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Boa noite, gente bonita!

Como vão vocês? Bem, espero. Como passaram as férias de julho? As minhas férias de julho acabaram há pouco mais de uma semana, pois, na verdade, começaram em agosto, portanto estou considerando que a mesma coisa aconteceu com todos vocês, ok? Ok. Hoje venho falar deste... clássico. Orange Is the New Black realmente parece estar se tornando the new black, não? Só se ouve falar nessa série! Mas calma: não é sobre a série que eu venho escrever hoje: é sobre o livro. Aliás, você sabia que a série é inspirada em um livro? Não? Então tá na hora de ficar sabendo. Vem comigo que eu te conto.

Antes de começar a resenha, gostaria de deixar claro que este texto não tem qualquer compromisso com a série original distribuída pela NetFlix. Conheço OITNB de nome, sim, mas nunca assisti a nenhum comercial, snippet, trailer ou qualquer coisa relacionada à série, portanto, caso você seja um espectador desta, esteja ciente de que o livro, assim como qualquer adaptação televisiva/cinematográfica, talvez (creio que “certamente” é mais preciso) apresente diferenças em relação ao que é exibido pela NetFlix, incluindo detalhes centrais da própria trama, certo? 


Muito bem: vamos ao que interessa. Orange Is the New Black (“Laranja é o novo preto”, pra quem não lembra do Inglês da quinta série) é um livro de caráter autobiográfico da escritora americana Piper Kerman, que relata na obra sua experiência com o sistema prisional americano. O livro é distribuído, no Brasil, pela Editora Intrínseca, tem 304 páginas e foi traduzido por Cláudio Figueiredo e Lourdes Sette. Li a primeira edição, de março de 2014.

Bom, a trama. A personagem principal da história é a própria Piper Kerman, autora do livro. Piper começa a narrativa contando como foi parar atrás das grades. Durante sua juventude, Piper se envolve com uma glamorosa traficante de drogas (no livro, chamada de Nora. Kerman explica que mudou os nomes de quase todos os personagens na história, pra preservar suas identidades). Movida pela paixão, ela acaba se envolvendo no tráfico internacional de drogas ao servir como “avião” para a então namorada. Em virtude da profissão-perigo, Piper e Nora viajam por vários lugares e vivem altas aventuras, até que, em dado momento, se separam (já não me lembro o motivo) e cada uma segue seu rumo.

O tempo passa, Kerman está em um relacionamento sério com um homem chamado Larry e a vida segue tranquila, até que, um belo dia, a polícia encontra Kerman e ela é intimada a responder pela acusação de tráfico internacional de drogas. O passado, então, volta à tona e Kerman precisa enfrentar as consequências de seus atos. Passam-se dez anos, do momento da intimação até a prisão de Kerman de fato. Ela é julgada, condenada a 15 meses de reclusão e enviada ao presídio federal de Danbury, Connecticut, onde cumpre sua pena.

Danbury é o cenário principal da trama, mas existem outras duas instituições pelas quais Piper passa na segunda metade da história. Eu quase diria que isso é um spoiler, mas é um tanto quanto impossível dar spoilers sobre OITNB, porque o livro não é um romance; não existe uma sequência lógica de fatos. Na versão americana do livro, ele é categorizado como memoir (livro de memórias; autobiografia); no Brasil não deve ser muito diferente. Assim sendo, os eventos que Piper narra dentro da prisão são um registro de suas memórias, sem que haja uma sucessão crescente de eventos que leve a um grande desfecho.

Kerman em 2014 (fonte)
Esse é, na verdade, um dos pontos que me... como eu diria? Acho que me entediou um pouco. Não sei se seria questão de gosto pessoal meu ou se são os elementos da obra que levam a isso, mas, em OITNB, nada de extremamente empolgante acontece. Piper está presa, então não vai a nem volta de lugar nenhum. No livro tem de um tudo: tem coisa triste, coisa interessante, coisa engraçada, coisa dramática, um número inacompanhável de personagens, mas nenhum momento de grande movimentação ou clímax. Acabei demorando pra lê-lo por causa disso: os capítulos passam e a história literalmente não sai do lugar até a segunda metade da segunda metade, onde o processo de soltura de Kerman começa a acontecer. Algumas personagens, contudo, são bastante cativantes: a cozinheira Pop, a amiga de cubículo Natalie, o marido de Kerman, Larry, que é um mozão (aliás, eles são casados até hoje!)... Quando comecei a ler a história, sem quaisquer expectativas, imaginei que fosse algo no estilo do extinto Oz, que passava nas madrugada do SBT e eu ficava acordado até altas horas só pra ver o Beecher e o Keller, mas não passou nem perto, em nenhum quesito. A única semelhança é o cenário. Só.

Quanto à escrita do livro, não há muito o que comentar: a leitura é fácil, leve, fluida, com uns palavrões aqui e ali; bastante contemporâneo. Não sei avaliar a qualidade da tradução porque não li nem lerei o original, mas é tudo bastante claro. Quanto à editoração, três ressalvas: primeiro: a capa do livro é a exatamente a mesma imagem (uma das) de promoção da série da NetFlix. Não devo ter me manifestado quanto a isso por aqui em outras ocasiões, mas não sou muito fã desse tipo de “empréstimo”; fica parecendo que o livro e a série são a mesma coisa, e todos nós sabemos que não é bem assim. Segundo: encontrei diversos erros de revisão ao longo do texto; páginas 109, 134, 175, 183, 236, 247... Coisas como “outras mulheres tinha vindo” e “nada mais difícil na cadeia do ser mãe”. Nada que comprometa o entendimento do texto, mas, ainda assim, faltou um pouco de cuidado aí. E por fim: a pessoa que teve a ideia de colocar, na última página, os detalhes do miolo, incluindo a fonte utilizada, tem um pedaço do meu coração garantido, porque Deus sabe o quanto eu lutei pra descobrir que aquela fonte se chamava Bembo e o Capeta deve ter rido na minha cara quando eu descobri que essa informação constava na última página.

Enfim. Pra quem gosta de gêneros autobiográficos — o que talvez não seja exatamente o meu caso —, Orange Is the New Black é uma leitura válida. Não é nada que vá mudar a vida de ninguém, mas é curioso ver como funciona a vida dentro de uma prisão feminina e o sistema prisional dos Estados Unidos de modo geral. Eu mesmo confesso que fiquei um tanto surpreso ao ver que, ao contrário da imagem estereotípica que a maioria das pessoas têm, nem todas as mulheres lá dentro são sapatões caminhoneiras que estacionam uma Scania bitrem em qualquer vaga, não: existem mulheres de todos os tipos, todas as cores, todas as idades, todas as etnias e todos os caráteres.

E é isso. Se alguém assiste à série e pretende ler o livro, ou o contrário, depois me conte se existem muitas diferenças ou muitas semelhanças entre as duas histórias. Quem sabe eu assista à série quando estiver com a lista de afazeres acadêmicos mais sossegada? E você que já leu OITNB? O que achou? Adorou? Odiou? Por quê? Conta pra gente nos comentários. Eu vou ficando por aqui. Um abração procês e até a próxima!



Ah... o amor. Tão belo, poético e hiperglicêmico. Já dizia a frase feita: "O amor está no ar". Mas sinceramente, não é só nele que ele está (até rimou!). O amor está nas famílias, no trabalho, na escola, nas paisagens turísticas, nas lendas, na religião, nos contos populares, nas mais esdrúxulas mentiras, nas fofocas da vizinha, nas traições passionais, nas poesias melosas, nas propagandas publicitárias, nos acordos pré-nupciais, nas letras de música, nos homicídios culposos, nas comédias românticas de baixo orçamento e, para o que mais nos convém no momento, na literatura. No entanto, por mais que tenhamos muitos exemplos de livros em que o tema amor é despretensiosamente abordado na trama, não vamos nos enganar: Amor é best-seller. E isso definitivamente fala algo sobre nossos hábitos literários. 

Acho melhor começar esse post falando que essa não é uma crítica aos livros românticos. Seria muita hipocrisia da minha parte tomar esse partido, principalmente com tantas resenhas desse site falando bem de obras do gênero. Eu AMO romances. Sim, sim, me refiro aos romances "românticos" e não ao romance como estilo narrativo - a dita composição em prosa. Minha estante vai de Meg Cabot a Stephen King, então tenha plena e absoluta certeza que essa não é a questão. O papo aqui é outro e está muito mais relacionado ao porquê de nós gostarmos TANTO de romances do que há qualquer questão de qualidade narrativa ou esteriótipos literários. Talvez se olharmos para a história, isso fique mais claro.

Não é mistério para ninguém que obras românticas sempre fizeram muito sucesso no meio popular. Se voltarmos para o século XVI, observamos as poderosas tragédias românticas de William Shakespeare que arrebatam até hoje multidões de fãs, principalmente se mencionarmos a obra-prima (categorizada como "a história de amor por excelência") Romeo e Julieta. No século XX, os folhetins franceses também abusaram de histórias de amor com mocinhas inocentes, galantes heróis e terríveis vilãs, criando um formato narrativo feito para as grandes massas. Só no Brasil, temos o inocente A Moreninha do autor Manuel Antônio de Almeida e o fofo Senhora de José de Alencar, que até hoje são considerados clássicos do gênero no território nacional. Poderia citar outras inúmeras obras mundiais de diferentes cenários históricos que abordam o amor, mas acredito que não seja preciso tantas voltas para afirmarmos que nós temos um grande interesse em histórias de amor. Mas por quê?

E se na triste realidade...
Talvez a melhor resposta que eu consiga dar, levando em conta a humildade de minhas intenções, esteja na expressão "a vida imita a arte". E o amor, como arte, é o que mais desejamos na nossa vida. Desde criança, somos acostumados a escutar contadores de histórias narrando belos contos de fadas, nos quais a gata borralheira conquista o príncipe encantado e ambos vivem felizes para sempre em um castelo de cristal. Então a pergunta que fica é: Seria culpa dos livros o nosso vício neste amor idealizado ou seria nossa culpa o abuso do amor como tema literário? A resposta eu não sei, mas que a indústria literária se alimenta dessa questão cíclica ao estilo "ovo ou galinha?", isso é fato.

O que eu realmente gosto de acreditar é que, por mais que o amor possa ser utilizado como um elemento caça-níquel, ainda há muitos autores que o abordam com propriedade e paixão em seus trabalhos. Eu já escutei muitas pessoas falando mal de best-sellers como A Culpa é Das Estrelas, E Se Eu Ficar e O Lado Bom Da Vida, e talvez eles realmente tenham os seus motivos (eu, particularmente, acho ACedE bem legal), mas é sempre bom perguntar a si mesmo antes de fazer qualquer juízo de valor - será mesmo que eles são livros feitos só para vender? Amor é best-seller, mas isso não significa que um forte valor comercial possa desvalorizar a qualidade técnica de uma obra. Vamos parar de criticar obras pela "visão mercadológica", mas sim, pela nossas reais impressões sobre ela.

Acha que eu só falei besteira e que o amor, hoje em dia, só dá material para livrinho sem valor? Não deixe de comentar sua opinião para tornar esse diálogo interessante. Se há uma coisa que eu gosto é ser contrariado... Sabe como é, só assim para eu aprender alguma coisa.

... Pudéssemos ter o nosso dia no baile?


Quando um livro gira em torno de um tema como "obesidade", é comum que a opinião do autor acabe dividindo os leitores entre aqueles que se identificam com a sua perspectiva e aqueles que discordam completamente dela. Se você der uma rápida procurada pela web por mais opiniões sobre Grande Irmão, irá perceber que esse caso se encaixa perfeitamente. Como um dos livros com o feedback mais "8 ou 80" da autora, eu já fui me preparando para mais uma experiência "ame ou odeie". Eu já sabia que levaria o livro para um nível bem pessoal, principalmente com esse "elefante branco" que Lionel Shriver decidiu explorar nessa nova empreitada.


Em Grande Irmão, o drama da vez gira em torno dos irmãos Pandora e Edison, unidos pelos laços sanguíneos mas sempre com visões bem diferentes da vida. Pandora é uma mulher retraída e passiva, enquanto Edison, um talentoso pianista de jazz, tem a pompa de quem gosta de estar no centro das atenções. Apesar das divergências, ambos sempre foram muito próximos, principalmente quando se uniam para aturar os caprichos do pai, uma ex-estrela de televisão que nunca percebeu que seus anos de glória haviam acabado. Os anos se passaram e Pandora construiu sua própria ideia de felicidade: Casou-se com um homem seguro e imponente (Fletcher) e praticamente adotou seus dois filhos de outro casamento. Mas é quando Edison resolve fazer uma visita, após anos de viver viajando de um lado pro outro do mundo, que Pandora choca-se com a nova realidade do irmão. Edison pesava agora mais de 170 quilos e em nada lembrava o belo irmão de suas lembranças.

Como falei anteriormente, eu tive que levar Grande Irmão pro lado pessoal e o motivo é bem óbvio: eu mesmo lá tenho os meus (bons) quilinhos a mais. Sempre sofri com as dificuldades de ser gordo e, em muitos momentos do livro, senti um certo asco de Pandora pelos seus pensamentos ferrenhos em relação ao estado do irmão. A protagonista passeia por vários sentimentos ao lidar com o "grande problema" a sua frente: asco, pena, compaixão e até vergonha, e pra mim, todos esses agiram  como uma flecha atravessando o meu estômago.

Pandora é uma mulher racional e eu entendo sua vontade de ajudar o irmão, mas quando um livro trata da perspectiva de uma terceira pessoa ao invés da vítima em questão, não dá para não sentir uma certa raiva. Edison teve os seus motivos para ficar gordo (sem spoilers!) e lutar contra a vontade de comer exige uma força de vontade ESTUPIDAMENTE grande. Na minha opinião, é uma das batalhas mais árduas e mais longas que alguém pode enfrentar.

Fonte: The Catholic Catalogue

Acho que uma das coisas mais legais sobre Grande Irmão é como ele funciona praticamente como um livro de ficção bem informativo sobre o assunto. Só para ter uma ideia, a obra mostra os prós e contras das ditas "dietas radicais", os desafios de lidar com a obesidade no campo profissional, no ambiente familiar e, principalmente, com o seu principal inimigo: a auto-estima. Por mais que o final de Grande Irmão seja um belo susto para o leitor (e o principal motivo do fator love or hate que o livro carrega), a ousadia da autora acaba se tornando uma forte mensagem de apoio as pessoas que sofrem com a obesidade e suas respectivas famílias.

Para os fãs de um bom drama, Grande Irmão é mais do que uma boa pedida. Mas não se espante se acabar recebendo um soco de estômago aqui e ali, viu?

P.S: Grande Irmão foi escrito por Lionel Shriver como um desabafo da autora pelo relacionamento turbulento que teve com o seu próprio irmão, que também sofria com excesso de peso. É interessante saber essa notinha para entender como o assunto é tratado de forma bem pessoal para a escritora...







Olá, gente bonita!

Como vão vocês? Espero que bem. Hoje não vou repetir aquele ritual de “faz tempo que eu não apareço aqui, como sempre” porque não é verdade: estive aqui um dia desses falando de Império Esquecido. Mas posso dizer que hoje, depois de muito tempo sim, venho falar de literatura sem falar de um livro em especial. Vamos falar sobre Literatura. Hoje quero trazer uma discussão que vem formigando na minha cabeça desde que comecei a escrever minha nova empreitada literária e me dei conta de umas coisas... digamos... interessantes. 

 

Em outro post aqui no EL (este aqui), eu problematizei algumas questões sobre a crítica literária e sobre o que é considerado bom e o que é considerado ruim, e como e por quem essas coisas devem ser definidas. De lá até hoje, não mudei de opinião quanto a nada do que disse no post citado, mas essa questão voltou a pipocar na minha cabeça quando eu... bem... me vi, deliberada e conscientemente, lendo coisas “ruins”. 

Antes, deixe-me apresentá-los a uma expressão que um professor de Literatura meu usou e eu acho perfeita: “estamos falando de filé mignon, não de Big Mac”. Esse comentário surgiu em uma conversa de Facebook em que, não me lembro por que, os participantes falavam de grandes obras da Literatura e eu, cheio de graça feito ave Maria, sugeri adicionar 50 Tons de Cinza à lista, e então veio o comentário do meu caro professor. Ultimamente, tenho lido mais Big Mac’s do que filé mignons, e isso tudo se dá, parcialmente, graças a uma plataforma online que descobri por meio da minha colega de trabalho Lorena (autora de Império Esquecido), que também publica textos por essa plataforma. Explico melhor no próximo parágrafo.

Estou me referindo ao Wattpad.  O Wattpad é uma plataforma voltada à publicação independente de material de vários formatos, sendo os mais comuns as fanfics e romances novelescos (daqueles de banca de jornal que eu adoro). Meu interesse por essa plataforma veio, como eu disse, quando, há mais ou menos um mês, tive um insight e comecei a escrever o que eu ainda não sei se vai se encaixar no formato de romance: uma história chamada Vincent (clique aqui para ler[/jabá]). O barato do Wattpad é que, geralmente, as postagens acontecem meio que em episódios, então o leitor lê e espera o autor postar o próximo capítulo (por isso gosto de chamar minha história de web series, haha).

Graças ao sistema de tagsque o site disponibiliza pra ajudar na divulgação das histórias, existe aquela listinha já tradicional de “histórias recomendadas”. Antes de prosseguir, um comentário paralelo sobre um tema que eu tentei encaixar neste mesmo post, mas acho que não consegui: me impressionou seriamente a quantidade de histórias em que a palavra vampire está ou nas tags ou no título. E me impressionou mais ainda a quantidade de leituras que essas histórias recebem (algumas delas têm mais de dois milhões de leituras; isso quer dizer que, somadas as leituras individuais de cada capítulo, mais de dois milhões de pessoas passaram os olhos por ali, e esse número leva em conta o endereço de IP dos usuários, então, por mais que haja uma margem de erro aí por conta de rotatividade de IP, o número é assustador). Eu pensei que esse boom de fantasia envolvendo lobisomens, vampiros e outras criaturas das trevas + mulheres indefesas já tivesse passado, mas, pelo menos no Wattpad, não passou. Enfim, continuando. Na minha listinha de recomendações, baseada nas tags da minha história e nas histórias em que eu clico, aparecem recomendações de histórias de amor homossexual, que é sobre o que eu escrevo, basicamente. Curiosíssimo que sou, parei pra ler três dessas histórias (duas em inglês e uma em português).

Não é querendo me gabar nem nada, mas meus poucos anos de experiência me permitem dizer que eu escrevo muito bem, obrigado. Quando abri a primeira história, comecei a ler sem muito interesse e, logo na primeira página, havia erros de ortografia e inadequações sintáticas que saltavam aos olhos. Com o desenrolar da leitura, parecia que o autor escreveu a história exatamente como se estivesse contando a um amigo em um encontro casual. Aqui e ali entravam umas metáforas bem pobres, que deixavam o texto ainda mais pífio. Depois, fui pra segunda história em inglês. Esta estava um pouco mais bem escrita, mas ainda apresentava uns problemas meio graves, especialmente pra um falante nativo de Inglês. A terceira, então, parecia ter sido extraída de uma comunidade de contos eróticos dos tempos do Orkut, mas, nessa terceira, o cara devia ter um senso autocrítico meio superestimado e se achava escritorzão, o que me deixava ainda mais desgostoso da falta de senso estético do negócio todo.

Mas, feitas essas críticas todas, sabe qual é a pior parte?, que as três hitórias tinham em comum? Eu digo: era IM-POS-SÍVEL parar de ler. Impossível. Baixei o Wattpad pra celular e fui pra cama. Debaixo de cobertor, de madrugada, com tanta coisa mais útil pra fazer (especialmente dormir), eu devorava as histórias. As duas de uma vez (a primeira eu abandonei porque aconteceu um negócio na história que me broxou e eu desisti, e a escrita tava muito sofrida); qualquer hora que eu estava à toa, pegava o celular e ia continuar as leituras. E assim foi; acabei as duas em três dias. Pra vocês entenderem meu drama, vou dar a sinopse das duas histórias que eu terminei: a primeira, em inglês, era sobre um rapaz alegadamente heterossexual que se apaixona, da noite pro dia, pelo capitão do time de futebol americano da escola e eles começam a se envolver quando esse capitão pede pro apaixonado ajudá-lo com os exames finais da escola. Essa história tem uns vinte capítulos e esses vinte capítulos são a descrição mais pastelona do desenvolvimento do relacionamento dos dois. Umas questões familiares são postas em jogo, também; coisa de sair do armário e enfrentar problemas de aceitação. Nada muito profundo e tudo bastante exagerado. A segunda, em português, era sobre o filho de um advogado que trabalhava pra uma grande firma e estava prestes a ser demitido. Pra garantir o emprego, o pai pede pro filho se aproximar e fazer amizade com o filho do dono da firma. O que ele não sabia é que o filho do dono da firma era um dos caras com quem o filho coagido fazia bullying no colégio. O relacionamento deles começa quando o protagonista vai cumprir as ordens do pai e se aproxima do filho do dono da firma. A história segue a mesma linha da anterior, com a diferença de que, nessa, todos os personagens têm seu nível de insuportabilidade; uns mais, outros menos, mas não dá pra se apegar a nenhum deles.

Ainda assim: li tudo praticamente da noite pro dia. Por vezes eu me pegava pensando “PQP, mas que historiazinha mais fuleira!”. Não adiantava: eu não conseguia parar de ler. O nível de idealização romântica das situações postas em ambas as histórias beirava o ridículo e as cenas de sexo, que não eram poucas, só serviam pra aguçar a curiosidade. Eram dois Big Mac’s com molho picante. E, no final, é claro que tudo termina bem e todos os “problemas” que aparecem durante a narrativa são resolvidos sem grandes traumas. A história acaba, nada muda na vida de quem lê, o coração sente aquele lapso de ternura romântica e logo a memória seletiva apaga. É isso que acontece com a maioria das histórias ruins: lemos por curiosidade e, quando elas acabam, falamos mal e as esquecemos em pouco tempo, não é? Pois é. Mas e quando a história ruim te toca?

Anteontem à noite eu comecei a reler um “conto” (tem quase 140 mil palavras, mas o autor jura que é um conto) que foi literalmente tirado da extinta “Contos Eróticos Gays” no Orkut (e atire a primeira pedra quem é gay e nunca deu uma passadinha por lá). Me lembro de ter lido essa história há uns quatro, cinco anos e ter gostado muito, tipo muito mesmo. O autor diz que é tudo verdade, sendo ele mesmo, inclusive, o protagonista da trama, mas há elementos da própria narrativa que condenam a falácia (contudo o pessoal, naquela época, acreditava piamente que era tudo real). “Dois heteros numa balada GLS” é o nome da história (dá pra encontrá-la online (foi o que eu fiz, by the way)). 140 mil palavras é mais ou menos um livro de 400 páginas. Li tudo de anteontem pra ontem, metade antes de dormir e metade assim que acordei. E, olha, mesmo sendo a segunda vez que leio (eu já tinha me esquecido de quase todos os eventos), parece que a história acabou e arrancou um pedaço de mim. 

O padrão da narrativa é o mesmo das três outras histórias que eu já descrevi, o texto é narrado em primeira pessoa de forma bem prosaica, há marcas de oralidade por toda parte, os detalhes eróticos (que são muitos, afinal o romance é, essencialmente, um “conto” erótico) são descritos em minúcias e os três personagens principais, que formam uma espécie de triângulo amoroso, têm seus altos e baixos e seus momentos. A história têm muitas reviravoltas, muitos detalhes desnecessários, o protagonista é irritante, vive sempre num conflito que não se resolve até a literalmente última página, mas, quando acaba... foi uma facada no peito, e olha que ninguém morre. 

Quando terminei de ler, pouco antes de vir aqui escrever, fiquei com isso na cabeça. O que é que existe nessas histórias “ruins” que consegue atrair até leitores mais exigentes, por mais que a maioria deles seja orgulhosa demais para assumir? Em termos de construção artística, de engenhosidade, de técnica, todas as histórias que citei são indiscutivelmente descartáveis, mas em termos de conteúdo, essa última foi um balde de água fria na minha cara, e as outras duas me fisgaram mesmo sendo completamente vazias. Nessas horas, o que conta mais? A forma ou o conteúdo? Ou essas histórias conquistam por despertarem o lado romântico obscuro de quem tem um lado romântico escondidinho lá nas profundezas da empáfia (frases pseudo-intelectuais como essa existem aos montes nas três histórias que li até o fim)?... Fiquei pensando nisso e ainda não consegui chegar a uma resposta. Mas, depois de todas essas leituras, acho que consegui compreender com um pouco mais de empatia as pessoas que leem o romance pornô da E. L. James e se derretem pelo Mr. Grey... Ah, como eu compreendo!... *suspiro* 

Bom, deixe-me voltar pra minha catarse, agora. Com licença. 



Não chorei com Marley & Eu, nunca fui de ficar vendo vídeos de gatinhos no Youtube e detestava filme de animais superdotados na Sessão da Tarde. Por motivos como esses, Um Gato de Rua Chamado Bob nunca teria sido um livro que eu compraria à primeira vista. Mas o destino prega suas peças e eu acabei dando uma chance pro dito cujo, sabe como é, por pura experimentação. E não é que a história de James e o seu amiguinho laranja tem o seu "quêzinho" de fofura?



Um Gato de Rua Chamado Bob é uma obra autobiográfica que narra a vida de James Bowen, um ex-viciado em drogas que sobrevivia fazendo apresentações musicais nas ruas de Londres. Até que um dia James encontra um gatinho laranja na porta do seu prédio, e por mais que James sentisse que não estava no melhor momento para se responsabilizar por nada além de si mesmo, o música acaba se apegando ao pequeno Bob. Aos poucos, James começa a levar o novo parceiro para o seu lugar de trabalho (uma estação de metrô), e enquanto James toca suas músicas em busca de alguns trocados, Bob está lá para lhe fazer companhia... Um Gato de Rua Chamado Bob é um livro caloroso, como um convite para um passeio no parque em um domingo ensolarado.

É, eu sei, estamos falando sobre um livro de um músico de rua que foi "salvo" por um gato e isso pode parecer bem, bem meloso (e não se engane, é muito!). Mas eu devo dizer que o livro tem um charme que me atingiu em cheio, e de uma certa forma, fez crescer dentro de mim uma vontade arrebatadora de ter um gato olhudo para me encarar com cara de "Cadê o meu Whiskas?". Acho que o fator "baseado em fatos reais" (que normalmente mais me desestimula que outra coisa), atingiu o alvo, neste caso em especial: Passei a seguir o twitter #streetcatbob só para ver se James e o seu gato Bob eram reais e, sinceramente, essa parece mesmo ser uma genuína história de amor.

Toca aqui, parceiro!

 Eu acredito que o relacionamento entre James e Bob pode sim ser um bom exemplo de como a companhia de um animal consegue ser benéfica quando passamos por sérios problemas pessoais e, porque não, quando esse problema é uma dependência química. Achei o desenvolvimento de James no livro bem compreensível, apesar das habilidades limitadas de escrita do rapaz, e, admito, torci em alguns momentos em que imaginei que teríamos uma grande tragédia a caminho (e, alerta de spoiler, graças a deus não tem não).

Porém, sejamos sinceros, o livro não é nenhuma obra-prima. É gostoso de ler, leve, sem grandes neuras, mas ponto. Como boa parte dos livros com uma pegada de auto-ajuda, Um Gato de Rua Chamado Bob busca passar uma mensagem emocionante através de uma história de superação improvável e, claro, para algumas pessoas, isso funciona. Eu, como já disse, não costumo me encaixar nesse grupo, mas talvez eu esteja passando por um momento de sensibilidade aflorada (quem já dedicou seis meses da sua vida para uma monografia me entende nesse momento) que me fez apreciar o livro com mais carinho.

De qualquer forma, cá estou eu, seguindo o @streetcatbob e curtindo fotos como essa:

Ain, que fofo. :3

Vai me dizer que não é uma fofura? 


Durante toda a leitura de "Restos Humanos", e durante todos os acontecimentos na história, eu sei que estava chovendo. Aquela chuva bem inglesa: fina, em um dia cinza, que encharca os seus sapatos.  Se a autora nunca precisou me dizer isso diretamente na história, é só porque "Restos Humanos" tem um clima muito, muito bem construído e que salta das páginas. (Em vários momentos eu me peguei lembrando da vibe do seriado de crime The Fall, da BBC, que se passa em Belfast. Se "Restos Humanos" fosse um filme, por mim eles podiam reciclar todo os cenários e elenco de The Fall). 

É um livro obscuro, reflexivo e calmo - não como um dia de férias na praia relaxante, mas como o mar fica minutos antes de uma súbita tempestade.

E a tempestade chega, sim. E com ela temos uma construção não de um whodoneit* (porque trinta páginas do livro e você já começa a ter uma clara ideia de quem é o assassino), mas de um estudo de personagens e suas histórias e motivos.

Capa nacional do livro.
A trama principal de "Restos Humanos" gira em torno de Annabel Hayer, uma analista de informações para a polícia que encontra, por acaso (e com ajuda da sua gata), o cadáver de uma de suas vizinhas em um avançado estado de decomposição. Traumatizada com sua descoberta, Annabel volta ao trabalho e, ao vasculhar os arquivos da polícia, começa a perceber um aumento significativo de casos como este nos últimos meses em sua cidade. Quanto mais Annabel se dedica às suas investigações, mais ela acredita estar nos rastros de um assassino serial... Ainda assim, uma pergunta assombra seus pensamentos: será que alguém perceberia se ela simplesmente desaparecesse?

"Restos Humanos" é um livro sobre as vítimas e os denominadores em comum (além do assassino) que fatalmente as levaram para um mesmo trágico fim. A história de cada uma delas, contadas brevemente por capítulos soltos durante todo o livro, foram as partes mais emocionantes da escrita. Do tipo que me fazia querer ligar para alguém e dizer "Escuta isso" e começar a ler suas histórias, mesmo do nada e fora de contexto. Porque mesmo assim elas seriam interessantes e de partir o coração.

O livro muda de pontos de vista o tempo todo, cada capítulo tem o nome do personagem cujo ponto de vista é retratado. É admirável como a autora consegue criar tantas histórias de personagens tão reais e emocionantes em capítulos tão curtos. Você não se confunde com a quantidade grande de nomes porque apenas alguns personagens são centrais. As vítimas aparecem apenas uma vez, em seus próprios capítulos. Meu capítulo solto preferido foi a de um pianista chamado Noel, mas todas são muito bem construídas.

Elizabeth Haynes.
Eu não posso deixar de mencionar a vida da autora, a britânica Elizabeth Haynes. Ela foi analista criminal e sabe que a profissão, ainda que interessantíssima, envolve uma rotina que está longe de ser um episódio de CSI: Sair de casa cedo, não ter onde estacionar, ligar computadores, fazer café, ouvir conversa de colegas desagradáveis de escritório, analisar dados sobre crimes (em computadores), fazer mais café, fazer chá, sair pro almoço e ouvir esses mesmos colegas te chamando de tia solteirona dos gatos. (Porque, no caso de Annabel Hayer, a personagem do livro, meio que é verdade.).

Aliás. Haynes, Hayer. Eu me pergunto se Elizabeth Haynes também tem um gato?

Annabel é uma personagem com baixa autoestima; do tipo que aceita uma xícara de chá de uma colega que (ela sabe) falou mal dela 10 minutos atrás no refeitório. Mas é inteligente o suficiente para perceber padrões suspeitos em mortes na região, aparentemente dados como causas naturais. Ela é competente e gosta do que faz, e se sua personalidade é um pouco fraca permanece a dúvida: será que ela é assim mesmo, ou esse é apenas um momento em sua vida? (Observação: não leia a orelha da capa do livro, ela conta algo que acontece consideravelmente tarde na história e que muda tudo para a personagem principal, Annabel. Eu li e gostaria que tivesse sido surpresa)

Esse livro também ganha o meu Raspberry Award pessoal para personagem mais cretino, delirante e misógino da literatura. Colin é o oposto de Annabel - ele tem autoestima demais e acredita ser superior e melhor que os outros só porque ele lê bastante livros acadêmicos de estudos e boa literatura. Em vários momentos eu quis dizer pra ele (como eu eventualmente quero pra algumas pessoas na vida) que o fato dele ler Nietzsche, Rilke ou o que quer que seja não faz ele SER o Nietzsche, Rilke ou quem quer que seja.

E não, Colin. Quando uma mulher diz pra você (porque você perguntou) onde fica o banheiro, não quer dizer que ela está sexualmente interessada.

Eu pessoalmente acho que "sacada" que ele tem de tentar analisar comportamento humano por posição dos olhos, mãos e etc é de uma credibilidade extremamente duvidosa hoje em dia, uma vez que desconsidera particularidades de cada pessoa e até mesmo geografia.

Isso sendo dito, o final do livro, em particular o último capitulo, foi muito interessante. Você realmente continua lendo até o último capitulo porque você quer saber o que acontece com essas pessoas, você realmente se importa. Talvez aconteça com você o que aconteceu comigo: no último capitulo, eu consegui entender (ainda que parcialmente) um ponto de vista de um dos personagens que eu nunca tinha conseguido entender até então.  Eu repito: esse livro não é um whodoneit. Não há um fim imprevisível.

Você irá encontrar em "Restos Humanos" um livro cheio de personagens interessantes, uma escrita  que te leva para lugares não muito seguros no conforto (e segurança) de uma história, e te faz sentir (nunca imaginei que iria usar a combinação de tais palavras)  assustado, porém aconchegante. **

E, é claro, um assassino que espera, observa, e está pronto quando você estiver.


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*Whodoneit é o um termo que literalmente significa"quem fez", e serve de categoria para livros de crime e detetive onde você não sabe durante a maior parte do livro quem é o assassino.

** O (hilário) termo Cozy Crime (crime aconchegante) é usado justamente para descrever livros de crime e mistério que você lê (em segurança) em um dia de chuvoso debaixo das cobertas no conforto da sua casa. Usado pra livros da Agatha Christie especialmente, tem uma sessão de cozy crimes inteira do Goodreads e em algumas livrarias estrangeiras você acha o termo impresso até em divisória de gôndola. É a necessidade humana de enfrentar medos e receios em lugares seguros como na literatura e ficção se manifestando.



Muito boa noite!

E lá vamos nós, como sempre, falar de literatura depois de um bom tempo de sumiço. Mas, antes: como vão vocês? Tudo bem? Então tá bom. Nesta noite nublada de quinta-feira, resolvi criar vergonha na cútis e escrever esta resenha que está no forno há pelo menos uma semana. Tempo não faltou, faltou foi coragem, mesmo, porque a procrastinação, ela é meu sobrenome. Mas, criada a coragem que faltava e deixado o ócio de lado pelo tempo em que escrevo este lindo artigo, trago, hoje, a história de uma conhecida e colega de ~ramo~: Lorena Miyuki. E já explico por que somos colegas de ramo.

Quem me encontrou, na verdade, foi a Lorena, não o contrário. Se não me engano, ela estava zanzando pela seção gay do Clube de Autores e se deparou com meu primeiro livro, North Bound, que, se não me engano novamente, chamou a atenção dela pelo fato de a capa ser semelhante à capa de um outro trabalho dela, “Anistia”. Então ela me mandou um e-mail oferecendo divulgação no site dela, Marcado com Letras, e aí a gente começou a trocar figurinhas. Assim como eu, Lorena escreve sobre boys love, um termo que eu desconhecia e que, por óbvio, se refere a histórias de amor entre garotos/meninos/mancebos/rapazes/homens. Minha praia, pra quem (ainda) não sabe. Daí ela resenhou meu primeiro romance (você pode ler a resenha aqui) e eu, algum tempo depois, li Império Esquecido e fiquei de escrever a respeito, e é o que venho fazer agora, depois de muito muito enrolar.

Então vamox lá: Império Esquecido conta a história de dois operários da Usina Nuclear de Chernobyl: Ilya, um russo, e Anatoly, um ucraniano (não sei se sei pronunciar o nome de nenhum deles, mas leio o primeiro como ilhae o segundo como anátoli, que, na maior parte da história, aparece como simplesmente Ana). A narrativa se passa na cidade de Pripyat e começa no ano de 1983. Pripyat foi uma cidade fundada em 1970 especialmente para abrigar os trabalhadores da usina de Chernobyl, e lá Ilya coloca um anúncio no jornal procurando por alguém para dividir apartamento; aí entra Ana na história.

Pripyat (fonte: Wikipedia)
A história é dividida em duas partes e o que a divide é exatamente o acidente de Chernobyl, que faz com que todos os habitantes de Pripyat evacuem a cidade (Pripyat ainda hoje é uma cidade fantasma, como se vê na foto acima). A primeira parte é um pouco mais lenta e elabora o crescimento da relação entre Ilya e Ana, que é bem gradual mesmo e não tem muito segredo: dois caras dividindo um apartamento no frio da Ucrânia (aliás, o frio é um elemento muito importante e muito bem explorado na narrativa) e que, aos poucos, vão se apaixonando sem se dar conta. Os acontecimentos mais marcantes, eu diria, acontecem na segunda parte, no pós-acidente. Nesse momento a relação deles já está em estado bem adiantado, digamos. Nessa segunda parte, também, o foco narrativo sai da terceira pessoa e passa pra primeira, sendo Anatoly o narrador agora. Os problemas começam quando ele é chamado para ser um liquidador. Liquidadores eram os militares responsáveis por “limpar a bagunça” que o acidente deixou em Pripyat. O negócio é que a cidade estava cheia de radioatividade. Ainda assim, Anatoly vai, gerando uma série de conflitos com Ilya por causa dessa decisão.

Não dá pra contar muito sem dar spoilers, então vou parando por aí. Fazendo, agora, minhas considerações, Império Esquecido é uma história muito boa. Demora um pouco pra pegar no tranco, mas, quando pega, vai. Li em uma sentada, ou melhor: deitada só. E quando acabei fiquei meio coisado. Acho que o mais interessante de tudo é que a história é toda baseada em fatos. O acidente de Chernobyl existiu, é óbvio, mas a cidade de Pripyat também existiu, o apartamento em que Ilya e Anatoly viveram também, os liquidadores também existiram, o aviso de evacuação colocado na história é o aviso que realmente foi dado aos moradores da cidade, alguns personagens foram inspirados em pessoas que também estiveram envolvidas no acidente... No final do livro a Lorena coloca a relação completa de referências no mundo e eu achei isso muito legal.

Apesar de ser curta para um romance (menos de 19000 palavras), Império Esquecido é uma narrativa muito rica e uma verdadeira aula de história. A escrita flui bem e não é cansativa nem cheia de arroubos: é na medida — e digo isso porque, se tem coisa que me irrita em literatura, especialmente em escritores “amadores” (considerem-se as aspas), é aquele pessoal que escreve com o Priberam aberto no Firefox pra procurar palavras cult. Se você é essa pessoa, faça como a Lorena e como eu: não seja essa pessoa. Apesar de ser, essencialmente, um romance gay, a trama é mais do que só uma história de amor entre dois homens: é uma história de amor, ponto; e não me refiro ao amor romântico cheio de borboletas, arco-íris e altas doses de fofura, mas ao amor de carne e osso, o amor do dia-a-dia, que anda em falta na literatura contemporânea. 

Império Esquecido está à venda em formato EBook Kindle na Amazon e você pode comprá-lo clicando aqui. Tá baratinho e vale muito a pena. Você pode encontrar mais trabalhos da Lorena acessando o site dela, Marcado com Letras. Lá ela fala de literatura, cinema e coisas mil. [merchan](E não esquece que eu também tenho um blog onde posto uns textículos de vez em nunca. Clique aqui para acessar.)[/merchan]

E é isso. Espero que vocês leiam e gostem tanto quanto eu. Qualquer dia eu volto com outra história ou com outra qualquer coisa. A vida, ela tá dificílima, mas prometo que volto assim que ela der uma melhorada. Enquanto isso, sejam felizes; sempre irmãos, sempre unidos, sempre Brasil que nem Inês Brasil. Um beijinho de luz no coração de vocês e até a próxima.