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Boa tarde, gentes

Tudo bem? Então tá bom. Como vai essa vida? Tudo nos conformes, como sempre? Aqui também, tirando o sono etc. Esse negócio de entrar de férias e trocar o dia pela noite é complicado, porque depois pra regular o relógio biológico de novo é um parto. Mas vamo seguindo, vamo fazendo.

Pessoal, hoje venho a este site de família trazer um jogo que descobri recentemente e, olha, fiquei de. queixo. caído. com a história. Vamos cortar o papo introdutório e ir direto pro que interessa.

Muito que bem. Dia desses eu estava zanzando pelo YouTube e fui visitar o canal do Zangado, no qual eu sou inscrito. Quem curte jogos geralmente o conhece; acho que ele é um dos maiores canais desse ramo no Brasil. Tem uma seção no canal que se chama “Vale ou não a pena jogar”, e o jogo da vez numa dessas semanas foi The Cat Lady.


Essa expressão, traduzida livremente como “a mulher dos gatos”, é utilizada pra falar daquelas mulheres que, por um motivo qualquer, acumulam gatos em casa e acabam ficando conhecidas como “a mulher dos gatos”. No jogo, não é exatamenteassim que isso acontece, mas a personagem principal, Susan Ashworth, alimenta gatos das redondezas e eles acabam meio que fazendo parte da vida dela. Mas o papel dos gatos na história é mínimo, o que importa mesmo é o background e tudo.

Susan é uma mulher extremamente solitária e o jogo começa com uma nota de suicídio. Da própria Susan. Ou seja: o jogo começa com ela... morta. Achei estranhíssimo quando percebi isso, mas, na nota, Susan explica que decidiu dar cabo da própria vida porque já não tinha mais motivos pra viver, porque ela não lidava bem com pessoas e por isso era hora de morrer. Então ela toma algumas dezenas de tarja preta e puft, morre. O problema é que ela não moooorre morre mesmo, de morte morrida: ela vai parar em um lugar que é como um limbo, um entre-céu-e-inferno, e, nesse lugar, ela encontra uma mulher; uma velha que se auto-intitula “A Rainha dos Vermes”. Essa velha não se revela nem como Deus, nem como o diabo, nem como a personificação de um sentimento nem nada: ela só diz que o que se encaixa melhor é Rainha dos Vermes. E, nesse mundo em que elas estão, que parece um campo de centeio (sdds Catcher in the Rye), Susan encontra o próprio cadáver em diversos lugares e começa a se questionar que lugar é aquele e se ela está realmente morta. Então a velha diz que sim e blá blá blá (o jogo tem MUITOS diálogos; todos enormes) e que Susan está ali porque a velha tem uma missão a ela: voltar ao mundo dos vivos e matar cinco pessoas, cinco vermesque não merecem estar vivos, e que Susan é a única que pode fazer isso.

Susan Ashworth
Aí é o princípio de tudo. Susan é uma mulher que está afundada em depressão e, por isso, se julga fraca e incapaz de fazer qualquer coisa, especialmente matar uma pessoa (quanto mais cinco!). Mas a velha acaba a convencendo de que isso deve ser feito e, para garantir que Susan vai suceder em sua missão, ela a abençoa com a imortalidade. Então, Susan acorda em uma cama de hospital. Ou seja: os tarja preta que ela tomou não a mataram, só a desmaiaram e ela foi socorrida a tempo (por uma personagem que depois se torna peça importantíssima no jogo, mas não vou contar pra não spoilar). Sem saber se tudo foi um sonho ou não, Susan fica um tanto atordoada, mas logo as coisas levam a crer que a velha falava a verdade e que não era nada de sonho.

O jogo foi produzido de forma independente, não sei se já comentei. O formato é um tanto estranho: acontece em 2D, no estilo sidescroller, tipo Mario, e tudo funciona na base da resolução de puzzles. Por exemplo: Susan está no hospital e precisa dar um jeito de sair; então ela precisa convencer uma interna a trocar de pulseira com ela, pegar o prontuário dessa interna — não sem antes, claro, dar um jeito de tirar a recepcionista do balcão pra poder pegar esse documento na surdina — mostrar os documentos aos seguranças pra eles liberarem a passagem e, só depois de resolver isso tudo, fugir dali. Os puzzles são MUITO difíceis, às vezes, porque eles não dão dicas de nada: quem não tiver bons neurônios se perde facilmente. A ambientação do jogo é, na maior parte, preto e branco, com gráficos bem rústicos e realce de cores importantes, como vermelho, já que o jogo tem sangue por toda parte. E a trilha sonora também é um espetáculo à parte.

"The River"
Mas o que mais me chamou atenção no jogo, e é a parte que justifica transformá-lo num livro, são duas coisas: primeiro, a ambientação impecável. Chove na maior parte do tempo, a solidão de Susan é quase tangível, o prédio em que ela mora também é praticamente um edifício-pós-apocalíptico, essa simbologia que envolve gatos... Tudo tem um quê de gótico que eu acho que Poe traduziria muito bem. Falando nele, em alguns momentos o jogo me lembra A Queda da Casa de Usher e todo aquele ambiente sombrio da casa. Também associei a Alegria Breve (livro que já comentei aqui), de Vergílio Ferreira, em que o protagonista está completamente sozinho em um vilarejo, acompanhado apenas de seu cachorro Médor. E a segunda coisa que me chamou atenção: os diálogos. Quem escreveu esses diálogos (que são longos e muitos) tem minha estrelinha de fã. A linguagem é simples, tem até bastantes “fucking”, “bitch” e outros termos chulos inclusos, mas é um texto muito rico, natural. Acho que construir um diálogo verossímil, maduro, que não soe robótico ou artificial é uma parte difícil da construção de um texto, seja ele literário ou não, e por isso digo que o responsável pelo texto do jogo (que renderia um livro só pela extensão) está ó, de parabéns. E tem, ainda, a coisa do Realismo Fantástico: não dá pra saber se o que passa na mente da Susan é simplesmente coisa da cabeça dela, ou se foi uma representação mental da realidade, ou se foi um sonho, ou se a Rainha dos Vermes realmente existe... Fica tudo dúbio em alguns aspectos. Pra quem quiser saber mais sobre Realismo Fantástico, escrevi aqui no site, também, sobre Astrícia, uma obra brasileira que aborda o fantástico de forma bem interessante.

Pra quem curte jogos no PC e tem um domínio razoável de Inglês, eu super recomendo. O jogo pode ser baixado pelo site da Steam (aqui) e custa menos de R$17. Vale a pena comprar. Deixo, abaixo, o trailer oficial do jogo e um poema que é citado no início, que eu também achei lindinho, apesar do tema. E assim eu me despeço. Tenham todos uma boa semana e cuidem bem dos seus gatos. Até mais!

River
(Agnieszka Surygala)

Standing by the river I wonder,
do I need a stone?
No...my heart is heavy enough.
It will drag me down for sure.
Standing by the river I smile,
will I miss it all?
No...I'll be glad to leave it behind,
and never come back.
Standing by the river I close my eyes.
One jump and I'm there.
No...someone jumped after me.
He will never be my friend.
Standing by the river I'm thinking,
will I jump again?
No...behind the closed doors
I have fallen in love with the razor




Imagens: Douglas MCT
Hoje é um dia especial pro Escolhendo Livros! O motivo? Fomos atrás de um  autor chegado a uma aventura épica para mostrar que o Brasil também cria as suas próprias fantasias. Este era Douglas MCT, o simpático criador da saga Necrópolis, que nós até já falamos por aqui há alguns posts atrás. Se você se lembra bem e teve a chance de ler a nossa resenha, Douglas é um dos disseminadores da cultura Dark Fantasy pela nossa terrinha e tem muita a dizer sobre o seu trabalho como escritor de ficção nacional. Vem com tudo que a entrevista hoje está imperdível!


EL: Quando passeava pela Bienal do Livro 2013, tive a chance de encontrar o Necrópolis – A Fronteira das Almas no stand da Editora Gutenberg. Dentre os vários fatores que me fizeram levar o livro para casa, com certeza o termo dark-fantasy foi o que mais chamou a minha atenção. Então nós do Escolhendo Livros gostaríamos de saber: Como você entrou em contato com este gênero literário? Existe algum autor(a) que te influenciou diretamente? 


MCT: Eu acho que acabei me atraindo para esse gênero meio sem querer. Descobri os quadrinhos de Hellboy aos 15 anos e descobri, anos depois, que aquilo era dark-fantasy. Com o passar dos anos, outras construções narrativas desse gênero acabaram me conquistando fortemente, como a franquia de games God of War e a série A Torre Negra, de Stephen King, A Trilogia Tormenta, de Leonel Caldela, e a Trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Acredito que George R.R. Martin, Bernard Cornwell e Neil Gaiman também caminhem um pouco por este gênero. Aliás, isso ainda responde a sua outra pergunta, esses autores foram e continuam sendo grande influência na minha literatura, junto de Henry James e Mike Mignola

EL: Como foi o processo de criação da saga? Você teve alguma dificuldade específica ao criar um universo tão extenso e detalhado como o de Necrópolis? 


MCT:
O processo sempre foi complexo, e continua sendo. Mas desde moleque sempre tive muito interesse e facilidade em construção de mundos e criação de personagens, é o tipo de elemento que gosto de passar horas, semanas e meses trabalhando, é da minha natureza como autor. Isso não exclui as dificuldades de cada processo, claro. Mas, especificamente, acho que definir a moeda corrente e distância entre cenários, foram os elementos mais complicados, dado meu problema com números e cálculos. 

EL: Em alguns momentos de A Fronteira das Almas, é possível capturar uma essência narrativa que lembra bastante a de jogos e livros de RPG (Role Playing Game). Há alguma inspiração oriunda deste universo tão popular na cultura nerd? 


MCT: Sim, sim. Na verdade, além de outros livros, a minha literatura é influenciada por todas as outras mídias, como RPG, games, séries, animações ocidentais e orientais, e principalmente cinema e quadrinhos. Todas essas mídias trabalham a narrativa, cada uma a sua maneira, mas todas elas contam histórias. E todas elas me ensinaram como contar as minhas próprias histórias, então você encontra essas influências nos meus livros e continuará encontrando. 


EL: Dia 23 de setembro de 2012, o segundo volume da série, A Batalha das Feras, foi lançado no Fantasticon. Como foi a recepção do livro no evento? 


MCT: Foi ótima. Mesmo o Fantasticon sendo um evento mais de nicho e não tão forte como a Bienal do Livro (onde o Necrópolis 1 foi lançado um mês antes naquele ano), proporcionalmente falando, foi um dos melhores lançamentos do evento, tanto do público que descobria a série Necrópolis ali, quanto e principalmente dos fãs, que já acompanham a série há um tempo e foram com grande expectativa pela continuação. 


EL: Existe algum personagem do livro que você tem alguma ligação mais íntima? 


MCT: Eu costumo dizer que cada um dos personagens, pelo menos entre os principais, tem um pouco de mim. Como se eu tivesse dividido minhas qualidades, defeitos e personalidade em cada. Verne tem mais da minha voz, Simas expõe toda a minha caricatura social, enquanto que Karolina é orgulhosa como sempre serei e Ícaro tem aquele lado sombrio que procuramos ocultar a maior parte do tempo, etc. 

EL: Quais são os livros que não podem faltar na sua estante? 


MCT: São muitos, e ali incluo também quadrinhos. Mas focando na literatura e na sua pergunta, aí vão alguns: A Trilogia Fronteiras do Universo, As Crônicas de Gelo e Fogo, A Trilogia Tormenta, Coisas Frágeis e Hellboy. Ah é, eu falei que não citaria quadrinhos, mas Hellboy está colado eternamente nessa estante já quase sem espaço. 


EL: Você tem outros projetos em andamento? Fale um pouquinho deles para gente!


MCT: Tenho sim. Bastante coisa. Estou assumindo como editor-chefe de uma revista mensal sobre animes e mangás, que é publicada há muitos anos no Brasil. Estou escrevendo Necrópolis 3, que tem previsão de lançamento para esse ano. Na área de quadrinhos, voltei com força total, estou roteirizando Dez Desejos, que é um mangá que poderá ser lido como webcomic gratuitamente a partir de fevereiro neste endereço: http://www.necropolissaga.com/dezdesejos/ e faz parte do universo de Necrópolis, se você é fã, será incrível, se nunca tiver lido os livros, será incrível também, afinal é uma história que se passa 25 anos antes da jornada de Verne, com a linda arte do Rafael Françoi. Além deste, tem Hansel&Gretel, um mangá grandioso, com mais de 80 páginas prontas (de 260), que será lançado pela NewPOP assim que terminarmos, mas não, não temos previsão de quando esse material ficará pronto, só saibam que eu e a artista, Rafi Bluebunny, estamos trabalhando semanalmente neste projeto lindo e que ele sairá, sim. Tem outras duas HQs que estou roteirizando, mas elas são segredo ainda e serão reveladas na hora certa. Por fim, tem alguns contos e outros romances que pretendo escrever em breve, mas tudo ao seu tempo e tempo eu não tenho faz tempo. 

EL: Em uma visita pelo site oficial de Necrópolis, notei que o livro tem uma playlist própria para os leitores. Como foi que surgiu esta ideia? 


MCT: Como eu disse acima, entre as minhas influências, o cinema foi uma delas e bem forte. Eu sempre imaginei minhas obras como algo multimídia e não a toa, fui o primeiro a lançar um booktrailer no Brasil, algo que se consolidou como formato de sucesso no país. Ainda em 2006, data da primeira versão de Necrópolis, eu pensei que, assim como os filmes, que tem a música-tema e uma trilha para cada cena da película, um livro poderia também, talvez, ter uma música-tema e uma trilha para cada capítulo. Conheci e convidei Isis Fernandes para musicar o livro e ao longo de quatro anos ela realizou esse belíssimo trabalho, que logo vou disponibilizar na íntegra para todos

EL: Entrar no mercado editorial brasileiro: Difícil? 


MCT: Já foi, hoje não mais. Na época que eu fazia as primeiras tentativas, ainda em 2003, o mercado era outra e a fantasia não tinha moral editorial, hoje ela é prioridade. Atualmente, 9 entre 10 editoras tem um selo para literatura fantástica e buscam, no Brasil ou fora, obras do gênero, e cada qual com sua proposta, vem abrindo portas para este mercado, que espero cresça e que os leitores filtrem o que é bom e deve continuar. 

EL: Dê uma dica para os leitores que queiram escrever um livro de fantasia.


MCT: A dica de sempre: leia, leia, leia e depois leia mais um pouco. Leia sempre, e leia de tudo. Não só fantasia. Leia suspense, leia terror, leia o mainstream indefinido (mas também não precisa apelar para auto-ajuda). Escreva, escreva e escreva. Tente, sem pressa, experimente, use você como laboratório para si mesmo. Vá a eventos, participe de grupos, colha opiniões de terceiros que tenham boa vontade, mas não sejam amigos nem trolls. E consuma outras mídias, como games, quadrinhos, filmes e desenhos animados, porque eles tem muito a ensinar também no contar de histórias. Seja paciente, profissional e nunca desista. Leia e escreva, mas eu já disse isso, né?
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Nós agradecemos imensamente a participação do autor aqui no Escolhendo Livros e fazemos a pergunta: Você já leu algum livro do nosso convidado de hoje? Não deixe de comentar aqui embaixo sobre as suas experiências com as obras do Douglas!







Boa noite, gente!

Como vocês estão? Eu vou muito bem, obrigado, aliás, muito bem mesmo, porque acabei de acordar (quando este post estiver publicado, já fará algum tempo) e estou com aquela sensação de sono pós-sono que, olha... Uma delícia. Vontade de voltar pra cama, mas vou ficar acordado porque a vida não pode ser tão zoeira assim. Como foi o final de semana? Bom? Então tá bom. Já não preciso dizer que sumi e voltei porque é assim que eu sempre introduzo os posts e é sempre verdade, então vamos pra parte que importa.

Novamente, venho, hoje, trazer uma resenha, e não um post falando sobre qualquer coisa no Paralela Mente (mas calma: eu ainda farei esse post sobre qualquer coisa; já estou trabalhando em algumas ideias). Venho, hoje, falar de um romance que li ontem, da noite pro dia e, olha, o negócio é feio. Vem comigo!



Pois muito que bem. Hoje venho falar de uma história que acho que não seria considerada um clássico. Ou todos os livros escritos antes do século XX são considerados clássicos? Bem, não sei. Sei que a história é antiga, do finalzinho do século XIX. Bom Crioulo, o nome, de Adolfo Caminha. Não sei se é ignorância minha (muito provavelmente é, sim), mas eu nunca tinha ouvido falar desse nobre cidadão até tomar conhecimento dessa história. Bom Crioulo se enquadra no período literário correspondente ao Naturalismo, no Brasil, embora essa coisa de escolas literárias seja meio problemática. Pra quem não sabe, o Naturalismo foi um parente do Realismo, que se preocupava em mostrar a realidade nua e crua, geralmente do lado mais podre, falando de temas pesados/polêmicos, como violência, instintos humanos meio ~selvagens~, incesto, homoerotismo e por aí vai. Outra coisa interessante é que está associada ao princípio Darwinista de que o homem é fruto de seu meio; aquela história, lembra?, lá no primeiro ano do ensino médio? Então.

E, bem, esse parágrafo introdutório, basicamente, resumo o livro todo. Mas antes de ir à história, deixe-me contar como cheguei a ela: escrevi um conto (que você pode ler aqui) e, nesse conto, há um homem negro como par romântico de outro homem. Um amigo meu leu e disse que a história o fez lembrar Bom Crioulo, aí já me interessei. Fui ler a sinopse do livro e, realmente, havia certa semelhança: homem branco se envolve com homem negro. E, continuando a pesquisa, outra informação interessante: de acordo com a Wikipédia, Bom Crioulo é considerado por alguns o primeiro romance homossexual da literatura ocidental. Eu, claro, diante de tal informação, fui atrás do pdf na hora (a história é de domínio público, aliás; você pode lê-la aqui) e li da noite pro dia, literalmente. Mas deixa eu falar sobre a história, depois eu volto nessas questões acima.

Bom Crioulo narra a história de Amaro, o "Bom Crioulo" (apelido dado por seu bom comportamento e atributos físicos acima dos dos demais), um escravo fugido da fazenda que encontra emprego num tipo de embarcação que agora eu me esqueci do nome e toma gosto pela coisa e vira marinheiro. No começo da história, Bom Crioulo está recebendo um castigo físico por ter se envolvido em uma briga pra defender Aleixo, que é o rapaz lourinho afeminado de olhos azuis da embarcação, por quem Bom Crioulo se afeiçoa imediatamente. A história se desenrola a partir desse sentimento avassalador que Amaro desenvolve por Aleixo e, ó, é drama.

O livro é curto, a história se desenrola sem muita prolixidade — o que, pra mim, é ponto positivo —, a linguagem é aquela coisa típica da época (ler com o dicionário ao lado) e tem bastantes termos relativos à Marinha, que eu boiei um pouco. O xis da questão é a polêmica, né? O cara é um ex-escravo fugido, vai parar numa embarcação e acaba se apaixonando por outro cara. Muita coisa perigosa aí: negro, fugido e gay, no Brasil do século XIX. Complicado, né? Não conheço a obra de Adolfo Caminha. A escrita dele não é nada muito excepcional em relação aos já consagrados, mas uma coisa me chamou a atenção: a habilidade que o autor teve para mostrar, mesmo o livro não tendo sequer uma cena de sexo explícito, que o desejo de Bom Crioulo por Aleixo era algo selvagem, ferino, irrefreável, e acho que quem já sentiu algo desse tipo, de alguma forma, se identifica com o desespero do personagem, que quer, a todo custo, satisfazer seus desejos, mas está impedido pelo espaço e pelo meio em que está. Imagina. Uma embarcação, cheia de outros homens amontoados, e ele lá, louco para fazer um amorcom o loirinho. Onde? Que hora? De que jeito? Não dá! Confesso que fiquei com pena dele, coitado. Não só por isso, mas porque ele passa por uns bons bocados durante a história.

Tem mais coisa legal pra se falar, mas aí já é spoiler. A forma como o princípio Darwinista que eu falei se aplica na história também é interessante: (acho que isso não é spoiler) dentro da embarcação, Aleixo (o loirinho) é, basicamente, a mulher da história, ou a mulher de/para Amaro, e o narrador o descreve como tal, acentuando, em algumas partes descritivas, os traços sutis como os de uma mulher, dizendo, aliás, em algum lugar, que, para ser uma mulher, só lhe faltavam os peitos! Depois, fora da embarcação, envolvido em outro meio, ele passa a ser o homem, e já ganha outros traços. Nessa parte da história entra Dona Carolina, que é outra personagem interessante, mas da qual não dá pra falar sem spoilar, então vamos deixá-la pra lá. Uma coisa, todavia, que cabe discutir: será mesmo que Bom Crioulo foi o primeiro romance homossexual da literatura ocidental? Eu não sou entendido de literatura (muito pelo contrário, gente; não façam boa imagem de mim que eu só pareço Cult), mas vejam só: O Retrato de Dorian Gray (que o Escolhendo Livros já resenhou, aliás; você viu? Não? Veja aqui) é uma história anterior a Bom Crioulo e traz como personagens principais três personagens que apresentam características distintamente homossexuais: a admiração de Basil por Dorian, por exemplo, é algo que, pra mim, ultrapassa a admiração que se tem por um amigo querido. Agora, se quem deu a Bom Criouloesse título se referia ao fato de os personagens principais terem de fato se envolvido emocional/fisicamente, aí eu já não sei. De qualquer forma, cabe contestação, porque Shakespeare escreveu sobre tudonessa vida: certamente há de ter um casal gay lá no meio dos manuscritos dele, ha!


Bom Crioulo é uma leitura desconfortável. Os ambientes pútridos, próprios do Naturalismo, são realmente impressionantes e, se a vida naquela época era, ipsis litteris, como o narrador descreve, demos graças a Deus por viver no século XXI. E, se Oscar Wilde foi preso por escrever Dorian Gray, que nem era tão gay assim, e isso na Europa de países ricos e modernos para a época, imagina o tititi que Bom Crioulonão deve ter causado nesta nossa terra brasilis de 1895. Parabéns a Adolfo Caminha pelos culhões. 

Fico por aqui, rapaziada. Qualquer hora eu volto com mais; demoro mas volto. Um abraço procês!


Fonte // Editora Draco
Bem-vindos! Selem os cavalos e baixem os elmos. Já afiaram suas espadas devidamente? Os feitiços estão guardados embaixo da manga? Não esqueçam de levar a sua fé, seja ela nos Deuses Antigos quanto no Novo que surge no horizonte. Venham, escolhedores! Hoje somos Arthur, somos Merlim, somos Mordred, Guinevere, somos qualquer um que possa lutar por seus objetivos e crenças mais profundas. Hoje somos a prova de que as lendas jamais morrem, mas são renovadas sob vários olhares.

Excalibur é a coleção de contos arturianos da editora Draco, organizada pela autora de Castelo das Águias, Ana Lúcia Merege. Aqui, 12 contos recontam as lendas, desvendando mitos e abraçando nossas almas, puxando-nos para um universo onde tudo é possível. A seguir, vejam a minha visão pessoal de cada um dos contos e do livro em si. Avante! 


A Memória da Espada, Roberto de Sousa Causo, o primeiro conto se trata da história de Durius, o único homem que conseguira ferir o Rei Arthur em toda a existência. Morgana ressuscita o cavaleiro e faz dele seu criado, dando-lhe a missão de matar o rei. As coisas não são fáceis, porém, pois várias escolhas e dramas internos se colocam a frente da missão - transformando a vida pacata dos personagens num turbilhão.


A narrativa, em terceira pessoa, conta a história sob os ponto de vista de quatro personagens: Arthur, Morgana, Durius e Kay - o fiel cavaleiro do Rei Arthur. A história é recheada com a complexidade dos personagens - que chegam a ser reais, palpáveis. As histórias paralelas ao trama central chamam atenção e deixam o mundo presente no conto mais mágico e agradável ao leitor. O personagem de Durius é aquele que mais chama atenção do leitor - se sobrepujando aos demais. A narrativa é simples, de fácil absorção, mas sem perder a grandiosidade. Os diálogo ocorrem com naturalidade e nada é forçado dentro d'A Memória da Espada. O desfecho é mágico. Definitivamente um dos meus favoritos. 

Trecho:
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O Espelho, Liège Báccaro Toledo. Baseado no poema "A Dama de Shallot", O Espelho conta a história da menina Mary que, ao encontrar um antigo espelho no porão de sua casa, vê-se em um mundo mágico cheio de fadas e seres maravilhosos. Tal mundo, porém, torna-se o seu maior pesado ao descobrir sua história e quem lá o habita.

Narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Mary. A história é incrível, com beleza nos detalhes. A personagem é incrível, cativando logo o leitor, assim como as descrições nos fazem entrar em um pesadelo mágico. 

Trecho:
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Momento Decisivo, Luiz Felipe Vasques & Daniel Bezerra. Momento decisivo é, de longe, o conto mais peculiar de toda a antologia. Sua história ocorre no espaço sideral, onde a humanidade (após várias mudanças genéticas) se espalhou. Várias colônias surgiram, e, consequentemente, a guerra entre elas. O conto mostra a profecia feita por Myrdyn (Merlim) sobre como Arthur, o soberano das colônias, iria trazer paz e união para toda a humanidade. Temos, aqui, toda a história de Lancelot e Guinevere e outras tramas clássicas vista sob um filtro de naves, lasers e prótons. 

A princípio, a proposta assusta o leitor e faz com que um pré-conceito surja: "será que é possível por um conto arturiano em um cenário de ficção científica?  A história é original, não caindo no clichê típico da lenda clássica - claro, temos as guerras, os reinos, etc. Mas o cenário difere muito, e isso contribui para a história e complexidade dos personagens. Há dois pontos de vista aqui, ambos bem trabalhados. As cenas de ação são uma joia descritiva, e tudo isso é feito com um texto de absorção fácil. 

Trecho:

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Cavaleiro Anônimo, André S. Silva. É a história trágica de um menino que sonha em se cavaleiro. Acompanhamos o personagem desde sua infância, quando ajudava o pai a ser lenhador, até os acontecimentos que o fizeram escolher a vocação de cavaleiro. Contra os pais, o menino foge de casa e vai para Camelot, onde consegue alcançar seus objetivos. Porém, a ambição é maior e ele deseja algo mais. Sua vida vira de cabeça para baixo ao mostrar a verdadeira realidade por trás de suas escolhas. 


A trama é simples, mas contém traços que a distinguem de histórias parecidas. O conto é escrito de forma mais crua, verdadeira, trazendo, em sua história, uma linha tênue que parece transcender a ficção. Em primeira pessoa, o protagonista conta a história vista pelo tempo presente - o que pode confundir o leitor algumas vezes, mas nos deixa mais próximos do personagem. 

Acho que os personagens poderiam ser mais trabalhados: as poucas cenas em que temos profundidade são um pouco estreitas, devido ao objetivo que parece ser a base do narrador. 

Trecho:
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Mau Conselho, Pedro Viana. Conta a história clássica de um ponto de vista completamente diferente. No conto de Pedro Viana, o jovem Artur é obrigado a deixar o reino - e então tem de assumir um identidade nova. Vira Mordred, apelido dado por seu mestre; o grande mago Merlim. Quando descobre que seu irmão Geoffrey assume a sua própria identidade, Arthur (agora, Mordred) perde o rumo em meio a sentimentos que podem mudar o destino de todo o reino. Todos os personagens clássicos são reunidos na narrativa: e a trama se prende na visão de Arthur sobre Geoffrey, o amigo Lancelote, Morgana, Merlim, e é claro - a bela Guinevere.

Ótimo conto, com um dos enredos mais originais de toda a coletânea. A narrativa cativa rápido o leitor que, sob o ponto de vista de Mordred, engloba com voracidade o mundo apresentado e as características fortes dos personagens - tamanha a maestria narrativa. O ponto de vista é natural, cabendo perfeitamente ao personagem - quase parece que é o próprio protagonista que descreve todas as cenas, mesmo sendo em terceira pessoa. Os diálogos são naturais e bem colocados, e a leitura não é pesada nem de difícil absorção. Eu adorei cada parte do conto, mesmo.

Trecho: 
Você já sabe o que fazer.


A Solução Final, A. Z. Cordenonsi, conta a história do imperador Arturious, governante da Britonnia. Sob um filtro futurístico, a história é uma reintrodução da lenda clássica. Há uma guerra acontecendo, e, além da batalha iminente, o Imperador tem que se preocupar com boatos sobre o fato de a sua esposa, a Rainha Guinevere e o Cavaleiro das Rosas, Lancelot, estarem juntos. A figura de Morgana aparece como a irmã de Arthur, que é a grã-sacerdotisa e grande espiã do reino. As intrigas surgem em cada linha, fazendo o personagem beirar o desespero.


Narrado em terceira pessoa, a história é boa - mesmo contendo todos os clichês dos contos arturianos, a trama dá reviravoltas que prendem o leitor. Há, porém, ao meu ver, um enorme excesso de informação nas páginas transcorridas - nomes, lugares, datas... que confundem a leitura. Mesmo com uma linguagem não tão rebuscada, a densidade com que as coisas foram comprimidas deixam o texto pesado e tornam a leitura preguiçosa. Em alguns casos, tive que voltar certas páginas para saber quem era tal personagem e por que estava em determinada cena. 

O mundo criado por Cordenonsi é incrível, e os personagens que o compõem poderiam ser melhores trabalhados, mas parece que a grande quantidade de informação deixa a personalidades deles fraca, diante do geral da trama. O final é bom, mas parece chegar de tropeços, sem explicação ou lógica bem trabalhadas. 

Trecho: 


O Herdeiro de Shallot, Ana Cristina Rodrigues. Narra a história de Phelipe, que cresceu em Shallot, sem nunca poder sair das paredes do castelo. Quando mais velho, a sua mãe, então, revela o destino do rapaz e a sua história. Phelipe, ao completar 18 anos, após ser feito cavaleiro, segue para Camelot - onde se encontra completamente sozinho.

A história se trata, basicamente, sobre a questão da transição do paganismo para o cristianismo. O protagonista vê-se em uma rede de poderio comandada pelo Deus único, e jura jamais deixar a fé que lhe acompanha desde o nascimento. Há sensibilidade e beleza no uso das palavras. Os diálogos são ótimos, e os personagens cativam facilmente o leitor. Só achei o ritmo muito rápido, como se houvesse pressa em terminar a história. O final ficou vago, sem deixar tempo para cenas que causem um sentimento de clímax no leitor. Parece que é sempre um jogo de expectativas não saciadas. 

Trecho: 
Era uma vez um elfo encantado que vivia num pé de caqui e sabia que, pra ampliar, tinha que clicar bem aqui. RIMOU EU SOU UM GÊNIO!



A Fada, Marcelo Abreu. Ok, eu amo esse conto, me animei. Somos apresentados aqui a um mundo pós-apocalíptico, com o caos da guerra iminente matando lentamente a esperança do povo. A protagonista, Julia (minha xará, cof cof), mostra então sua "trupe", que, para dar esperanças e força de vontade para o povo vencer a luta, revive as lendas encontradas num antigo livro. Ela encarna o papel de Morgana, uma fada há muito esquecida - e assim os outros vão surgindo, Merlim, Arthur, Mordred... e a lenda revive. Em meio à guerra, como manter as aparências e separar a realidade das histórias perdidas? 

A protagonista é um jubilo aos olhos do leitor - com uma profundidade magnífica, e a escrita transforma a história em um enredo cheio de tramas que prendem a atenção. Diálogos ótimos e ponto de vista muito bem trabalhado, o enredo intriga e encanta na originalidade da história - que nunca perde o ritmo, e mantém o clima de lenda arturiana mesmo no cenário apresentado. As relações dos personagens são muito realistas e profundas. O arco do roteiro segue perfeitamente, dando um final surpreendente e, ao meu olhar, perfeito. Só consigo pensar em elogios para esse conto, sério. 

Trecho:

O Fio da Espada, Melissa de Sá. Um conto sobre conflitos, lealdade e decepções. Melissa de Sá nos mostra a história de Dainwin, um filho de um nobre com poucas propriedades que sonha em ser cavaleiro. A história mostra sua trajetória como cavaleiro menor até se tornar, devido o seu próprio esforço e força de vontade, escudeiro de sir Lancelot. Tal coisa inquieta-lhe o espírito, pois o Primeiro Cavaleiro é conhecido por não possuir escudeiros. Ao longo da trama, segredos se revelam, e Dainwin se vê perdido em uma questão: a quem ele deve ser fiel?


Possivelmente Dainwin é um dos melhores personagens da coletânea - tão completo em tão poucas páginas, tão real. Sua batalha interior poderia ser adaptada em qualquer situação, e nos identificamos facilmente com o protagonista. A trama é original - principalmente por dar menos destaque aos personagens da corte, que costumam ser o foco geral das lendas arturianas. A narrativa é ótima, também, apesar de que eu tive dificuldade de imaginar uma ou duas cenas. A narrativa em terceira pessoa, sob o olhar de Dainwin só exalta os dons de narrativa de Melissa de Sá, que cria um mundo incrivelmente detalhado e mágico. Um dos melhores contos pra sempre, sério.


Trecho:

As Mãos Vermelhas de Isolda, Octávio Aragão. Lancelot toma o rumo da história. Ele tem a missão de verificar a morte suspeita de Tristão de Liones. Chegando ao castelo onde morava sir. Tristão, e pede para interrogar sua mulher - Isolda de Blanchemans. As coisas correm diferente do esperado, porém.

Lancelot Du Lac é um personagem que atrai os leitores, querendo ou não. A história, porém, deixa pouco espaço para aprofundamento das características dos personagens que movimentam o conto. As personagens de Isolda (são duas!) parecem robôs que automaticamente respondem às falas para darem continuidade. Mesmo com a narrativa sendo boa, achei que as coisas acontecem realmente muito rápido no conto, causando confusão na trama - nos perdemos diante de tanta informação em pouco espaço. O desfecho é súbito, apressado e a série de acontecimentos que levam a ele são igualmente fracas... é como se o conto narrasse apenas uma cena de 5 minutos, sendo que há mais que isso. 

Trecho:

A dama da Floresta, Ana Lúcia Merege. Conta a história de uma anciã e o mundo que a cerca. Ela é a "vó" do seu povo, a anciã que sabe os segredos das ervas e suas propriedades, aquela que ajuda as mulheres a terem seus bebês e que reza à noite para os Deuses que vivem escondido nas árvores. A anciã, desde a tenra infância, aprende os segredos da natureza, e convive com segredos obscuros que podem mudar a vida de qualquer um. 

A trama é das mais originais de toda a coletânea: mistura religião, dramas morais e temas diversos e obscuros. Ana Lúcia Merege apresenta os personagens clássicos com os nomes originais das lendas, como Myrdyn para Merlim - o mago que aqui se apresenta um pouco diferente da versão que conhecemos dos contos arturianos. A escrita, em primeira pessoa, deixa um tom onírico no universo apresentado - como se estivéssemos cobertos por brumas que exalam segredos antigos. Sobre segredos é o que aprendemos no conto, a importância vital deles.

A anciã puxa atenção do leitor, com seu ponto de vista maduro e esclarecido, que, mesmo sendo uma figura de "poder" ainda tem espaço para dramas tipicamente humanos, e podemos ver a mudança dos pensamentos dela quando criança e já adulta. Não apenas a única personagem que chama atenção, mas todos os narrados - dando atenção principalmente para Myrdyn e Nimue, a filha da personagem. O arco narrativo é incrível, mostrando claramente uma espécie de linha do tempo, que acompanha a evolução de cada um dos personagens com maestria, dando um movimento fluído à história. Um dos melhores contos, sem dúvidas.



O Rei às Margens do Rio, Cirilo S. Lemos. Ok. Esse conto é doido. Sério. Pirado, doidaço, mas bom pra caramba. O termo dieselpunk é usado para caracterizar o estilo da história, mas eu mal faço ideia do que se trata - pelo que li, é tipo ficção científica passada na década de 30/40 com uma pegada meio futurística. A história é de um menino chamado Levítico que vive no estado do Rio de Janeiro, que tem um cachorro chamado Merlim e uma guerra acontecendo em território brasileiro. Acompanhamos o protagonista por aventuras muito parecidas com viagens-astrais e contextos históricos bacanas que dão um desfecho surpreendente.

Surpreendente é a palavra que se encaixaria melhor no conto. A escrita é ótima, com o tom interiorano típico dos personagens e clima nostálgico, mas também futurístico em certos pontos. O personagem de Levítico é profundo ao extremo, e somos encantados por ele facilmente, assim como compreendemos a sua visão de coisas como o mundo e a sua família.

Diálogos muito perfeitos, naturais e realistas dão vida aos personagens. O cenário é muito bem escrito, e sentimo-nos facilmente presos ao conto, dentro da narrativa. Com conflitos interessantes e trama extremamente madura, o final é incrível - dando um clima totalmente diferente, um desfecho surpreendente ao conto. Muito bom, mesmo.


No geral, Excalibur é uma daquelas coletâneas para a vida toda. Quem não gosta de lendas arturianas? Todos amam! São elas que inspiram as mais diversas histórias, e elas que são um dos maiores mistérios da humanidade. Eu acredito fielmente em personagens como Merlim e Morgana, em guerreiros como Lancelot, e rainhas lindas feito Guinevere. Os 12 contos aqui escritos são histórias originais que renovam o mito, dão um novo ar aos magos e reis, polem as espadas e amassam os escudos com pancadas de criatividade. O livro é um ótimo não apenas no seu conteúdo, mas na produção.

A capa é divina, o papel é resistente e o livro tem uma qualidade incrível - garantindo uma boa sobrevivência por anos. Eu abri o meu muitas vezes, e não há sinal algum de decomposição. O livro é baseado em vitrais medievais, e temos a impressão de estarmos tocando um livro antigo, medieval. Excalibur é uma viagem ao passado da humanidade, somos convidamos para conhecer terra distantes (ou não), com mágica e guerra em cada canto. Viramos reis, magos, guerreiros e até mesmo as próprias espadas e os lugares que cercam tais personagens. Viramos uma lenda.



Ilustrações: Julinho Sertão
2014 mal começou e eu já estou aqui para apresentar a vocês uma proposta que precisa ser levada para frente. Tenha a oportunidade de apoiar a produção de um livro infantil sobre a vida de um pequeno portador de leucemia que irá ser distribuído gratuitamente em hospitais e bibliotecas institucionais! Já ficou interessado? Então compartilhe com a gente este projeto fantástico do autor Julinho Sertão! 

O Projeto Leitura nos Hospitais foi criado pelo próprio Julinho no site Catarse (para quem não conhece, é uma versão brasileira do Kickstarter) com o intuito de ajudar o autor a realizar o seu sonho de lançar o primeiro livro de uma trilogia para crianças com leucemia. A história do livro é simples, mas feita com muito carinho para educar e agraciar todos os meninos e meninas que vivem nos quartos de hospitais.

No vídeo a seguir, o autor fala um pouco mais sobre a ideia por trás da obra:


O projeto foi feito para arrecadar o valor de 5 mil reais que será utilizados na edição, produção gráfica e no envio dos livros encomendados para os apoiadores da causa. A cada exemplar adquirido pelo apoiador, um outro livro será produzido exclusivamente  para sua doação à uma ala hospitalar ou instituição educacional. Assim como no Kickstarter, você pode contribuir com valores diferentes no site (25, 50, 100 ou mais), sendo que, quanto maior o valor doado, mais opções de prêmios serão presenteados aos apoiadores. Dê uma olhadinha nas regras do projeto neste link para entender melhor como participar.

A sua felicidade mais a felicidade de uma criança. Dá para ficar melhor?


Há algum tempo atrás, a Patrícia apresentou por aqui uma jóia rara do começo dos anos 90. As Virgens Suicidas, romance de estreia do americano Jeffrey Eugenides, chamou atenção da crítica pela sua representação mórbida do amor jovem, ganhando ainda mais atenção na mídia após Sofia Coppola (que ainda era apenas "a filha do Francis Ford Coppola") adaptá-lo para as telonas. Apesar de nunca ter lido o romance em si, tive a chance de ver o filme e, sinceramente, não foi lá um brownie de chocolate com cobertura de caramelo. Ainda assim, eu sabia que eu ainda bateria com esse autor em algum momento da vida. Dito e feito.


Fonte: NY Times

Como quem não quer nada, estava voltando de uma viagem no ano passado e vi esta "capinha da torradeira" ai em cima em uma livraria-quiosque no aeroporto dando sopa. Em uma mistura de curiosidade reprimida e ansiedade de comprar livros por impulso antes do vôo, decidi que esta seria a minha incursão pela carreira do Eugenides. Só que, bem... O que vocês esperam de um livro chamado A Trama de Casamento?

Deixa eu falar o que eu esperava. Quando eu li na sinopse atrás do livro que a protagonista tinha dois pretendentes e precisava escrever uma monografia sobre os romances que se resumiam em "quem ela vai escolher?", a primeira coisa que pulou na minha cabeça foi "crítica a Crepúsculo". Na verdade, muito mais do que isso. Seria uma crítica a todos os romances unidimensionais e melodramáticos com um foco central em triângulos amorosos, através de uma narrativa metalinguística estilo "a vida imita a arte... Ou não". 

Depois disso, notei que o livro se passava nos anos 80, iniciando a narrativa a partir do dia de formatura dos três personagens. Aí o meu pensamento foi logo para John Hughes, apesar da total improbabilidade do autor sequer pensar em O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas como uma referência.

E é claro que eu estava errado. A Trama de Casamento definitivamente não é O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas.

No começo dos anos 80, os Estados Unidos começavam a receber o feminismo na academia com novos olhos. A jovem Madeleine Hanna, por exemplo, sempre se deliciou com autoras como Austen e as irmãs Bronte. No entanto, gostar de literatura não era mais a mesma coisa na academia dos anos 80, depois da inserção de críticos como Roland Barthes, Derrida e Michel Foucalt. "O autor está morto. Os livros viraram textos, a semiótica está desconstruindo a linguagem." Madeleine começa a se questionar se o que realmente a fazia querer se graduar em letras - o prazer de ler - era o suficiente. E para isso, ela começou a olhar a sua própria vida amorosa. Como se entregar a uma vida romântica em uma era pós-divórcios e o enfraquecimento do "felizes para sempre"? 

Assim como nos romances do século XIX, Madeleine também tem duas opções. Uma delas é Mitchell Grammaticus, um rapaz franzino de cabelos encaracolados que sofre de friendzone aguda por Madeleine. Talvez por este motivo, Mitchell parte em uma busca existencial pela fé e crenças ao redor do mundo, escolhendo a peregrinação religiosa ao invés de correr atrás da garota. Do outro lado, temos Leonard Bankhead. Intelectual, brilhante, sedutor, impulsivo, engraçado, tempestuoso. O tipo de homem que deixa Madeleine sem chão. Para nós, a escolha da protagonista é óbvia e previsível neste primeiro momento, mas esta é a pegadinha que o autor plantou para nós, leitores desavisados. 

A Trama de Casamento é um livro sobre o depois. O depois da faculdade, do início caloroso da juventude, da tomada de decisão tanto profissional quanto amorosa. Uma trama talvez não tanto sobre casamento, mas sim da ruptura com as expectativas da vida adulta. A história é dividida nas narrações dos três personagens principais, que nos conduzem pelo presente e passado para explicar as ações e reações que os fizeram chegar até onde estão. Isto, sinceramente, fez com o que livro acabasse remoendo sempre os mesmos fatos várias vezes pelo olhar de um ou outro personagem, repetitivamente. Após ler 50% do livro, fui pego de surpresa quando percebi que o período que tudo estava acontecendo era MUITO mais curto do que parecia. Nada que fosse lifechanging para a leitura, mas acredito que isto deixe o livro pouco dinâmico para alguns leitores.

Mas pegadinha mesmo, para mim, jaz na facilidade em "escolher" o vértice preferido do triângulo. Por mais impecável que seja a tecitura narrativa de Eugenides, o núcleo de Mitchell e sua viagem por Paris-Grécia-Calcutá, por mais exótico que seja, não é carismático o suficiente para bater os acontecimentos da vida de Leonard e Madeleine. E quando digo este núcleo,  na verdade falo especificamente do primeiro citado. 

Leonard é maníaco-depressivo. Só por isto, eu já diria pra vocês: É o personagem mais interessante. Só quando o autor decide contar a história a partir do olhar DELE que o livro ganha uma nova cor, um acinzentado meio ocre, que chegou a me empolgar pela intensidade que isto deixou nos acontecimentos, mas que infelizmente durou pouco, pois o autor preferiu voltar para voz de Madeleine. E este é o problema.

Por mais incrível que seja falar do feminismo, esboçar a mentalidade incidente da geração 80 e enfiar isto dentro da realidade dos três personagens, é chato dizer que apenas um dos personagens me pareceu likeable o suficiente. Quando terminei o livro e fui procurar outras resenhas na web para ter certeza que eu não tinha terminado com um ponto de interrogação à toa, vi uma crítica do The Guardian que falava o quanto Eugenides descreve Madeleine como uma jovem diferente e única sem nos mostrar exatamente qual é a peculiaridade da garota. E isto é algo que senti no livro. Seria um crime falar que Eugenides não descreveu bem os personagens, dissertou sobre o que eles gostam, o que acreditam, as crenças e descrenças de cada um, qualidades e defeitos... Mas, honestamente, eu não sei quem eles são. Não ainda. A minha experiência foi agonizante e por mais que este talvez tenha sido um dos intuitos do autor, eu não sei se isso foi uma coisa boa para mim, como leitor.

Fui deixado com um vazio no peito. Você deve ter percebido que esta crítica não tendeu para nenhum lado específico, como em uma encruzilhada de sentimentos. Mas é o que eu posso entregar para vocês: Reconheço as intenções e a qualidade da obra, mas não sei ainda se o saldo foi positivo. 

Se você já leu A Trama de Casamento também, adoraria ouvir a sua opinião também. Acho que nunca quis tanto trocar ideias sobre um romance. E ei, talvez isto seja uma qualidade também, não é?



Porque até o Ouroboros se enrola.

Eu sei que eu me assusto com livros grandes e esse DEFINITIVAMENTE não é de bolso (são mais de 800 páginas grandes com letras minúsculas). Mas apesar do tamanho colossal e das informações mal  organizadas, ele conseguiu me prender até o final. E não, não estou reclamando. O livro é bom, só se atrapalha de vez em quando.

Para aqueles que dormiram no ônibus e passaram do ponto, O Olho do Mundo é a primeira bíblia sagrada de uma coleção de (agora) 14 livros. Quando Robert Jordan, o autor, começou a escrever em 1984, iam ser só 6. Mas após o primeiro livro ser lançado em 1990, magicamente esse número dobrou. Sendo que o último volume (o décimo segundo) teve que ser dividido em 3. Porque ele tinha DUAS MIL, QUINHENTAS E QUARENTA E DUAS PÁGINAS...

Por que, ó Senhor do Anéis?

Aliás, o homem morreu em 2007, antes de terminar o último colosso, completado por Brandon Sanderson. O que é justo. Afinal, ele escreveu quase 10.000 páginas de pura sabedoria fantástica. Não sabia que um ser humano poderia ter tempo de vida pra isso tudo.

Pra quem gosta de mapas megalomaníacos...
 Enfim, voltando.

A história desse primeiro livro conta a saga de um grupo de 5 jovens (Rand, Mat, Perrin, Egwene e Nynaeve) de uma terra afastada chamada Campo de Emond e de dois forasteiros de nível épico (Lan e Moiraine), saídos de uma campanha de D&D, tentando chegar em uma cidade mais afastada ainda, chamada Tar Valon.

Ao que parece, o três meninos do grupo estão sendo perseguidos por uma entidade conhecida como Tenebroso, um ser que, ao se libertar de sua prisão (onde está há trocentos anos), dominará o mundo com suas sombras.

Mas se ele é O Coisa Ruim, todo-poderoso, por que raios ele quer alistar 3 meninos comuns no seu exército, você pergunta?

Então o Chifrudo descobriu que um desses três meninos pode ser o Dragão, um cara da Luz que, de tempos em tempos, aparece na Terra quase Média para colocar o Senhor das Sombras pra dormir. Para não correr o risco, antes que um deles desperte o 7º sentido, ele quer conquistar a mente dos três, podendo, assim, tomar sua água de coco em paz.

Para conseguir evitar que a influência do Todo Tenebroso corrompa os meninos, Moiraine, uma profissional da magia, conhecida como Aes Sedai e Lan, seu Guardião, que já estavam sabendo de antemão dos planos malignos do Assombroso, resolveram encontrar ANTES os meninos e levá-los para cidade mágica de Tar Valon (que fica bem longe, claro). Lá, ela conseguiria, com a ajuda de sua irmandade, manter os rapazes em segurança e talvez descobrir mais sobre os planos demoníacos.

Ou seja, uma história de fantasia bacana e bem comum. No longo caminho eles se separam, se reencontram, morre gente, tem guerra, o de sempre. As situações criadas pelo autor são interessantes, muitas delas bem tensas. A atenção dada a cada personagem é algo que merece aplausos da platéia. Todos tem o tempo necessário para que, a cada aparição, você goste mais deles. Você torce por cada um até o fim da história.

E como é um livro de fantasia, as locações não podem ser esquecidas. As descrições são tão detalhadas que até uma pedra conseguiria visualizar as cidades épicas criadas pelo autor. Todas enormes e exóticas o suficiente para agradar o gosto do tolkieano mais chato.

Sim, ele descreve bem.
 Os blocos de história são muito bem divididos. Cada chegada em algum lugar possui um início, um meio e uma conclusão. E todas as histórias paralelas são muito bem alinhadas com a história principal, ajudando o leitor a não se perder.

O livro só tem um problema: excesso de informações que necessitam de conhecimento prévio.

Tá, eu sei que existe um glossário no final. Mas eu não sei o que pensar quando um autor escreve uma obra em que é NECESSÁRIO visitar um glossário a todo momento durante a leitura. Não é para complementar o conhecimento. A história sozinha, sem essas informações, não se basta. Você pode ler o livro todo sem passar pelo glossário? Pode. Mas dessa forma, você só vai pescar 70% ou menos da história. E ainda corre o risco de chegar no final e nada fazer muito sentido.

E o mistério do nome do livro. Leiam e, na área de comentários, nos digam se vocês também acharam que o nome do livro poderia ser qualquer outra coisa, menos O Olho do Mundo. Não vou falar mais nada para não estragar a experiência de ninguém.

Enfim, a história é boa e os personagens são incríveis. Vê-los se desenvolver é uma delícia. As situações vão do tenso ao hilário de forma suave e as descrições de tudo são ricas sem cansar o seu cérebro. O único grande problema foi o autor achar que o leitor já sabia tudo sobre seu mundo antes de começar a ler. Parece que incluiu o glossário para não ficar se sentindo culpado.

Se você gosta (mesmo) de fantasia e não se importa de ficar procurando nas últimas páginas de um livro difícil de manusear o significado de algum termo ou de uma lenda inteira para conseguir entender por completo um capítulo, você não vai se arrepender.

E se você tem preguiça de ler, ficou curioso e sabe inglês, pode ouvir o audiobook com quase 30 horas de duração. Só cuidado para não dormir.

O mundo tá de olho...