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Bom dia, ou boa tarde/noite, pessoal!

Como vão? Tudo bem, né? Assim espero. Desta vez acho que posso dizer que demorei muito a voltar, porque é verdade. Mas vocês sabem: vida acadêmica, vida profissional, vida de escritorzão, vida de final de período... Tudo uma complicação só! Ainda assim, mais hora, menos hora, acabo voltando, e desta vez não foi diferente.

Hoje, acho que vim dar encerramento a uma trilogia involuntária de posts que criei neste site de família, porque, adivinhem: eu encontrei a solução para um dos maiores mistérios da história da literatura contemporânea!


Antes de dar início à nossa maravilhosa postagem, acho que preciso fazer alguns esclarecimentos. Mas, ainda antes disso, gostaria de dedicar este post a todos os meus amigos do curso de Letras, aos professores que talvez estejam me lendo, e a todos os amantes da literatura e da Literatura, porque, acreditem, hoje vocês vão rir ou chorar junto comigo. Em seguida, quero deixar linkados estes dois posts (este e este), nos quais eu exploro o mesmo tema que abordarei aqui hoje, embora, hoje, parece, eu tenha encontrado a solução, hehe. É recomendável a leitura dos artigos citados para melhor compreensão do que eu vou falar aqui, tudo bem? Mas, se estiver com preguiça de ler, não precisa; dá pra entender do mesmo jeito. Ou então leia depois de ler este, acho que surte o mesmo efeito. Enfim.

No primeiro artigo citado, eu discuto a valoração das obras literárias hoje em dia: o que é considerado boa literatura e o que é considerado má literatura. Continuo sustentando os mesmos pontos de vista. No segundo artigo, falo sobre a irresistibilidade dos Big Mac literários, aqueles livros ruins que a gente lê porque, por mais que a história seja ruim, a curiosidade grita mais alto. Mantenho, também, os mesmos pontos de vista tidos lá. O que eu quero compartilhar com vocês agora é fruto de uma discussão bastante... hm... como eu diria? “Inusitada”, pra mantermos a polidez, que aconteceu anteontem em um grupo do Facebook do qual eu participo.

Resumidamente, esse grupo é um espaço pequeno reservado a escritores de histórias com temática LGBT que publicam na plataforma Wattpad, site do qual eu também já falei aqui e pelo qual eu também publiquei meu mais recente romance (ah, sim! Acabei de escrever!), que você pode ler clicando aqui. Graças a esse site e a esse grupo, acabo tomando conhecimento de muitos romances homoafetivos, que é o que eu escrevo, também, majoritariamente. Assim sendo, é comum encontrar histórias de todos os tipos: histórias boas, histórias ruins, histórias medíocres, histórias mirabolantes... É o mesmo que acontece com qualquer outro tipo de romance: tem pra todos os gostos, e nesse grupo a gente tem contato com vários tipos de narrativa. Um fato curioso, porém, que me chamou atenção foi: na maioria esmagadora desses romances, o personagem ativo da relação (aquele que penetra) sempre tem um pênis “enorme” — e a palavra usada para se referir ao membro é sempre essa: enorme. Por motivos de preferência pessoal e de verossimilhança com a nossa realidade (onde, convenhamos, não é muito comum encontrar órgãos sexuais com mais de 19cm, que é o que, pra mim, configura um “pênis enorme”, a menos que você esteja em certas regiões da África), fui até o grupo em questão e levantei esse debate. Por que isso é assim? Por que os autores/leitores parecem ter essa preferência por órgãos de tamanho extra-largo haja vista que, na vida real, as estruturas do corpo humano não se adaptam a um corpo estranho dessa magnitude com a mesma facilidade com que os personagens das narrativas o fazem ao serem penetrados.

As respostas variaram em diversas direções, mas poucas acertaram o alvo da pergunta e quase nenhuma suscitou o debate que eu queria atingir. Cerca de sete ou oito pessoas, no total, responderam à minha indagação, sendo que, dessas, apenas uma ou duas também se mostravam ligeiramente incomodadas com esse exagero ou com a noção de que, na vida real, as coisas não são tão fáceis quanto na literatura. Porém, em virtude da mais aguda incapacidade de interpretação de texto, um ou outro cidadão que participava da discussão começou a distorcer o que eu ia dizendo, de forma a fazer parecer que eu sou contra cenas de sexo em romances (isso porque eu disse que não gosto de cenas de sexo “gratuito”, entendendo-se por “gratuito”: “não tinha nada mais interessante para escrever, coloquei uma cena de sexo porque o público gosta”; e acrescentei a esse detalhe a minha opinião de que usar esse recurso para prender o leitor é falta de competência).  

Essa foi a primeira parte da complicação. Como fruto dessa conversa infrutífera, em que eu tentava por B + C explicar que o que eu havia dito era A e não D, ficou parcialmente claro pra mim que esses autores usam cenas de sexo porque isso agrada o leitor. Guardem essa informação.

Passadas algumas horas, quando eu já havia até suposto que o assunto estava encerrado, chegaram outras pessoas à discussão. Uma delas, um rapaz escritor (ou “escritor”; não li o que ele escreve ainda), se posicionou contra o que eu disse e afirmou que, por experiência própria, ele gosta sim das cenas de sexo e que, quando quer ler, não quer ler nada literário, quer ler algo que o distraia e que seja de leitura fácil. Quem nunca, não é mesmo? Até aí, nenhum problema. Depois, foram chegando mais pessoas; três ou quatro, se não me engano (apaguei o post por motivos que explicarei adiante), começaram a defender a ideia levantada pelo rapaz que apoia as cenas de coito e todos passaram a gritar em coro: “Não gosta [das cenas de sexo ou dos membros avantajados], não lê!”. Bem prático, não?, como se eu tivesse deixado bem claro o tempo todo que sexo em romance é proibido!

A cereja do bolo, porém, veio mais tarde, e daí a canoa virou de vez. Um outro cara (esse eu já li e o livro—“livro” não: “folhetim”, vai, porque não tem história nenhuma: só uma sequência de cliffhangers que são postos no texto como ligação entre uma cena de sexo e outra) apareceu e apenas concordou; depois ficou quieto. Daí veio outro. Ninguém parecia concordar comigo, e logo o assunto mudou de “proporções do falo em histórias homoeróticas” para “qualidade estética dos textos homoeróticos”, sendo que não fui eu o precursor desta ideia. O ato final da ópera se deu quando um autor (esse eu também já li e ele é famosinho; as histórias que ele publica têm um número razoável de leituras, levando-se em conta a temática) apareceu e logo seus adoradores começaram a louvá-lo e fazer coro a tudo que ele dizia no tom de uma ironia bem pobre. Nesse momento, o manifesto literário que pautava a discussão era este:

Nós não queremos escrever nada literário; nós queremos escrever o que agrada o público; se agrada o público, continue: você está seguindo pelo caminho certo! Não queremos escrever o que uma ‘elite’ julga ser bom; não quero que ninguém leia meus livros na escola por obrigação! Queremos nos realizar como escritores!

(imagem: here&Now)

e assim por diante. Eu, é claro, minoria esmagada na discussão, fiquei parecendo o pseudo-cult transtornado, mas eu vou dar uns segundinhos pra vocês relerem os gritos de guerra do parágrafo anterior e chegarem à mesma conclusão que eu: 

A culpa é dos autores!

É claro! Como não pensei nisso antes?! A culpa não é de quem lê porcaria, é de quem produz porcaria! — e não estou falando que todos os que escrevem nesse grupo são porcaria, não! pelo contrário: tem uns três que salvam — inclusive, o mais popularzinho deles (que, aliás, por ironia do destino, procurou, dias antes, um grupo de crítica literária que eu administro e pediu uma review do texto dele e parece não ter gostado muito do que eu tinha a dizer (será que guardou rancor por causa disso?)) e o “namorado” dele (namorado entre aspas porque os dois têm perfis falsos e eu tenho a séria suspeita de que ambos são a mesma pessoa na verdade, mas isso não vem ao caso) escreve(m) até direitinho. — E, conforme a conversa progredia e as heresias eram despejadas uma após a outra, foi ficando cada vez mais claro pra mim que o emburrecimento literário das pessoas não é só culpa delas: é também de quem as alimenta!

Faça as contas. Quem escreve, quer ser lido. Hoje em dia, quem quer ser lido rapidamente e sem muito critério escreve o quê? Sexo! É óbvio! É lógico que agrada! Está na moda! Quem não gosta de sexo?! É tão fácil quanto somar dois mais dois: pegue dois personagens lindos, coloque todas as possíveis características perfeitas neles e recheie as páginas do livro com cenas e mais cenas de sexo! É claro que vai vender! É claro que vai dar ibope! É claro que vai ter leituras! E sabe o que é incrível acima de tudo isso? que é claro, pra essas pessoas, que a quantidade de leituras que elas recebem é reflexo simétrico da qualidade da escrita delas! GENTE!? Não é pra se jogar da ponte de tanto desespero?!


Em dado momento da conversa, já estava tão difícil levar essas pessoas que ousam se chamar de escritores a sério que eu, debochadamente, falei que era pra eles continuarem fazendo esse sucesso todo no Wattpad, que logo logo Dostoievski estaria os chamando de “mestres” de dentro da tumba. Eles riram! “Nós não queremos ser nenhum Dostoievski, nós queremos escrever o que agrada o público”...

Eu poderia partir daqui e começar toda uma discussão sobre literatura comercial, mas não vai ser possível. Sabe por quê? Porque essa categoria emergente de sub-escritores publica de graça no Wattpad. Um ou outro até tira o livro da plataforma e coloca na Amazon, mas, geralmente, os que conseguem ter suas histórias publicadas fisicamente são os que têm dinheiro pra pagar uma editora pra fazer isso (pagando bem, que mal tem?). Claro: já li coisas do Wattpad que saíram até da Amazon pra ir pras livrarias porque a editora bancou a publicação, mas aí tínhamos outra diferença: quem conseguiu esse feito sabe escrever, o que parece não ser moda entre parte significativa dos que publicam no site. Sim, porque, veja bem, já que os próprios autores reconhecem que não escrevem nada literário e reforçam a ideia de que seu objetivo é agradar o público, preceitos básicos da literatura, como a noção artística ou de trabalho com as palavras, são abandonados sumariamente. E, quando digo isso, não me refiro à utilização de figuras de linguagem, a descrições bem feitas, a cenários detalhados, não: me refiro a autores que sequer sabem pontuar o texto ou concordar sujeito com verbo — e isso me parece ser algo grave, porque é bastante recorrente. Em virtude das vantagens da autopublicação e do desespero existencial de ser lido custe o que custar, esses autores escrevem como se suas vidas dependessem disso, porque os leitores ávidos estão esperando pelo próximo capítulo! Resultado? Lixo. Lixo irreciclável. 

Mas, tudo bem, ainda que estivéssemos falando de literatura comercial e fôssemos entrar naquela velha discussão de que “tudo que vende não é bom”. Vamos fazer um paralelo com o mundo da música, que funciona mais ou menos do mesmo jeito que o mundo editorial? Vamos! Peguem aí qualquer farofa que toque nas rádios só pra vender e entreter e tocar nas baladinhas. Pegou? Agora pegue Adele. Sia. Lorde. Florence and the Machine. Ou, ainda, os que já não tocam nas rádios atualmente, como Pink Floyd, Radiohead, ou, um exemplo ainda mais magnífico: Michael Jackson. Todos esses artistas venderam pra caralho. Deixaram de ser bons? Deixaram de ser cult ou de ter valor artístico simplesmente porque foram sucesso de vendas? Na minha humilde opinião, não. A diferença: eles são/eram populares, mas também são/eram bons no que fazem/faziam, ao contrário de bastante coisa que tenho visto por aí ultimamente.

Olha, sei que aquela conversa me esgotou intelectualmente. Me senti entristecer profundamente ao ver gente exercendo o ofício da escrita visando apenas agradar o público com cenas medíocres de pornografia-barata-escrita e enredos rasos só pra entreter e ser lido. Disseram, aliás, que quem escreve pelo ato de escrever, sem visar lucros ou um futuro financeiro a partir da escrita, é hipócrita. Querido leitor que lê isto neste momento: prazer, apresento-lhes um hipócrita: eu.

Por fim, o post no grupo virou um espetáculo de dissimulação, senso comum, mediocridade, puxa-saquismo, deboche e sarcasmo tão insuportável que eu decidi apagar e poupar meus nervos, que já estavam bem gastos tentando mostrar um pouco de profundidade a essas mentes rasteiras — aquela história de que o pior cego é o que não quer ver, sabe? O problema é que eu insisto em tentar mostrar... Ai ai. Das várias tristes conclusões que se tiram desse retrato da realidade, ficam, para mim, duas: 1) precisamos dar um nome a essa nova classe de sub-escritores. Pensei em “Escritobos da Corte”, mistura de escritor com bobo da corte, mas não achei muito eufônico. E 2) Lu Schievano, eu te entendo, amiga; eu te entendo.


Lu me representando em poucas sentenças.

Beijo, gente! Até a próxima! Para me despedir, fiquem com o som de Adele, com Rolando no Profundo! — e parem de botar a culpa na E. L. James: ela só queria agradar. Fui!









Olá, gente bonita!

Como vão vocês? Espero que bem. Hoje não vou repetir aquele ritual de “faz tempo que eu não apareço aqui, como sempre” porque não é verdade: estive aqui um dia desses falando de Império Esquecido. Mas posso dizer que hoje, depois de muito tempo sim, venho falar de literatura sem falar de um livro em especial. Vamos falar sobre Literatura. Hoje quero trazer uma discussão que vem formigando na minha cabeça desde que comecei a escrever minha nova empreitada literária e me dei conta de umas coisas... digamos... interessantes. 

 

Em outro post aqui no EL (este aqui), eu problematizei algumas questões sobre a crítica literária e sobre o que é considerado bom e o que é considerado ruim, e como e por quem essas coisas devem ser definidas. De lá até hoje, não mudei de opinião quanto a nada do que disse no post citado, mas essa questão voltou a pipocar na minha cabeça quando eu... bem... me vi, deliberada e conscientemente, lendo coisas “ruins”. 

Antes, deixe-me apresentá-los a uma expressão que um professor de Literatura meu usou e eu acho perfeita: “estamos falando de filé mignon, não de Big Mac”. Esse comentário surgiu em uma conversa de Facebook em que, não me lembro por que, os participantes falavam de grandes obras da Literatura e eu, cheio de graça feito ave Maria, sugeri adicionar 50 Tons de Cinza à lista, e então veio o comentário do meu caro professor. Ultimamente, tenho lido mais Big Mac’s do que filé mignons, e isso tudo se dá, parcialmente, graças a uma plataforma online que descobri por meio da minha colega de trabalho Lorena (autora de Império Esquecido), que também publica textos por essa plataforma. Explico melhor no próximo parágrafo.

Estou me referindo ao Wattpad.  O Wattpad é uma plataforma voltada à publicação independente de material de vários formatos, sendo os mais comuns as fanfics e romances novelescos (daqueles de banca de jornal que eu adoro). Meu interesse por essa plataforma veio, como eu disse, quando, há mais ou menos um mês, tive um insight e comecei a escrever o que eu ainda não sei se vai se encaixar no formato de romance: uma história chamada Vincent (clique aqui para ler[/jabá]). O barato do Wattpad é que, geralmente, as postagens acontecem meio que em episódios, então o leitor lê e espera o autor postar o próximo capítulo (por isso gosto de chamar minha história de web series, haha).

Graças ao sistema de tagsque o site disponibiliza pra ajudar na divulgação das histórias, existe aquela listinha já tradicional de “histórias recomendadas”. Antes de prosseguir, um comentário paralelo sobre um tema que eu tentei encaixar neste mesmo post, mas acho que não consegui: me impressionou seriamente a quantidade de histórias em que a palavra vampire está ou nas tags ou no título. E me impressionou mais ainda a quantidade de leituras que essas histórias recebem (algumas delas têm mais de dois milhões de leituras; isso quer dizer que, somadas as leituras individuais de cada capítulo, mais de dois milhões de pessoas passaram os olhos por ali, e esse número leva em conta o endereço de IP dos usuários, então, por mais que haja uma margem de erro aí por conta de rotatividade de IP, o número é assustador). Eu pensei que esse boom de fantasia envolvendo lobisomens, vampiros e outras criaturas das trevas + mulheres indefesas já tivesse passado, mas, pelo menos no Wattpad, não passou. Enfim, continuando. Na minha listinha de recomendações, baseada nas tags da minha história e nas histórias em que eu clico, aparecem recomendações de histórias de amor homossexual, que é sobre o que eu escrevo, basicamente. Curiosíssimo que sou, parei pra ler três dessas histórias (duas em inglês e uma em português).

Não é querendo me gabar nem nada, mas meus poucos anos de experiência me permitem dizer que eu escrevo muito bem, obrigado. Quando abri a primeira história, comecei a ler sem muito interesse e, logo na primeira página, havia erros de ortografia e inadequações sintáticas que saltavam aos olhos. Com o desenrolar da leitura, parecia que o autor escreveu a história exatamente como se estivesse contando a um amigo em um encontro casual. Aqui e ali entravam umas metáforas bem pobres, que deixavam o texto ainda mais pífio. Depois, fui pra segunda história em inglês. Esta estava um pouco mais bem escrita, mas ainda apresentava uns problemas meio graves, especialmente pra um falante nativo de Inglês. A terceira, então, parecia ter sido extraída de uma comunidade de contos eróticos dos tempos do Orkut, mas, nessa terceira, o cara devia ter um senso autocrítico meio superestimado e se achava escritorzão, o que me deixava ainda mais desgostoso da falta de senso estético do negócio todo.

Mas, feitas essas críticas todas, sabe qual é a pior parte?, que as três hitórias tinham em comum? Eu digo: era IM-POS-SÍVEL parar de ler. Impossível. Baixei o Wattpad pra celular e fui pra cama. Debaixo de cobertor, de madrugada, com tanta coisa mais útil pra fazer (especialmente dormir), eu devorava as histórias. As duas de uma vez (a primeira eu abandonei porque aconteceu um negócio na história que me broxou e eu desisti, e a escrita tava muito sofrida); qualquer hora que eu estava à toa, pegava o celular e ia continuar as leituras. E assim foi; acabei as duas em três dias. Pra vocês entenderem meu drama, vou dar a sinopse das duas histórias que eu terminei: a primeira, em inglês, era sobre um rapaz alegadamente heterossexual que se apaixona, da noite pro dia, pelo capitão do time de futebol americano da escola e eles começam a se envolver quando esse capitão pede pro apaixonado ajudá-lo com os exames finais da escola. Essa história tem uns vinte capítulos e esses vinte capítulos são a descrição mais pastelona do desenvolvimento do relacionamento dos dois. Umas questões familiares são postas em jogo, também; coisa de sair do armário e enfrentar problemas de aceitação. Nada muito profundo e tudo bastante exagerado. A segunda, em português, era sobre o filho de um advogado que trabalhava pra uma grande firma e estava prestes a ser demitido. Pra garantir o emprego, o pai pede pro filho se aproximar e fazer amizade com o filho do dono da firma. O que ele não sabia é que o filho do dono da firma era um dos caras com quem o filho coagido fazia bullying no colégio. O relacionamento deles começa quando o protagonista vai cumprir as ordens do pai e se aproxima do filho do dono da firma. A história segue a mesma linha da anterior, com a diferença de que, nessa, todos os personagens têm seu nível de insuportabilidade; uns mais, outros menos, mas não dá pra se apegar a nenhum deles.

Ainda assim: li tudo praticamente da noite pro dia. Por vezes eu me pegava pensando “PQP, mas que historiazinha mais fuleira!”. Não adiantava: eu não conseguia parar de ler. O nível de idealização romântica das situações postas em ambas as histórias beirava o ridículo e as cenas de sexo, que não eram poucas, só serviam pra aguçar a curiosidade. Eram dois Big Mac’s com molho picante. E, no final, é claro que tudo termina bem e todos os “problemas” que aparecem durante a narrativa são resolvidos sem grandes traumas. A história acaba, nada muda na vida de quem lê, o coração sente aquele lapso de ternura romântica e logo a memória seletiva apaga. É isso que acontece com a maioria das histórias ruins: lemos por curiosidade e, quando elas acabam, falamos mal e as esquecemos em pouco tempo, não é? Pois é. Mas e quando a história ruim te toca?

Anteontem à noite eu comecei a reler um “conto” (tem quase 140 mil palavras, mas o autor jura que é um conto) que foi literalmente tirado da extinta “Contos Eróticos Gays” no Orkut (e atire a primeira pedra quem é gay e nunca deu uma passadinha por lá). Me lembro de ter lido essa história há uns quatro, cinco anos e ter gostado muito, tipo muito mesmo. O autor diz que é tudo verdade, sendo ele mesmo, inclusive, o protagonista da trama, mas há elementos da própria narrativa que condenam a falácia (contudo o pessoal, naquela época, acreditava piamente que era tudo real). “Dois heteros numa balada GLS” é o nome da história (dá pra encontrá-la online (foi o que eu fiz, by the way)). 140 mil palavras é mais ou menos um livro de 400 páginas. Li tudo de anteontem pra ontem, metade antes de dormir e metade assim que acordei. E, olha, mesmo sendo a segunda vez que leio (eu já tinha me esquecido de quase todos os eventos), parece que a história acabou e arrancou um pedaço de mim. 

O padrão da narrativa é o mesmo das três outras histórias que eu já descrevi, o texto é narrado em primeira pessoa de forma bem prosaica, há marcas de oralidade por toda parte, os detalhes eróticos (que são muitos, afinal o romance é, essencialmente, um “conto” erótico) são descritos em minúcias e os três personagens principais, que formam uma espécie de triângulo amoroso, têm seus altos e baixos e seus momentos. A história têm muitas reviravoltas, muitos detalhes desnecessários, o protagonista é irritante, vive sempre num conflito que não se resolve até a literalmente última página, mas, quando acaba... foi uma facada no peito, e olha que ninguém morre. 

Quando terminei de ler, pouco antes de vir aqui escrever, fiquei com isso na cabeça. O que é que existe nessas histórias “ruins” que consegue atrair até leitores mais exigentes, por mais que a maioria deles seja orgulhosa demais para assumir? Em termos de construção artística, de engenhosidade, de técnica, todas as histórias que citei são indiscutivelmente descartáveis, mas em termos de conteúdo, essa última foi um balde de água fria na minha cara, e as outras duas me fisgaram mesmo sendo completamente vazias. Nessas horas, o que conta mais? A forma ou o conteúdo? Ou essas histórias conquistam por despertarem o lado romântico obscuro de quem tem um lado romântico escondidinho lá nas profundezas da empáfia (frases pseudo-intelectuais como essa existem aos montes nas três histórias que li até o fim)?... Fiquei pensando nisso e ainda não consegui chegar a uma resposta. Mas, depois de todas essas leituras, acho que consegui compreender com um pouco mais de empatia as pessoas que leem o romance pornô da E. L. James e se derretem pelo Mr. Grey... Ah, como eu compreendo!... *suspiro* 

Bom, deixe-me voltar pra minha catarse, agora. Com licença. 





Bom dia, gente linda!

Depois de anos mil, voltei, como sempre faço; espero todo mundo me esquecer e depois volto com um texto lindo e revolucionário que não muda nada na vida de ninguém e é mais ou menos sobre isso que eu vim falar hoje. Antes, gostaria de apresentar a nova ~seção~ do blog, que é esta, que eu inauguro agora. Geralmente, no Paralela Mente (odeio quando rima) eu falo de coisas que não têm muito a ver com nada, mas hoje o negócio é estritamente literário, por isso julguei necessário vir a este espaço reservado porque não sou obrigado. Digo, ainda, que o texto hoje é um pouco sério, longo e talvez possa destoar um pouco do tom jocoso que eu geralmente uso nas minhas postagens, mas não se preocupem: ainda sou eu. Vambora?



Este texto começou a ser escrito na minha cabeça dentro do ônibus, no caminho de volta pra casa, agora, às onze e poucos – e é esse o motivo de eu estar escrevendo ao adiantado da hora; se eu deixasse pra amanhã as coisas se esfriariam na minha cabeça e talvez não saíssem da forma como as concebi quando comecei a fertilizar todas essas indagações que eu vou propor aqui agora (comecei a escrever isso ontem à noite, gente, relevem os dêiticos, hehe). Além disso, não, pera, não tem além disso. Ah, sim. O título. Fiquei um bom tempo pensando num título justo pra esta postagem, mas a única coisa que me veio à cabeça foi isso. “Mas pera aí”.

No curso de Letras, o qual eu estudo, feliz ou infelizmente existem matérias das quais não se pode escapar. Embora eu, do alto da minha coroa de plástico, me intitule um escritor, confesso que nunca fui muito chegado a Literatura, com letra maiúscula, aquela que vale muito e é discutida nos círculos intelectuais; esse negócio de ler os clássicos, Dom Casmurro, Dom Quixote, Memórias Póstumas, Saramago e outros tantos que fazem parte do cânone da Literatura latino-americana, brasileira, portuguesa, lusófona ou whatsoever sempre me remeteu a uma frase dita por Aline Dorel, personagem do Terça Insana, que é praticamente um life motto: “Deixe-me ser burra! Ser intelectual dói!”. Assim sendo, não é de se surpreender que eu não tenha lido Dom Casmurro, ou Memórias Póstumas, ou Grande Sertão, ou Iracema e uma longa, longa lista. E, para a minhasurpresa, isso gera reações como: “Minha nossa! Você é aluno de Letras e não leu Dom Casmurro?! Até eu já li!”.

Gente?
...

Não li e, francamente, não tenho a intenção de ler, a não ser que isso seja cobrado em alguma prova e eu não tenha escolha né, aí é outra história. Mas aonde quero chegar com isso é: no curso de Letras, tive (ainda tenho) o privilégio de conhecer professores ma-ra-vi-lhosos, especialmente Bruno, Carlos e Luciana – faço questão de citar os nomes –, que me fizeram enxergar as coisas por um outro viés, e isso se deu por um segundo motivo que me afasta da Literatura com L maiúsculo: eu não tenho muita paciência pra poesia. Melhor: eu não tenho sensibilidade poética; não consigo ler as entrelinhas; não consigo traduzir as imagens. Quer ver só? Eugénio de Andrade, poeta português, escreveu isto:

Colhe todo o oiro

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

Colhe todo o oiro do dia na haste mais alta da melancolia. Quatro versos, uma sentença e, essencialmente, uma mensagem: encontre proveito mesmo nos momentos de tristeza. Não fosse a belíssima elucidação do Dr. Carlos, eu poderia passar o resto da noite relendo o poema que, provavelmente, não chegaria a essa conclusão. Segundo ele, era essa a onda do Eugénio: dizer muito usando pouco. Daí eu penso: nossa, bem pensado, né? Ouro, haste mais alta da melancolia... Bacana, mas

O QUE É QUE ISSO MUDA NA MINHA VIDA?

Eu não sei se isso é pensamento geral, mas tem-se como verdade (quase?) absoluta entre meus queridos professores que a boa literatura é aquela que muda, que cinde, que bate na cara, que te transforma de algum modo, que te faz enxergar o mundo com outros olhos, que te torna crítico e que faz inúmeras outras coisas por você. Isso é tido como boa literatura. Se você sai de um livro do mesmo jeito que entrou, então ou o livro não é bom ou você é um leitor medíocre. Se não me falha a memória, essa ideia começou em literatura em Língua Portuguesa, pelo menos, com os modernistas de Portugal, que ficavam indignados ao verem as pessoas indo assistir a musicais da Broadway enquanto o mundo jorrava sangue judeu e Francisco Franco tocava o terror na Espanha. Daí vem José Gomes Ferreira com todo seu ódio no poema XL (quarenta) e mete o pau nas formas de expressão artística sem engajamento social.

Mas pera aí

Quer dizer então que se a Literatura não for lifechanging, ela não tem valor?, não é boa?

Vou usar outros exemplos pra aproximar as coisas. Seja eu o exemplo. Sou professor de Inglês, ok. Na minha turma, e até dentro do curso de Letras, sou o “sabidão”. Daí eu penso: “sou f*da demais, por favor”. Por outro lado, onde trabalho existem pelo menos três ou quatro que sabem trinta vezes mais Inglês do que eu. Daí eu penso: “aff, não sei nada, velho”. Mas o fato de eu saber menos do que outros necessariamente quer dizer que eu sou inferior ou pior?, ou que eles são melhores professores do que eu? Pelo fato de existirem autores que escreveram histórias que mudaram o rumo da Literatura, os que não escreveram histórias tão importantes ou impactantes são “piores”? Shakespeare, que foi praticamente Deus na Literatura ocidental, escreveu Romeu e Julieta, talvez a maior tragédia de amor da história da humanidade, exagerando um pouco (muito); por esse motivo ele é melhor do que Nicholas Sparks, que escreveu romances que terminaram da mesma forma (ou melhor: escreveu romances que terminaram da mesma forma)?, ou, como se diz mais comumente, Nicholas é pior do que ele? Ou, ainda: Nicholas é ruim? Vejam bem: nessa comparação, não estou me referindo a forma: estou falando do conteúdo. É certo que Literatura tem que ser vista pelos dois lados, forma e conteúdo, e eu sei que Shakespeare sabia jogar com as palavras como muito poucos. Aquela frase "A horse, a horse, my kingdom for a horse!" (da peça Ricardo III), por exemplo, é de arrepiar, mas e o conteúdo? Comparando storylines, ele não escreveu, em Romeu e Julieta, nada muito diferente do que o Sparks escreveu em todos seus romances; só há alguns séculos e contextos culturais de diferença.

O que é que determina se uma história é boa ou ruim, afinal?

Geoffrey Chaucer, conhecem? Praticamente o pai da literatura inglesa; o primeiro escritor a usar o Inglês como língua de produção artística em vez de Latim, Francês ou Grego. “Os Contos da Cantuária”, por exemplo, são um registro histórico preciosíssimo sobre os tempos da Idade Média, mas, pelo menos eu, quando li o conto da Prioresa, o conto da Freira, o conto da Wife of Bath, textos que constituem os cantos da Cantuária, fiquei tipo:

Who cares?
Ok, tem lá sua relevância histórico-cultural, mas, pra mim, não mudou nada. Terminei de ler exatamente como comecei, então posso dizer que o Chaucer é ruim? Ou eu sou um leitor medíocre? Da mesma forma, posso dizer que aquela menina que chora litros quando o mocinho ou a mocinha morre no romance é uma babaca? Também posso dizer que a quarentona que a-do-rou 50 Tons de Cinza é uma mal comida e não sabe o que é Literatura? Devo entregar a ela um Machado ou um machado pra ela se matar? Shakespeare escreveu sobre bruxas em Macbeth, mas JK Rolling escreveu sobre bruxos em Harry Potter e os intelectuais da Literatura dizem que a saga que conquistou milhões e vendeu mais de um bilhão de exemplares é uma bela porcaria. Mas por quê?

Outro exemplo, agora na música. Vejamos o sertanejo universitário, muito em voga ultimamente. Letras com ambiguidades de criatividade duvidosa, rimas pobres, ritmo grudento, métrica manjada e arranjos semiprontos. Michel Teló. Gusttavo Lima. Todas as duplas sertanejas que possam existir. Do outro lado temos Mozart, Beatles, Radiohead, Björk, Chico Buarque, Maria Bethânia. E aí? Quem é bom e quem é ruim? Adoro Björk, mas tenho pavor a música sertaneja, assim como não me simpatizo nem um pouco com MPB. Quão inculto sou eu? Quão inculta é a menina que está na balada curtindo um Ai Se Eu te Pego? Talvez ela não seja inculta, assim como eu não sou, e isso se dá por um motivo muito simples: eu não sou público alvo do Michel Teló, assim como ela não deve ser público alvo do Mozart. Por que é que eu vou fazer juízo de valor sobre algo que não foi feito pra mim? Os Cantos da Cantuária não foram feitos pra mim, assim como 50 Tons de Cinza não foi feito pra ativistas feministas. Mas isso define o que é bom o que é ruim?

E ainda que partíssemos, agora, para a parte da forma: ora, eu sei regência verbal e nominal, sei manter a concordância em frases longas com a sintaxe totalmente invertida, sei muito bem onde e quando colocar vírgula, ponto, ponto e vírgula e ponto final, faço uns trocadilhos até interessantes e crio uns diálogos que julgo muito bons. Mas escrevo o quê? Literatura gay. Por mais que eu confie na minha escrita, quem pode/deve/vai avaliar com justiça se eu sou bom ou não? Um leitor de Dan Brown?

Já que é assim, o é um bom livro, afinal?

Pra mim, o bom livro é o livro que te serve pra alguma coisa. Camões escreveu 8816 versos decassílabos heroicos com rimas ABABCC em “Os Lusíadas”. Sabe o que é isso? Olha só:

E|ter|nos| mo|ra|do|res| do| lu|zente (A)
Es|te||fe|ro| |lo, e| cla|ro as|sento, (B)
Se| do| gran|de| va|lor| da| for|te| gente (A)
De| Lu|so| não| per|deis| o| pen|sa|mento, (B)
De|veis| de| ter| sa|bi|do| cla|ra|mente, (A)
Co|mo é| dos| fa|dos| gra|ndes| cer|to in|tento, (B)
Que| por| e|la| se es|que|çam| os| hu|manos (C)
De As||rios|, Per|sas|, Gre|gos| e| Romanos, (C)

A segunda/terceira/quarta + a sexta + a décima sílaba poética são tônicas e os versos AA, BB e CC rimam. Todas as 8816 linhas da epopeia são assim. Imagine quanto tempo levou pra construir isso. Camões o fez. Além, é claro, de ter descrito as mulheres mais lindas do mundo em seus sonetos de amor. Mas a viagem de Vasco da Gama me serviu pra quê? As mulheres loiras e brancas feito a luz me serviram pra quê? Absolutamente nada. A maestria do poeta justifica a bondade da obra? Desculpa, mas, pra mim, não. É, lindo, é sim, mas pra mim não teve nenhum propósito. Por outro lado, tem um livro desses de banca de jornal com nome de mulher (os quais eu defendo até a morte que todos deveriam ler) que me custou R$2 e foi uma das histórias mais legais que eu já li na vida, pena que eu não lembro o nome.

Esse mesmo professor Carlos uma vez disse: a Literatura não serve pra nada, e é por isso que ela serve pra tudo. Com esse sabor de mistério, retiro-me para as sombras e deixo a pergunta: pra você, o que é boa Literatura, afinal? Tenham todos um lindo dia e até a próxima (serei menos sério na próxima, prometo). Beijo.



 
Por mais jovem que eu ainda seja, a vida já me pregou algumas peças colossais; artimanhas maldosas que, honestamente, não sei até hoje como consegui superar. Quando recebi pelo correio Perspicácia, enviado para mim pelo próprio autor Marco Antonio Rodrigues, acabei me sentindo um pouco nostálgico quanto a essas dores do passado. Não esperava que fosse encontrar uma obra tão completa sobre as diversas fases da vida. Mas como nunca fui de abandonar o barco por causa de previsão de tempo, larguei de manha e me prestei a ler pelo menos um texto por dia, em uma espécie de maratona perspicaz. E hoje, posso dizer que cheguei na linha de chegada com o orgulho de um vencedor.


O livro é composto por uma seleção de crônicas inteligentes e divertidas, abordando assuntos recorrentes no nosso dia-a-dia como a insatisfação inconstante do homem, as escolhas que somos submetidos, o companheirismo dos cães, o amor das mães e até o dom de envelhecer o corpo sem corroer a alma. Cada texto nos entrega uma reflexão diferente, sempre finalizando com uma palavra-chave que resume exatamente a ideia da crônica: "Aceite-se", "Aventure-se". "Usufrua." Pessoalmente, me deliciei bastante com o estilo de escrita do autor, sempre tendo insights interessantes sobre o mundo ao nosso redor. Acredito que Perspicácia carregue uma parcela de pessoalidade bem grande - Como se na verdade suas crônicas fossem pedaços de uma narrativa alinear da história de Marco Antonio Rodrigues. Não é à toa que dizem que uma obra de arte é, nada mais nada menos, o retrato de um artista. 
 
"Todos, sem exceção, estamos fadados a crescer. E,  mesmo que você não queira, terá que se despedir da infância, depois da adolescência. Mais adiante, a juventude acenará com a mãozinha dando tchau e lhe apresentará a maturidade que anda de mãos dadas com a velhice, a qual, por sua vez denota o término"
                                                                                       (Texto "Embarque e Desembarque", pág. 65) 
 

 O trecho acima faz parte da minha crônica favorita do livro, Embarque e Desembarque. Nela, o autor compara a vida a uma viagem de ônibus, onde as pessoas desembarcam nos bairros da adolescência, da juventude, da maturidade e da velhice até chegar a linha final. Curiosamente, os questionamentos dos passageiros dentro da condução se assemelham aqueles que fazemos constantemente a nós mesmos, dúvidas que mordem nossa sanidade todo dia e permanecem sem respostas até a morte. Para não dar mais detalhes, adianto que o final soltou um sorriso do meu rosto tão espontâneo que eu tenho certeza que foi um dos motivos do livro me ganhar de imediato.
 
Autoavaliar-se com honestidade ainda é tarefa difícil para muitos, mas analisar o outro é comum, fácil e, em alguns casos, até um hábito pernicioso. Por que então não extrair algo positivo dessa conduta equivocada? Por que não aquilatar-me, avaliando com honestidade a conduta das pessoas com quem tenho estreita convivência, a energia dos ambientes que frequento. Eles refletem meus gostos, minha personalidade, o que me atrai. É como se eu estivesse analisando a mim mesmo.

 
(Texto "Afinidades", pág.135)
 
Como se me enviar o livro não fosse o suficiente, fecho esse post mostrando um pouquinho do carinho do autor com seus leitores. Olha só que legal o autógrafo que ele fez para mim:

 
 
Veja também o Book Trailer de Perspicácia!
 

                                                                                                                     

Filmes de terror sempre me despertaram fascínio – lembro-me de que um dos primeiros  que assisti na vida foi Chuck, o Brinquedo Assassino. Eu tinha uma lista de todos os filmes de terror que já havia visto, e esses passavam das centenas facilmente! Um dia, então, eu comecei a ler contos de terror, coisas que achava perdidas na internet, ou eu mesmo os escrevia – embora nunca tivesse talento para redigir esse gênero. Até que, um belo dia, encontro um texto sobre uma grande personalidade da literatura macabra: Edgar Allan Poe.  Porém, nunca achei NADA do mesmo para ler, o que me frustrou por bastante tempo. Não obstante, recentemente, por uma linda jogada do Destino, achei o mesmo na biblioteca da escola. Foi tamanha emoção e êxtase que me cobriram naquele momento, uma energia que eletrizava cada partícula existente e imaginária em mim! Vocês conseguem imaginar-se na frente a um Deus ou algo parecido? Não? Ok. ENFIM, naquele momento, meu instinto falou tão alto que eu, sem pensar nas consequências, agi feito um gatuno, enfiando o livro de forma discreta na mochila. Isso foi apenas uma cena de algo que se repete até hoje, porém não posso induzir ninguém a fazer isso, é ilegal! Claro, apenas se te pegarem no flagra.

Vamos pular a parte onde eu amo terror e eu roubei um livro do patrimônio público. (Notam como essa parte tem um certo efeito? “Roubar algo de patrimônio público” poderia indicar que roubei uma estátua famosa ou a Mona Lisa do governo francês! Eu amo esse exagero causado pelas palavras.) Eu roubei o livro. Foi aí que eu o abri.

Desculpe, eu não falei que livro era, né? Se chama “Histórias Extraordinários”, é uma coletânea de contos (sério, Julio?!)... extraordinários. Sem mais. A edição que eu tenho ilegalmente possui quatro contos ilustrados (quase morro com esses desenhos) por Poly Bernatene, e foi lançado pela editora Melhoramentos.

Agora, vamos à receita de Edgar Allan Poe:

Coloque uma dose de obsessão, um punhado de metáforas sombrias e um eu-lírico perturbado, sem se esquecer de doses de acidez, e, é claro, de gelo para completar. Edgar Allan Poe consegue criar uma narrativa completamente envolvente e trágica em sua coletânea de Contos Extraordinários, cujas historias são retratadas em clima sombrio, desesperador e visceral. Você sente a dor, o medo e a angústia do autor em suas metáforas, tudo através de cenas que podem nos parecer incrivelmente realistas. É como se um medo profundo se transformasse em uma facada, ou seria a facada que o personagem levou fruto de sua fobia? Bem, isso depende muito do ponto de vista do leitor.

Os contos presentes no livro são: “A Máscara da Morte Vermelha”, “O Coração Revelador”, “O Gato Preto” e “O Retrato Oval”. Todos eles tem excelência em um terror psicológico, nada que te assuste como ler Stephen King ou ver Chuck, mas, certamente os contos te proporcionam uma agonia.Vou dar uma análise pessoal e curta (não quero dar spoiler, tenho mania disso) sobre cada uma das histórias.

(As frases em itálico contém spoilers. Não tão graves, mas spoilers)

Começamos com A Máscara da Morte Vermelha. Esse é o meu favorito, por mais que não seja um dos mais famosos do autor. Ele trata-se de um jogo de narrativa direta e um pouco... deixa eu ver... alegórica. O castelo onde se passa a história é tão complexo e possui cantos tão sombrios que me faz pensar que poderia ser a própria mente do autor. Agora, imagine se algum “estranho” adentra o seu “castelo” e começa a matar todos os seus “habitantes” (olha o spoiler aí!)? O que será esse visitante? Um alter-ego? Seu subconsciente? Eu não sei, sinceramente, mas é macabro pensar na ideia de que tudo no meu “castelo” poderia ser destruído  – sonhos, ego, identidade. Imagina só?

Somos então levados para a história do Coração Revelador. Bem... Eu não entendi direito a síntese que esse conto pretendia passar (será que ele queria passar alguma coisa? Para mim, Edgar não era um autor que se preocupava tanto em passar uma mensagem. Parece que ele escrevia como forma de fuga ou delírio, amo/sou). Esse texto nos faz mostra o lado ambíguo e seu sentimento de culpa que o torna insano e autodestrutivo.

Logo em seguida adentramos na história mais famosa do autor, O Gato Preto. Este é, sem sombra de dúvida, o conto mais pessoal e desesperado de Edgar (me faz pensar que realmente aconteceu!). Vemos um Poe consumido em álcool e loucura, onde sua própria mente prega peças e ele acaba por adquirir hábitos tão sombrios que o levam extremas atitudes. Vemos um lado possessivo e sombrio do autor, que pode ser simbolizado pelo próprio gato preto, que se chama Plutão – o Deus romano da Morte e do Submundo, que pode ser interpretado de várias formas. Allan Poe vê-se em toda uma loucura, todo um fetiche (oi?) e fanatismo interior que foi projetado no bichano. No fim, temos a impressão de que toda a carga mental e emocional que ele depositou no animal virou-se contra ele, causando a sua destruição.

Por último, temos o Retrato Oval, esse é outro que eu não entendi, sabe? É a história de um quadro. Ah, pera, acabou de me vir uma teoria na mente (gente espontânea, a gente se vê por aqui!). A história do quadro é de que o homem pintou o quadro perfeito, e enquanto pintava este, não notou que a modelo – sua esposa – sucumbia em doença em morte, permanecendo apena passiva e quieta, aceitando a condição. Ela se contentou com a morte iminente apenas para dar satisfação ao homem que amava.É outro caso de um sentimento de posse e foco exagerado, onde só temos olhos para tal coisa, e acabamos por dispersar. No caso do escritor, ele perdeu as estribeiras, mas vemos nisso o quanto o autor revela novamente de si – com a sua própria mania, o seu “Deus pessoal” que o levou a tais coisas descrita por ele em diversos de seus contos. Vemos nos contos de Poe as suas manias autodestrutivas e de total loucura, algo que parece ter sido criado por ele mesmo. A mania do julgamento próprio, a sua loucura que entrega seus atos e parece controlar ele, uma batalha interior que só leva ao caos da mente.

A princípio, é isso. Existem várias versões de Histórias Extraordinárias, e recomendo todas elas para os amantes do gênero. Sério. Menos um conto que li sobre uma múmia falante, aquilo não é terror, é política. 




Boa noite, gente bonita.

Cês ‘tão bem? Olha, espero que estejam melhores do que eu, porque minha semana não foi lá muito boa. Notícias inesperadas, desagradáveis, muita gente feia no ônibus (cof, cof), muita coisa pra fazer, coisas pra esquentar a cabeça, vixe, uma loucura. Mas hoje é domingo, não é? Pois é. Doravante (adoro essa palavra) o Paralela Mente vai ~ao ar~ todos os domingos, para a nossa alegria de todo mundo!

Muito bem. No post de hoje eu resolvi falar sobre um tema polêmico. Mentira, nem é polêmico, mas estou usando esse termo porque o assunto a ser tratado hoje já me gerou uma boa discussão com o meu digníssimo namorado.



Romance + morte, esse cálculo que, pelo visto, vem dando certo há muito tempo. Mas, antes de começar o post, quero deixar dito que estamos admitindo aqui o termo “romance” no senso comum: história de amor, e não o gêneroromance, certo? Certo. Também não estou direcionando este post a nenhum público específico: nem adolescentes, nem adultos, nem homens nem mulheres: é geral.

No meu post de apresentação, comentei que detesto essa mania de fazerem todos os romances gays terminarem em tragédia. De uns tempos pra cá, parei pra pensar e cheguei à conclusão de que não são só os romances gays: os romances hetero também! Daí parei pra refletir sobre isso. Por que é que as pessoas são tão fascinadas, ou, por que as histórias de amor têm que terminar em tragédia pra serem bonitas? Onde foi parar aquele antigo interesse pelos romances com final feliz? Por que só os romances a lá Nicholas Sparks são bonitos e tocantes? Tenho cá minhas dúvidas.

Meu digníssimo disse que às vezes é necessário que haja essa perda da pessoa amada pra que a outra dê valor ou alguma coisa nesse sentido e foi aí que discutimos. Eu não penso assim. No filme que vimos, cujo nome não hei de falar pra não dar spoilers, a personagem que vive passa boa parte da história sendo babaca, e a personagem que morre... Bem, não era babaca. A meu ver, dentro de um relacionamento, a pessoa que precisa perder a outra pra perceber que estava fazendo cagada atrás de cagada é babaca. Suponhamos que esse relacionamento acabe. Pronto, acabou. O(a) a babaca percebe que errou e vai no Te Quero de Volta, daquele programa do Rodrigo Faro, pra tentar resgatar o tempo/amor perdido. Aí a pessoa amada dá uma segunda chance e as coisas ficam bem novamente. Funciona, não funciona? Sim, funciona! Mas por que não vemos isso no cinema ou na literatura? Percebam que a crise de consciência nunca vem por um motivo que não seja a morte.

Parem pra pensar. Façam uma listinha aí na cabeça de vocês: 5 romances memoráveis com morte no final e 5 romances memoráveis sem morte no final. 30 segundos pra cada. VALENDO!

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E aí?

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Tá acabando.

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Aposto que os com morte no final vieram fácil. E os sem morte no final? Demorou, não é? Agora eu pergunto: qual desses que você considera mais bonito? O com morte no final, não é? É. Pois é.

Talvez seja por isso que eu gosto tanto das comédias românticas. Alguém já viu comédia romântica com final triste, ou em que o casal não fique junto no final? Ok, é previsível, todo mundo sabe que no final vai dar tudo certo, mas, ainda assim, existe todo um desenvolvimento da trama. O desenvolvimento da história é também o desenvolvimento do sentimento dos personagens envolvidos. Se a função do romance trágico (gosto de chamar assim) é mostrar o quão profundo é o amor que existe entre os personagens (tão profundo que, às vezes, não dá nem pra saber de onde ou por que surgiu tanto sentimento), a (boa) comédia romântica consegue fazer isso tão eficientemente quanto, ou ainda melhor, arrisco dizer.

“Mas na vida nem tudo tem um final feliz!”

Literatura/cinema não é vida e eu não estou falando de final feliz, estou falando de morte. Agora, neste exato momento, só consigo me lembrar de UM romance (que, aliás, é uma quase comédia romântica) em que o casal não fica junto no final e ninguém morre. O motivo do término do relacionamento em questão é incompatibilidade de gênios, o que também não é nenhuma novidade dentro desse âmbito, mas nenhum dos dois precisou morrer pra que houvesse aquela sensação de “oh, meu Deus, fiz tanta cagada que Fulano agora não me pertence mais!”.  

“Ah, mas e a catarse?”

Foda-se a catarse, ora, quem disse que eu quero uma? Se for pra assistir algo que me faça sentir que o final de um amor é a morte, prefiro assistir... sei lá. Não inventaram romance zumbi ainda, inventaram? Se não, fica a dica. No filme que usei de exemplo aí em cima, cujo nome não me lembro, quem assiste torce bastante pelo casal, mas, no final, não dá certo. Fiquei catártico por uns 20 minutos.

Sempre fui contra a glamurização da morte em qualquer circunstância, e é bem isso que acontece em boa parte dessas histórias. O amor é lindo, sim, mas daí a precisar ter uma morte no meio do caminho pra perceber essa beleza eu já acho meio desnecessário. “Perder pra dar valor”. Precisa morrer? Seu cachorro precisa morrer pra você saber que o ama? Você precisa morrer uma perna pra saber que precisa das duas pra poder andar? Não basta perdê-la? Faça-me o favor.

“Ah, mas e a Saga Crepúsculo? É uma história de amor sem morte no final!”

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Então é isso, pessoalzinho. Prazer estar com vocês de novo. Tenham todos uma boa semana e nos falamos no próximo domingo. Até lá!

Natan