. Uma paixão instantânea, uma vontade louca, insana, passional de beijar Ramsey. E é neste momento que a história para.
A partir daí, a trama ganha duas versões "paralelas" do destino de Irina. Na primeira, Irina beija Ramsey; na segunda, se mantém fiel a seu marido. O livro organiza isso em uma divisão de capítulos feita por revezamento, - dois capítulos "2", "3", "4" - em dois relatos dos fatos que aconteceriam em cada uma dessas possibilidades da vida da protagonista. No começo pode parece difícil de acompanhar o passo, mas a estratégia é excepcionalmente concisa. Ao mesmo tempo que você ganha a oportunidade de ter não apenas um, mas dois livros da Lionel, você é presenteado com histórias peculiarmente independentes e, ainda assim, interligadas uma com a outra. Essa construção possibilita uma das sacadas mais interessantes do livro; com um pouco de atenção, você facilmente perceberá que várias falas dos personagens são repetidas de uma história para outra - só que ditas por personagens diferentes (um trabalho que, deus do céu, merece ao menos um brinde!).
Falar sobre o que exatamente acontece em cada um dos dois egos da história talvez seja considerada uma traição para o conceito do livro, então para não soltar a língua demais, decidi por me focar no perfil dos três principais personagens aqui. Algo maravilhoso deste livro para mim - e que já está se tornando um padrão pelas minhas experiências com a Shriver - é a extrema credibilidade de suas protagonistas. Enquanto Eva de PFSK é excêntrica, classuda e categórica, Irina é o seu perfeito oposto. Com os valores morais da família enraizados em sua pele, Irina é uma mulher das antigas; o que não quer dizer que não tenha uma natureza passional. A forma como ela brinca dentro da linha tênue da razão e sensibilidade (Jane Austen much?) é visceral - e pessimista, porque isso obviamente nunca faltaria se tratando no estilo da autora - e carrega a narrativa com um poder analítico acirrado. Lawrence e Ramsey, os dois caminhos, se mostram como mais do que pessoas, mas virtudes diferentes. Lawrence representa a espécie de segurança que todos nós queremos um dia, esboçando o sonho perfeito de qualquer pessoa que tem, como maior medo, o velho "Eu não quero morrer sozinho". Ramsey, por outro lado, aborda o prazer carnal, a paixão, o sexo com todas as letras, que nós, por mais superficial que soe, queremos.
Não se engane - não existe caminho errado nesse livro. Não pense que a narrativa irá empurrar você a pensar "Nossa, se ferrou" em uma das versões e "Viu? muito melhor assim" na outra. Ambos os futuros possuem tristeza e felicidade. "O Mundo Pós-Aniversário" é bem claro quanto a sua maior reflexão. O momento é tudo. E antes de pensar em atos e consequências, nós pensamos no agora. Naquele presente atemporal, bobo, frívolo e decisivo no qual você precisará responder a si mesmo, com a maior concentração de coragem que conseguir juntar - Sim, é isso que eu quero.



0 comentários: