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Qualquer pessoa que acompanha os meus posts com uma mínima assiduidade sabe que eu sou um puxa-saco enrustido de Lionel Shriver. Digo isso porque este já é o terceiro livro da autora que apresento no Escolhendo Livros e, como se ainda houvesse dúvidas da minha parte, Dupla Falta foi mais um tapa na cara que eu não me arrependo de ter levado (e admito que estou escrevendo isto com um sorrisinho sacana de um típico fã orgulhoso estampado no rosto). Da primeira vez, foi a ousadia macabra de Precisamos Falar Sobre o Kevin que me deixou embasbacado; na segunda, o irônico poder das tomadas de decisão recorrentes na vida, descrito acidamente em O Mundo-Pós Aniversário; agora, Dupla Falta coloca em foco uma das facetas mais mesquinhas e nauseantes que o ser humano tem a coragem de possuir.... Talvez este tenha sido o livro de Shriver mais difícil de tragar.

Sets, games, aces e match points. Para a ambiciosa Wilhemena "Willy" Novinsky, não há linguagem mais sedutora do que a presente em uma boa partida de tênis. Como uma jogadora profissional, Willy dedica todas as suas forças a alcançar o famoso ranking dos 100 melhores da elite tenista, um objetivo que moldou as suas escolhas de vida desde que descobriu o seu maior sonho quando ainda jogava descompromissadamente no quintal de casa. Mas quando conhece Eric Oberdorf, Willy mal pode acreditar que exista um homem mais adequado para compartilhar o seu estilo de vida. Eric é um charmoso aspirante a tenista profissional, embalado com a inteligência aguçada de um recém-formado em Matemática. Se o tênis já não preenchesse o cargo, Eric provavelmente seria a sua alma gêmea. No entanto, Eric logo começa a mostrar que a sua habilidade está muito acima do esperado... Poderia um relacionamento sobreviver a pura e simples competição de egos?

Ler Dupla Falta foi uma experiência angustiante. Irritante. Talvez até desgostosa em alguns momentos. Digo isto porque eu me senti incrivelmente afastado da senhorita Novinsky, que simplesmente é uma mulher metida a besta demais pro meu gosto (pronto, falei!). No entanto, a minha falta de identificação com os sentimentos da personagem não é exatamente um ponto negativo; apesar do meu desgosto com a atitude egocêntrica e os insuportáveis mimimis que aparecem aqui e ali (Eric não é uma das pessoas agradáveis de se lidar com a sua necessidade em ser bom em tudo, mas há horas que você não a-g-u-e-n-t-a mais os ataques de estrelismo de Willy!), a protagonista consegue ser interessante, até pela próprio impacto de suas reações diante dos problemas que enfrenta durante as reviravoltas da trama. Só para você ter uma ideia, vamos colocar as coisas em outra perspectiva:

"O seu sonho é ser uma tenista. Desde os seis anos de idade, você treina todos os dias incansavelmente para um dia ser a melhor atleta possível, apesar das inúmeras barreiras no caminho. E os obstáculos não são poucos: Seus pais sempre foram contra, a concorrência é alta e o campo profissional esportivo ainda é entupido de machismo. Mas você consegue se destacar a ponto de entrar em uma escola de prestígio através de uma bolsa (!) e ainda com o auxílio especializado de um dos melhores treinador na área (!!). Ai quando você decide aliviar a pressão, deixa o mundo do jogo pela primeira vez e se permite tentar o amor para variar... Este alguém cresce ao seu lado e começa a se tornar.... Melhor que você."

Com certeza, isto é, no mínimo, frustrante.

Através deste exercício de "colocar sob perspectiva", até consigo entender um pouco mais da visão da personagem. Mesmo sendo difícil admitir o quanto todos nós somos um pouco egoístas quando se fala em perseguir os nossos maiores sonhos, dar a chance para uma leitura deste tipo ajuda, e MUITO, em aceitar a ideia de que sim, nós também somos uma Willy de vez em quando (ok, algumas pessoas são com mais frequência, HAHA). Por isto, mesmo que não seja o livro mais impactante da autora, Dupla Falta nos satisfaz com mais uma história corrosiva que provavelmente não vai sair da sua cabeça por um bom tempo. Deus sabe que até o meu namorado ficou chocado quando eu contei o final pra ele...


Porta número um: Um homem que você conhece com a palma da sua mão. Trabalhador, inteligente, carismático; talvez um pouco pedante, mas que consegue traduzir seus pensamentos com um simples olhar. Conversa sobre todos os assuntos, sempre tem uma opinião e, como se já não fosse o suficiente, te incentiva até o último segundo a dar o seu melhor para realizar os seus sonhos. Porta número dois: A carta debaixo da manga. O mistério de alguém novo, extremamente atraente e com um magnetismo que ultrapassa a camada do racional. Ele é famoso, cheio da grana, e sabe muito bem como se divertir, em todos os sentidos. Seus conhecimentos? Escassos. Sua vida? Nada estável. Mas quando ele está ali, ele está ali. Irina McGovern tem dois caminhos, duas vidas alternativas que mudariam completamente a sua própria pessoa e destino. Se ninguém é perfeito... Nenhuma escolha é também. Você já se perguntou... "E se"?

Lawrence estava em casa e os dois eram felizes. No entanto, sem saber ao certo quando nem por que, Irina havia guardado a ideia de que a felicidade, quase por definição, era um estado de que não se tinha consciência na hora. (...)Convencionalmente, tem-se consciência da felicidade no exato momento em que ela começa a escapar. (...) Ela só fora alertada para sua felicidade por ter roçado de perto num futuro alternativo em que essa felicidade seria aniquilada. 

Eu já tinha expectativas altíssimas com O Mundo Pós-Aniversário desde que o nome Lionel Shriver ganhou um valor especial para mim em 2011. Para quem não sabe, ela é a autora do impecável (Só uma linha de rasgação de seda, prometo!), pertubador, mindfucking, assustador e reflexivo Precisamos Falar Sobre Kevin, um grande best-seller americano que ganhou (ainda mais) fama com a produção de sua adaptação pros cinemas ano passado. Dessa vez, Lionel saiu um pouco do campo da maternidade e partiu para um terreno que havia, à primeira vista, me decepcionado um pouco pela previsibilidade: Traição. Subestimando o livro pela temática mais do que batida, eu posso até ter cometido um erro aceitável, se eu não tivesse esquecido a premissa óbvia que Shriver não é uma escritora ordinária. Então essa(s) história(s) é(são) longe de ser(em) ordinária(s). 

Se está se perguntando porque a abertura para o plural ali em cima, deixa eu explicar melhor. Esse livro começa com um primeiro capítulo/prelúdio apresentando a tímida ilustradora de livros infantis Irina McGovern, uma mulher contida e inteligente que mora há quase dez anos com seu parceiro, Lawrence Trainer, um homem (Não, eles não são casados, algo que sempre incomodou um pouco Irina) atencioso, trabalhador e fiel. Com uma relação pacífica, vida sexual ativa e uma ainda existente intimidade que é motivo de inveja até para os amigos do casal, Irina acredita ter tirado a nota preta na vida. Até que um dia, Lawrence precisa viajar à trabalho no dia em que um antigo amigo do casal, um famoso jogador profissional de sinuca Ramsey Acton, faz aniversário. Irina e Lawrence sempre saiam para jantar com Ramsey e sua histérica ex-mulher Jude uma vez por ano justamente para comemorar a data, e agora com Lawrence viajando e Jude fora da jogada, Irina decide sair com o colega em um jantar só para "fazer a social" (Antes que perguntem, o próprio Lawrence empurrou a mulher para a enrascada). Entretanto, Irina começa a sentir algo que nunca em todos esses nove anos de amor pleno pelo "marido" teve vontade de fazer. Uma paixão instantânea, uma vontade louca, insana, passional de beijar Ramsey. E é neste momento que a história para.

A partir daí, a trama ganha duas versões "paralelas" do destino de Irina. Na primeira, Irina beija Ramsey; na segunda, se mantém fiel a seu marido. O livro organiza isso em uma divisão de capítulos feita por  revezamento, - dois capítulos "2", "3", "4" - em dois relatos dos fatos que aconteceriam em cada uma dessas possibilidades da vida da protagonista. No começo pode parece difícil de acompanhar o passo, mas a estratégia é excepcionalmente concisa. Ao mesmo tempo que você ganha a oportunidade de ter não apenas um, mas dois livros da Lionel, você é presenteado com histórias peculiarmente independentes e,  ainda assim, interligadas uma com a outra. Essa construção possibilita uma das sacadas mais interessantes do livro; com um pouco de atenção, você facilmente perceberá que várias falas dos personagens são repetidas de uma história para outra - só que ditas por personagens diferentes (um trabalho que, deus do céu, merece ao menos um brinde!).

Falar sobre o que exatamente acontece em cada um dos dois egos da história talvez seja considerada uma traição para o conceito do livro, então para não soltar a língua demais, decidi por me focar no perfil dos três principais personagens aqui. Algo maravilhoso deste livro para mim - e que já está se tornando um padrão pelas minhas experiências com a Shriver - é a extrema credibilidade de suas protagonistas. Enquanto Eva de PFSK é excêntrica, classuda e categórica, Irina é o seu perfeito oposto. Com os valores morais da família enraizados em sua pele, Irina é uma mulher das antigas; o que não quer dizer que não tenha uma natureza passional. A forma como ela brinca dentro da linha tênue da razão e sensibilidade (Jane Austen much?) é visceral - e pessimista, porque isso obviamente nunca faltaria se tratando no estilo da autora - e carrega a narrativa com um poder analítico acirrado. Lawrence e Ramsey, os dois caminhos, se mostram como mais do que pessoas, mas virtudes diferentes. Lawrence representa a espécie de segurança que todos nós queremos um dia, esboçando o sonho perfeito de qualquer pessoa que tem, como maior medo, o velho "Eu não quero morrer sozinho". Ramsey, por outro lado, aborda o prazer carnal, a paixão, o sexo com todas as letras, que nós, por mais superficial que soe, queremos.

Não se engane - não existe caminho errado nesse livro. Não pense que a narrativa irá empurrar você a pensar "Nossa, se ferrou" em uma das versões e "Viu? muito melhor assim" na outra. Ambos os futuros possuem tristeza e felicidade. "O Mundo Pós-Aniversário" é bem claro quanto a sua maior reflexão. O momento é tudo. E antes de pensar em atos e consequências, nós pensamos no agora. Naquele presente atemporal, bobo, frívolo e decisivo no qual você precisará responder a si mesmo, com a maior concentração de coragem que conseguir juntar - Sim, é isso que eu quero.

Mas engraçado como aquilo que nos atrai numa pessoa é o mesmo que passamos a desprezar nela.