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Fonte // Editora Draco
Bem-vindos! Selem os cavalos e baixem os elmos. Já afiaram suas espadas devidamente? Os feitiços estão guardados embaixo da manga? Não esqueçam de levar a sua fé, seja ela nos Deuses Antigos quanto no Novo que surge no horizonte. Venham, escolhedores! Hoje somos Arthur, somos Merlim, somos Mordred, Guinevere, somos qualquer um que possa lutar por seus objetivos e crenças mais profundas. Hoje somos a prova de que as lendas jamais morrem, mas são renovadas sob vários olhares.

Excalibur é a coleção de contos arturianos da editora Draco, organizada pela autora de Castelo das Águias, Ana Lúcia Merege. Aqui, 12 contos recontam as lendas, desvendando mitos e abraçando nossas almas, puxando-nos para um universo onde tudo é possível. A seguir, vejam a minha visão pessoal de cada um dos contos e do livro em si. Avante! 


A Memória da Espada, Roberto de Sousa Causo, o primeiro conto se trata da história de Durius, o único homem que conseguira ferir o Rei Arthur em toda a existência. Morgana ressuscita o cavaleiro e faz dele seu criado, dando-lhe a missão de matar o rei. As coisas não são fáceis, porém, pois várias escolhas e dramas internos se colocam a frente da missão - transformando a vida pacata dos personagens num turbilhão.


A narrativa, em terceira pessoa, conta a história sob os ponto de vista de quatro personagens: Arthur, Morgana, Durius e Kay - o fiel cavaleiro do Rei Arthur. A história é recheada com a complexidade dos personagens - que chegam a ser reais, palpáveis. As histórias paralelas ao trama central chamam atenção e deixam o mundo presente no conto mais mágico e agradável ao leitor. O personagem de Durius é aquele que mais chama atenção do leitor - se sobrepujando aos demais. A narrativa é simples, de fácil absorção, mas sem perder a grandiosidade. Os diálogo ocorrem com naturalidade e nada é forçado dentro d'A Memória da Espada. O desfecho é mágico. Definitivamente um dos meus favoritos. 

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O Espelho, Liège Báccaro Toledo. Baseado no poema "A Dama de Shallot", O Espelho conta a história da menina Mary que, ao encontrar um antigo espelho no porão de sua casa, vê-se em um mundo mágico cheio de fadas e seres maravilhosos. Tal mundo, porém, torna-se o seu maior pesado ao descobrir sua história e quem lá o habita.

Narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Mary. A história é incrível, com beleza nos detalhes. A personagem é incrível, cativando logo o leitor, assim como as descrições nos fazem entrar em um pesadelo mágico. 

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Momento Decisivo, Luiz Felipe Vasques & Daniel Bezerra. Momento decisivo é, de longe, o conto mais peculiar de toda a antologia. Sua história ocorre no espaço sideral, onde a humanidade (após várias mudanças genéticas) se espalhou. Várias colônias surgiram, e, consequentemente, a guerra entre elas. O conto mostra a profecia feita por Myrdyn (Merlim) sobre como Arthur, o soberano das colônias, iria trazer paz e união para toda a humanidade. Temos, aqui, toda a história de Lancelot e Guinevere e outras tramas clássicas vista sob um filtro de naves, lasers e prótons. 

A princípio, a proposta assusta o leitor e faz com que um pré-conceito surja: "será que é possível por um conto arturiano em um cenário de ficção científica?  A história é original, não caindo no clichê típico da lenda clássica - claro, temos as guerras, os reinos, etc. Mas o cenário difere muito, e isso contribui para a história e complexidade dos personagens. Há dois pontos de vista aqui, ambos bem trabalhados. As cenas de ação são uma joia descritiva, e tudo isso é feito com um texto de absorção fácil. 

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Cavaleiro Anônimo, André S. Silva. É a história trágica de um menino que sonha em se cavaleiro. Acompanhamos o personagem desde sua infância, quando ajudava o pai a ser lenhador, até os acontecimentos que o fizeram escolher a vocação de cavaleiro. Contra os pais, o menino foge de casa e vai para Camelot, onde consegue alcançar seus objetivos. Porém, a ambição é maior e ele deseja algo mais. Sua vida vira de cabeça para baixo ao mostrar a verdadeira realidade por trás de suas escolhas. 


A trama é simples, mas contém traços que a distinguem de histórias parecidas. O conto é escrito de forma mais crua, verdadeira, trazendo, em sua história, uma linha tênue que parece transcender a ficção. Em primeira pessoa, o protagonista conta a história vista pelo tempo presente - o que pode confundir o leitor algumas vezes, mas nos deixa mais próximos do personagem. 

Acho que os personagens poderiam ser mais trabalhados: as poucas cenas em que temos profundidade são um pouco estreitas, devido ao objetivo que parece ser a base do narrador. 

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Mau Conselho, Pedro Viana. Conta a história clássica de um ponto de vista completamente diferente. No conto de Pedro Viana, o jovem Artur é obrigado a deixar o reino - e então tem de assumir um identidade nova. Vira Mordred, apelido dado por seu mestre; o grande mago Merlim. Quando descobre que seu irmão Geoffrey assume a sua própria identidade, Arthur (agora, Mordred) perde o rumo em meio a sentimentos que podem mudar o destino de todo o reino. Todos os personagens clássicos são reunidos na narrativa: e a trama se prende na visão de Arthur sobre Geoffrey, o amigo Lancelote, Morgana, Merlim, e é claro - a bela Guinevere.

Ótimo conto, com um dos enredos mais originais de toda a coletânea. A narrativa cativa rápido o leitor que, sob o ponto de vista de Mordred, engloba com voracidade o mundo apresentado e as características fortes dos personagens - tamanha a maestria narrativa. O ponto de vista é natural, cabendo perfeitamente ao personagem - quase parece que é o próprio protagonista que descreve todas as cenas, mesmo sendo em terceira pessoa. Os diálogos são naturais e bem colocados, e a leitura não é pesada nem de difícil absorção. Eu adorei cada parte do conto, mesmo.

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Você já sabe o que fazer.


A Solução Final, A. Z. Cordenonsi, conta a história do imperador Arturious, governante da Britonnia. Sob um filtro futurístico, a história é uma reintrodução da lenda clássica. Há uma guerra acontecendo, e, além da batalha iminente, o Imperador tem que se preocupar com boatos sobre o fato de a sua esposa, a Rainha Guinevere e o Cavaleiro das Rosas, Lancelot, estarem juntos. A figura de Morgana aparece como a irmã de Arthur, que é a grã-sacerdotisa e grande espiã do reino. As intrigas surgem em cada linha, fazendo o personagem beirar o desespero.


Narrado em terceira pessoa, a história é boa - mesmo contendo todos os clichês dos contos arturianos, a trama dá reviravoltas que prendem o leitor. Há, porém, ao meu ver, um enorme excesso de informação nas páginas transcorridas - nomes, lugares, datas... que confundem a leitura. Mesmo com uma linguagem não tão rebuscada, a densidade com que as coisas foram comprimidas deixam o texto pesado e tornam a leitura preguiçosa. Em alguns casos, tive que voltar certas páginas para saber quem era tal personagem e por que estava em determinada cena. 

O mundo criado por Cordenonsi é incrível, e os personagens que o compõem poderiam ser melhores trabalhados, mas parece que a grande quantidade de informação deixa a personalidades deles fraca, diante do geral da trama. O final é bom, mas parece chegar de tropeços, sem explicação ou lógica bem trabalhadas. 

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O Herdeiro de Shallot, Ana Cristina Rodrigues. Narra a história de Phelipe, que cresceu em Shallot, sem nunca poder sair das paredes do castelo. Quando mais velho, a sua mãe, então, revela o destino do rapaz e a sua história. Phelipe, ao completar 18 anos, após ser feito cavaleiro, segue para Camelot - onde se encontra completamente sozinho.

A história se trata, basicamente, sobre a questão da transição do paganismo para o cristianismo. O protagonista vê-se em uma rede de poderio comandada pelo Deus único, e jura jamais deixar a fé que lhe acompanha desde o nascimento. Há sensibilidade e beleza no uso das palavras. Os diálogos são ótimos, e os personagens cativam facilmente o leitor. Só achei o ritmo muito rápido, como se houvesse pressa em terminar a história. O final ficou vago, sem deixar tempo para cenas que causem um sentimento de clímax no leitor. Parece que é sempre um jogo de expectativas não saciadas. 

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Era uma vez um elfo encantado que vivia num pé de caqui e sabia que, pra ampliar, tinha que clicar bem aqui. RIMOU EU SOU UM GÊNIO!



A Fada, Marcelo Abreu. Ok, eu amo esse conto, me animei. Somos apresentados aqui a um mundo pós-apocalíptico, com o caos da guerra iminente matando lentamente a esperança do povo. A protagonista, Julia (minha xará, cof cof), mostra então sua "trupe", que, para dar esperanças e força de vontade para o povo vencer a luta, revive as lendas encontradas num antigo livro. Ela encarna o papel de Morgana, uma fada há muito esquecida - e assim os outros vão surgindo, Merlim, Arthur, Mordred... e a lenda revive. Em meio à guerra, como manter as aparências e separar a realidade das histórias perdidas? 

A protagonista é um jubilo aos olhos do leitor - com uma profundidade magnífica, e a escrita transforma a história em um enredo cheio de tramas que prendem a atenção. Diálogos ótimos e ponto de vista muito bem trabalhado, o enredo intriga e encanta na originalidade da história - que nunca perde o ritmo, e mantém o clima de lenda arturiana mesmo no cenário apresentado. As relações dos personagens são muito realistas e profundas. O arco do roteiro segue perfeitamente, dando um final surpreendente e, ao meu olhar, perfeito. Só consigo pensar em elogios para esse conto, sério. 

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O Fio da Espada, Melissa de Sá. Um conto sobre conflitos, lealdade e decepções. Melissa de Sá nos mostra a história de Dainwin, um filho de um nobre com poucas propriedades que sonha em ser cavaleiro. A história mostra sua trajetória como cavaleiro menor até se tornar, devido o seu próprio esforço e força de vontade, escudeiro de sir Lancelot. Tal coisa inquieta-lhe o espírito, pois o Primeiro Cavaleiro é conhecido por não possuir escudeiros. Ao longo da trama, segredos se revelam, e Dainwin se vê perdido em uma questão: a quem ele deve ser fiel?


Possivelmente Dainwin é um dos melhores personagens da coletânea - tão completo em tão poucas páginas, tão real. Sua batalha interior poderia ser adaptada em qualquer situação, e nos identificamos facilmente com o protagonista. A trama é original - principalmente por dar menos destaque aos personagens da corte, que costumam ser o foco geral das lendas arturianas. A narrativa é ótima, também, apesar de que eu tive dificuldade de imaginar uma ou duas cenas. A narrativa em terceira pessoa, sob o olhar de Dainwin só exalta os dons de narrativa de Melissa de Sá, que cria um mundo incrivelmente detalhado e mágico. Um dos melhores contos pra sempre, sério.


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As Mãos Vermelhas de Isolda, Octávio Aragão. Lancelot toma o rumo da história. Ele tem a missão de verificar a morte suspeita de Tristão de Liones. Chegando ao castelo onde morava sir. Tristão, e pede para interrogar sua mulher - Isolda de Blanchemans. As coisas correm diferente do esperado, porém.

Lancelot Du Lac é um personagem que atrai os leitores, querendo ou não. A história, porém, deixa pouco espaço para aprofundamento das características dos personagens que movimentam o conto. As personagens de Isolda (são duas!) parecem robôs que automaticamente respondem às falas para darem continuidade. Mesmo com a narrativa sendo boa, achei que as coisas acontecem realmente muito rápido no conto, causando confusão na trama - nos perdemos diante de tanta informação em pouco espaço. O desfecho é súbito, apressado e a série de acontecimentos que levam a ele são igualmente fracas... é como se o conto narrasse apenas uma cena de 5 minutos, sendo que há mais que isso. 

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A dama da Floresta, Ana Lúcia Merege. Conta a história de uma anciã e o mundo que a cerca. Ela é a "vó" do seu povo, a anciã que sabe os segredos das ervas e suas propriedades, aquela que ajuda as mulheres a terem seus bebês e que reza à noite para os Deuses que vivem escondido nas árvores. A anciã, desde a tenra infância, aprende os segredos da natureza, e convive com segredos obscuros que podem mudar a vida de qualquer um. 

A trama é das mais originais de toda a coletânea: mistura religião, dramas morais e temas diversos e obscuros. Ana Lúcia Merege apresenta os personagens clássicos com os nomes originais das lendas, como Myrdyn para Merlim - o mago que aqui se apresenta um pouco diferente da versão que conhecemos dos contos arturianos. A escrita, em primeira pessoa, deixa um tom onírico no universo apresentado - como se estivéssemos cobertos por brumas que exalam segredos antigos. Sobre segredos é o que aprendemos no conto, a importância vital deles.

A anciã puxa atenção do leitor, com seu ponto de vista maduro e esclarecido, que, mesmo sendo uma figura de "poder" ainda tem espaço para dramas tipicamente humanos, e podemos ver a mudança dos pensamentos dela quando criança e já adulta. Não apenas a única personagem que chama atenção, mas todos os narrados - dando atenção principalmente para Myrdyn e Nimue, a filha da personagem. O arco narrativo é incrível, mostrando claramente uma espécie de linha do tempo, que acompanha a evolução de cada um dos personagens com maestria, dando um movimento fluído à história. Um dos melhores contos, sem dúvidas.



O Rei às Margens do Rio, Cirilo S. Lemos. Ok. Esse conto é doido. Sério. Pirado, doidaço, mas bom pra caramba. O termo dieselpunk é usado para caracterizar o estilo da história, mas eu mal faço ideia do que se trata - pelo que li, é tipo ficção científica passada na década de 30/40 com uma pegada meio futurística. A história é de um menino chamado Levítico que vive no estado do Rio de Janeiro, que tem um cachorro chamado Merlim e uma guerra acontecendo em território brasileiro. Acompanhamos o protagonista por aventuras muito parecidas com viagens-astrais e contextos históricos bacanas que dão um desfecho surpreendente.

Surpreendente é a palavra que se encaixaria melhor no conto. A escrita é ótima, com o tom interiorano típico dos personagens e clima nostálgico, mas também futurístico em certos pontos. O personagem de Levítico é profundo ao extremo, e somos encantados por ele facilmente, assim como compreendemos a sua visão de coisas como o mundo e a sua família.

Diálogos muito perfeitos, naturais e realistas dão vida aos personagens. O cenário é muito bem escrito, e sentimo-nos facilmente presos ao conto, dentro da narrativa. Com conflitos interessantes e trama extremamente madura, o final é incrível - dando um clima totalmente diferente, um desfecho surpreendente ao conto. Muito bom, mesmo.


No geral, Excalibur é uma daquelas coletâneas para a vida toda. Quem não gosta de lendas arturianas? Todos amam! São elas que inspiram as mais diversas histórias, e elas que são um dos maiores mistérios da humanidade. Eu acredito fielmente em personagens como Merlim e Morgana, em guerreiros como Lancelot, e rainhas lindas feito Guinevere. Os 12 contos aqui escritos são histórias originais que renovam o mito, dão um novo ar aos magos e reis, polem as espadas e amassam os escudos com pancadas de criatividade. O livro é um ótimo não apenas no seu conteúdo, mas na produção.

A capa é divina, o papel é resistente e o livro tem uma qualidade incrível - garantindo uma boa sobrevivência por anos. Eu abri o meu muitas vezes, e não há sinal algum de decomposição. O livro é baseado em vitrais medievais, e temos a impressão de estarmos tocando um livro antigo, medieval. Excalibur é uma viagem ao passado da humanidade, somos convidamos para conhecer terra distantes (ou não), com mágica e guerra em cada canto. Viramos reis, magos, guerreiros e até mesmo as próprias espadas e os lugares que cercam tais personagens. Viramos uma lenda.



Ilustrações: Julinho Sertão
2014 mal começou e eu já estou aqui para apresentar a vocês uma proposta que precisa ser levada para frente. Tenha a oportunidade de apoiar a produção de um livro infantil sobre a vida de um pequeno portador de leucemia que irá ser distribuído gratuitamente em hospitais e bibliotecas institucionais! Já ficou interessado? Então compartilhe com a gente este projeto fantástico do autor Julinho Sertão! 

O Projeto Leitura nos Hospitais foi criado pelo próprio Julinho no site Catarse (para quem não conhece, é uma versão brasileira do Kickstarter) com o intuito de ajudar o autor a realizar o seu sonho de lançar o primeiro livro de uma trilogia para crianças com leucemia. A história do livro é simples, mas feita com muito carinho para educar e agraciar todos os meninos e meninas que vivem nos quartos de hospitais.

No vídeo a seguir, o autor fala um pouco mais sobre a ideia por trás da obra:


O projeto foi feito para arrecadar o valor de 5 mil reais que será utilizados na edição, produção gráfica e no envio dos livros encomendados para os apoiadores da causa. A cada exemplar adquirido pelo apoiador, um outro livro será produzido exclusivamente  para sua doação à uma ala hospitalar ou instituição educacional. Assim como no Kickstarter, você pode contribuir com valores diferentes no site (25, 50, 100 ou mais), sendo que, quanto maior o valor doado, mais opções de prêmios serão presenteados aos apoiadores. Dê uma olhadinha nas regras do projeto neste link para entender melhor como participar.

A sua felicidade mais a felicidade de uma criança. Dá para ficar melhor?


Há algum tempo atrás, a Patrícia apresentou por aqui uma jóia rara do começo dos anos 90. As Virgens Suicidas, romance de estreia do americano Jeffrey Eugenides, chamou atenção da crítica pela sua representação mórbida do amor jovem, ganhando ainda mais atenção na mídia após Sofia Coppola (que ainda era apenas "a filha do Francis Ford Coppola") adaptá-lo para as telonas. Apesar de nunca ter lido o romance em si, tive a chance de ver o filme e, sinceramente, não foi lá um brownie de chocolate com cobertura de caramelo. Ainda assim, eu sabia que eu ainda bateria com esse autor em algum momento da vida. Dito e feito.


Fonte: NY Times

Como quem não quer nada, estava voltando de uma viagem no ano passado e vi esta "capinha da torradeira" ai em cima em uma livraria-quiosque no aeroporto dando sopa. Em uma mistura de curiosidade reprimida e ansiedade de comprar livros por impulso antes do vôo, decidi que esta seria a minha incursão pela carreira do Eugenides. Só que, bem... O que vocês esperam de um livro chamado A Trama de Casamento?

Deixa eu falar o que eu esperava. Quando eu li na sinopse atrás do livro que a protagonista tinha dois pretendentes e precisava escrever uma monografia sobre os romances que se resumiam em "quem ela vai escolher?", a primeira coisa que pulou na minha cabeça foi "crítica a Crepúsculo". Na verdade, muito mais do que isso. Seria uma crítica a todos os romances unidimensionais e melodramáticos com um foco central em triângulos amorosos, através de uma narrativa metalinguística estilo "a vida imita a arte... Ou não". 

Depois disso, notei que o livro se passava nos anos 80, iniciando a narrativa a partir do dia de formatura dos três personagens. Aí o meu pensamento foi logo para John Hughes, apesar da total improbabilidade do autor sequer pensar em O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas como uma referência.

E é claro que eu estava errado. A Trama de Casamento definitivamente não é O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas.

No começo dos anos 80, os Estados Unidos começavam a receber o feminismo na academia com novos olhos. A jovem Madeleine Hanna, por exemplo, sempre se deliciou com autoras como Austen e as irmãs Bronte. No entanto, gostar de literatura não era mais a mesma coisa na academia dos anos 80, depois da inserção de críticos como Roland Barthes, Derrida e Michel Foucalt. "O autor está morto. Os livros viraram textos, a semiótica está desconstruindo a linguagem." Madeleine começa a se questionar se o que realmente a fazia querer se graduar em letras - o prazer de ler - era o suficiente. E para isso, ela começou a olhar a sua própria vida amorosa. Como se entregar a uma vida romântica em uma era pós-divórcios e o enfraquecimento do "felizes para sempre"? 

Assim como nos romances do século XIX, Madeleine também tem duas opções. Uma delas é Mitchell Grammaticus, um rapaz franzino de cabelos encaracolados que sofre de friendzone aguda por Madeleine. Talvez por este motivo, Mitchell parte em uma busca existencial pela fé e crenças ao redor do mundo, escolhendo a peregrinação religiosa ao invés de correr atrás da garota. Do outro lado, temos Leonard Bankhead. Intelectual, brilhante, sedutor, impulsivo, engraçado, tempestuoso. O tipo de homem que deixa Madeleine sem chão. Para nós, a escolha da protagonista é óbvia e previsível neste primeiro momento, mas esta é a pegadinha que o autor plantou para nós, leitores desavisados. 

A Trama de Casamento é um livro sobre o depois. O depois da faculdade, do início caloroso da juventude, da tomada de decisão tanto profissional quanto amorosa. Uma trama talvez não tanto sobre casamento, mas sim da ruptura com as expectativas da vida adulta. A história é dividida nas narrações dos três personagens principais, que nos conduzem pelo presente e passado para explicar as ações e reações que os fizeram chegar até onde estão. Isto, sinceramente, fez com o que livro acabasse remoendo sempre os mesmos fatos várias vezes pelo olhar de um ou outro personagem, repetitivamente. Após ler 50% do livro, fui pego de surpresa quando percebi que o período que tudo estava acontecendo era MUITO mais curto do que parecia. Nada que fosse lifechanging para a leitura, mas acredito que isto deixe o livro pouco dinâmico para alguns leitores.

Mas pegadinha mesmo, para mim, jaz na facilidade em "escolher" o vértice preferido do triângulo. Por mais impecável que seja a tecitura narrativa de Eugenides, o núcleo de Mitchell e sua viagem por Paris-Grécia-Calcutá, por mais exótico que seja, não é carismático o suficiente para bater os acontecimentos da vida de Leonard e Madeleine. E quando digo este núcleo,  na verdade falo especificamente do primeiro citado. 

Leonard é maníaco-depressivo. Só por isto, eu já diria pra vocês: É o personagem mais interessante. Só quando o autor decide contar a história a partir do olhar DELE que o livro ganha uma nova cor, um acinzentado meio ocre, que chegou a me empolgar pela intensidade que isto deixou nos acontecimentos, mas que infelizmente durou pouco, pois o autor preferiu voltar para voz de Madeleine. E este é o problema.

Por mais incrível que seja falar do feminismo, esboçar a mentalidade incidente da geração 80 e enfiar isto dentro da realidade dos três personagens, é chato dizer que apenas um dos personagens me pareceu likeable o suficiente. Quando terminei o livro e fui procurar outras resenhas na web para ter certeza que eu não tinha terminado com um ponto de interrogação à toa, vi uma crítica do The Guardian que falava o quanto Eugenides descreve Madeleine como uma jovem diferente e única sem nos mostrar exatamente qual é a peculiaridade da garota. E isto é algo que senti no livro. Seria um crime falar que Eugenides não descreveu bem os personagens, dissertou sobre o que eles gostam, o que acreditam, as crenças e descrenças de cada um, qualidades e defeitos... Mas, honestamente, eu não sei quem eles são. Não ainda. A minha experiência foi agonizante e por mais que este talvez tenha sido um dos intuitos do autor, eu não sei se isso foi uma coisa boa para mim, como leitor.

Fui deixado com um vazio no peito. Você deve ter percebido que esta crítica não tendeu para nenhum lado específico, como em uma encruzilhada de sentimentos. Mas é o que eu posso entregar para vocês: Reconheço as intenções e a qualidade da obra, mas não sei ainda se o saldo foi positivo. 

Se você já leu A Trama de Casamento também, adoraria ouvir a sua opinião também. Acho que nunca quis tanto trocar ideias sobre um romance. E ei, talvez isto seja uma qualidade também, não é?



Porque até o Ouroboros se enrola.

Eu sei que eu me assusto com livros grandes e esse DEFINITIVAMENTE não é de bolso (são mais de 800 páginas grandes com letras minúsculas). Mas apesar do tamanho colossal e das informações mal  organizadas, ele conseguiu me prender até o final. E não, não estou reclamando. O livro é bom, só se atrapalha de vez em quando.

Para aqueles que dormiram no ônibus e passaram do ponto, O Olho do Mundo é a primeira bíblia sagrada de uma coleção de (agora) 14 livros. Quando Robert Jordan, o autor, começou a escrever em 1984, iam ser só 6. Mas após o primeiro livro ser lançado em 1990, magicamente esse número dobrou. Sendo que o último volume (o décimo segundo) teve que ser dividido em 3. Porque ele tinha DUAS MIL, QUINHENTAS E QUARENTA E DUAS PÁGINAS...

Por que, ó Senhor do Anéis?

Aliás, o homem morreu em 2007, antes de terminar o último colosso, completado por Brandon Sanderson. O que é justo. Afinal, ele escreveu quase 10.000 páginas de pura sabedoria fantástica. Não sabia que um ser humano poderia ter tempo de vida pra isso tudo.

Pra quem gosta de mapas megalomaníacos...
 Enfim, voltando.

A história desse primeiro livro conta a saga de um grupo de 5 jovens (Rand, Mat, Perrin, Egwene e Nynaeve) de uma terra afastada chamada Campo de Emond e de dois forasteiros de nível épico (Lan e Moiraine), saídos de uma campanha de D&D, tentando chegar em uma cidade mais afastada ainda, chamada Tar Valon.

Ao que parece, o três meninos do grupo estão sendo perseguidos por uma entidade conhecida como Tenebroso, um ser que, ao se libertar de sua prisão (onde está há trocentos anos), dominará o mundo com suas sombras.

Mas se ele é O Coisa Ruim, todo-poderoso, por que raios ele quer alistar 3 meninos comuns no seu exército, você pergunta?

Então o Chifrudo descobriu que um desses três meninos pode ser o Dragão, um cara da Luz que, de tempos em tempos, aparece na Terra quase Média para colocar o Senhor das Sombras pra dormir. Para não correr o risco, antes que um deles desperte o 7º sentido, ele quer conquistar a mente dos três, podendo, assim, tomar sua água de coco em paz.

Para conseguir evitar que a influência do Todo Tenebroso corrompa os meninos, Moiraine, uma profissional da magia, conhecida como Aes Sedai e Lan, seu Guardião, que já estavam sabendo de antemão dos planos malignos do Assombroso, resolveram encontrar ANTES os meninos e levá-los para cidade mágica de Tar Valon (que fica bem longe, claro). Lá, ela conseguiria, com a ajuda de sua irmandade, manter os rapazes em segurança e talvez descobrir mais sobre os planos demoníacos.

Ou seja, uma história de fantasia bacana e bem comum. No longo caminho eles se separam, se reencontram, morre gente, tem guerra, o de sempre. As situações criadas pelo autor são interessantes, muitas delas bem tensas. A atenção dada a cada personagem é algo que merece aplausos da platéia. Todos tem o tempo necessário para que, a cada aparição, você goste mais deles. Você torce por cada um até o fim da história.

E como é um livro de fantasia, as locações não podem ser esquecidas. As descrições são tão detalhadas que até uma pedra conseguiria visualizar as cidades épicas criadas pelo autor. Todas enormes e exóticas o suficiente para agradar o gosto do tolkieano mais chato.

Sim, ele descreve bem.
 Os blocos de história são muito bem divididos. Cada chegada em algum lugar possui um início, um meio e uma conclusão. E todas as histórias paralelas são muito bem alinhadas com a história principal, ajudando o leitor a não se perder.

O livro só tem um problema: excesso de informações que necessitam de conhecimento prévio.

Tá, eu sei que existe um glossário no final. Mas eu não sei o que pensar quando um autor escreve uma obra em que é NECESSÁRIO visitar um glossário a todo momento durante a leitura. Não é para complementar o conhecimento. A história sozinha, sem essas informações, não se basta. Você pode ler o livro todo sem passar pelo glossário? Pode. Mas dessa forma, você só vai pescar 70% ou menos da história. E ainda corre o risco de chegar no final e nada fazer muito sentido.

E o mistério do nome do livro. Leiam e, na área de comentários, nos digam se vocês também acharam que o nome do livro poderia ser qualquer outra coisa, menos O Olho do Mundo. Não vou falar mais nada para não estragar a experiência de ninguém.

Enfim, a história é boa e os personagens são incríveis. Vê-los se desenvolver é uma delícia. As situações vão do tenso ao hilário de forma suave e as descrições de tudo são ricas sem cansar o seu cérebro. O único grande problema foi o autor achar que o leitor já sabia tudo sobre seu mundo antes de começar a ler. Parece que incluiu o glossário para não ficar se sentindo culpado.

Se você gosta (mesmo) de fantasia e não se importa de ficar procurando nas últimas páginas de um livro difícil de manusear o significado de algum termo ou de uma lenda inteira para conseguir entender por completo um capítulo, você não vai se arrepender.

E se você tem preguiça de ler, ficou curioso e sabe inglês, pode ouvir o audiobook com quase 30 horas de duração. Só cuidado para não dormir.

O mundo tá de olho...

Nooossa! Quantos jog... opa, peraí!

Aí, você que jogava videogames nos idos de 1998, se depara com um livro chamado Umbrella Conspiracy na prateleira de literatura estrangeira da livraria, baseado em uma famosa franquia de de jogos da época (que hoje já está pronta para ser mandada para casa de repouso). O que você pensa? "Caraca, maluco! Tenho que comprar esse livro!". O que sua mãe pensa? "Meu filhinho, um ávido leitor. Que orgulho.".

Não se engane, mamãe. A possibilidade de o que está escrito numa embalagem de seis unidades de rolo de papel higiênico ser melhor elaborado que o conteúdo dessas obras é enorme. Claro, existem exceções. Mas é por isso que recebem esse nome. Porque são exceções.


MOTIVO 1: Saem do nada. Vão para lugar nenhum.

Lembra do livro que falei ali em cima? Ele é baseado no primeiro jogo da franquia Resident Evil (sim, aquele que faz você vomitar seu pâncreas pela orelha por causa de um cachorro que quebra uma janela). Baseado é uma palavra forte. Ele é praticamente o rejunte do jogo, preenchendo lacunas que foram acidentalmente abertas na história original.

Até aí, o livro foi só caça-níquel, mas não é algo grave. O problema chegou com o terceiro livro, lançado ANTES do terceiro jogo. Ambos, continuações diretas de seus respectivos "primeiros". E o problema? Lembra a série que você viu nascer e crescer no mundo dos livrinhos? Ta-daaaaa, sumiu. O jogo invalidou a história contada no livro, já que é a mídia principal, aleijando a série literária por um bom tempo.

Ou seja, se o jogo não quiser que a série de livros vá pra frente, ela não vai.


MOTIVO 2: Falta de assunto

Sabe quando você vai tentar se aproximar da menina mas não consegue pensar em nada para falar? Parece que é exatamente esse o sentimento dos escritores ao conceber a maioria dos títulos baseados em jogos.

Para que RAIOS vou comprar um livro que conta a mesma história que vi no jogo? Por que não escrever sobre algo como "As aventuras do personagem secundário"?


MOTIVO 3: A melhor desculpa para lançar escritores ruins

Olhe, não estou julgando escritores iniciantes, longe disso. Porém, usar a desculpa "É baseado em joguinho, ninguém vai notar que é ruim" não cola mais. Ler um livro mal escrito é igual aquele momento constrangedor que alguém tenta contar uma piada que não lembra completamente.

Parece que o editor e o escritor do livro são crianças de 3 anos que não sabem com o que querem brincar primeiro:

Escritor de 3 anos de idade: "Coloquei uma bomba, aí explode a fábrica, aí coloquei o personagem correndo, aí ele caiu, aí explode, aí ele atira, aí ele corre......... eita, esqueci de dizer que ele leu um documento importante"

Editor de 3 anos de idade: "Coloca no final, junto com todas as 64 outras informações que você esqueceu de incluir antes. E diz que ele é o pai da menina que ele quer namorar. E diz que ela é a assassina esquizofrênica. E que eles dois fazem parte de uma seita satânica formada somente por sonâmbulos."

E O MOTIVO 0,5: Esses livros existem porque fãs são vermes (eu incluso)

Existe algum ser mais verme do que fã? Não. E onde existem fãs, existe alguém querendo ganhar dinheiro fácil. E sinceramente, não tem como sair algo bom, com muita frequência, dessa combinação.

Briga, briga!!!

Com os jogos fazendo cada vez mais sucesso, continuaremos a ver obras medianas ou medíocres ocupando espaço que outras, mais bem elaboradas (como a embalagem de 6 rolos de papel higiênico), mereciam ocupar. E como livros hoje estão virando artigos de luxo, esses exemplares não podem receber o título que lhes cabe: o entretenimento "coxinha".

Se pelo menos os livros baseados em jogos fossem iguais os da imagem abaixo, valeriam cada centavo.

Ain, que fofurinha cuticuti...

capa (fonte)
Bom dia, pessoas lindas.

Como vão vocês? Tudo bem graçaizadeux? Comigo também tá tudo ótimo apesar dos pesares e das coisas todas. De acordo com a tradição, sumi por um mês ou mais e, agora, volto, para o bem de todos e alegria geral da nação, é assim que se fala, né? Não lembro mais. 

O post de hoje ia ser sobre outra coisa e eu nem venho em nome do Paralela Mente: venho fazer uma review mesmo. Sabe quando, por um motivo ou outro, você relê uma história ou reassiste um filme e sente aquela sensação estranha, digo estranhamente estranha, de estar visitando um velho amigo que te era muito querido mas você meio que se esqueceu de que ele era querido e o tempo se encarregou de te fazer “esquecer” que ele existia? Pois é. Dia desses eu estava em casa de bobeira e pensei: preciso rever Brokeback Mountain. E foi o que eu fiz.

Pra quem não sabe (2013, gente, não é possível que alguém ainda não saiba disso, por favor), Brokeback Mountain ficou conhecido internacionalmente por ser o primeiro, ou, senão, um dos primeiros (que eu saiba foi o primeiro) filme hollywoodiano com produção de primeira a tratar da temática homossexual e trazer elenco consagrado: Heath Ledger (RIP), Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Michele Williams, Anna Faris e não sei se tem mais alguém famoso, mas pode ser que sim.

Ennis del Mar e Jack Twist (fonte)
Fato engraçado, e digo “engraçado” no sentido de “interessante”, é que o filme foi baseado em um conto, escrito pela americana Annie Proulx, que também escreveu The Shipping News (Chegadas e Partidas, em português), que também ganhou sua adaptação para cinema, antes mesmo de Brokeback Mountain, inclusive. O conto original foi publicado em outubro 1997 na revista The New Yorker, mas teve sua adaptação para cinema feita só em 2005. Então. Como o texto não foi publicado em um livro impresso, mas em um tabloide, acredito que muita gente, ou quase todos que conhecem o filme (hiperbolizando um pouco), não conhecem o conto. E euzinho estava incluso nesse número de gentes, até que um dia desses eu resolvi procurar o conto e ler, e é sobre isso que eu venho falar hoje e, aproveitando o gancho, fazer uma sutil comparação entre o filme e o conto. Mas uma coisa de cada vez.


Ao conto. Brokeback Mountain (e o nome é esse mesmo, não "O segredo de Brokeback Mountain. Isso é coisa dessa gente linda que traduz títulos no Brasil) é um drama em terceira pessoa que conta a história de Ennis del Mar, um caubói sem muitas perspectivas na vida que, em dado momento de sua história, consegue emprego como pastor na montanha Brokeback (acho esse nome tão cacófato...) e, lá, ele conhece Jack Twist, com quem, posteriormente, ele se envolve sexual e emocionalmente. Acabada a temporada na montanha, cada um segue seu caminho de vida como se nunca tivessem se conhecido, até que um belo dia, quatro anos depois, Ennis, já casado e com filhas, recebe um cartão postal de Jack dizendo que ele passaria pela região onde Ennis morava e se tinha como eles se encontrarem. Depois desse reencontro (uma cena linda linda linda linda) e do retorno explosivo de todos aqueles sentimentos que existiam nos tempos da montanha, os dois precisam encontrar meios pra darem conta de continuar a viver o que eles lá começaram.

Como a vida me foi generosa (mentira, não foi a vida, eu mesmo fui atrás disso ok), eu tive a oportunidade de ler o conto em Inglês (aqui). Digo isso não pra me gabar, mas porque sou um pouco preconceituoso quanto a traduções que não são feitas por mim, como se eu fosse o único que sabe Inglês nesse mundo e entende de tradução. Neste caso, a minha indisposição se justifica, porque a tradução que eu encontrei, de um rapaz/cara/senhor/cidadão chamado Guilherme Addino (joguei no Google e todos os resultados levaram para o mesmo blog, que foi o no qual eu encontrei o Brokeback), apresenta uma séééérie de problemas. Ok, talvez não uma sééééérie, mas uma série. E são uns problemas bobos, do tipo traduzir “daughter” (filha) como “irmã”, ou “the army” (o exército) pra “frio” (?). Entretanto, a leitura geral não é comprometida por isso e você pode ler o conto traduzido clicando aqui. Mas, de antemão, já trago uma crítica que não posso levar muito adiante porque não consegui acessar o arquivo original do New Yorker, porque precisa de inscrição e de dinheiro: eu não sei se a digitação do texto que eu li condiz com a que foi publicada no The New Yorker, mas, caso tenha sido, definitivamente: pelo menos em 1997, Annie Proulx não sabia pontuar frases. O texto é confuso e isso se dá, em grande parte, pelo fato de que, não sei se numa tentativa de aceleração ou de assíndeto, o texto tem inúmeras vírgulas onde se utilizaria qualquer outro sinal de pontuação que não uma vírgula. E o tradutor deve ter respeitado a pontuação que ele viu no texto original, o que torna a leitura, pelo menos aos meus olhos de grammar nazi, um pouco lenta. 

Quanto à história, devo dizer que o filme respeitou MUITO tudo que acontece no texto, especialmente os diálogos. Os roteiristas estão de parabéns. Eu não sou nenhum aficionado por cinema nem nada, mas parece que tem muita gente que reclama quando mudam alguma coisa da história original pro filme, mas em Brokeback Mountain a história escrita e a cinematográfica (detesto essa palavra) acontecem de forma extremamente paralela. Os momentos que existem na história e não existem no cinema são momentos, de fato, elimináveis, que não acrescentariam nada à cena ou à história. Ainda na questão do roteiro, eu não sei se é culpa da Annie, ou se é o jeito d’ela escrever, afinal não conheço sua obra, mas posso dizer que o texto é, de modo geral, um tanto confuso. As coisas não acontecem em ordem cronológica, em algumas partes. No início, Ennis está num aparente presente, depois surge uma analepse, em alguns momentos há uns flash backs que, pra mim, não se justificam e, em alguns pontos, parecem dar ao texto um ar de pressa, como se a autora tivesse querido acabar com aquilo logo pra publicar e fim, e não duvido muito que tenha sido realmente isso que aconteceu. São, na diegese, vinte anos que passam assim, em vinte minutos. Mentira, o conto tem mais de 9000 palavras, não dá pra ler em vinte minutos.

Outro aspecto recorrente me incomodou um pouco: o bucolismo exacerbado. Não sei se bucolismo é algo mensurável pra se dizer “muito” ou “pouco” bucólico, mas, da forma como ele acontece no conto, cansa. Annie parece se procupar demais com descrever a cor das nuvens ou como o céu se comporta durante o entardecer, ou que barulho o cascalho faz quando o vento sopra sobre ele... Não sei se são meus olhos de leitor/escritor objetivo que não se interessam muito por esse tipo de detalhe, mas eles estão presentes pelo desenrolar da história toda, coisa que, óbvio, não acontece no filme, já que uma imagem vale mais que mil palavras etc.

Existe algo, porém, no conto que não existe no filme e acho que foi o que mais me incomodou. Na verdade não é exatamente algo, mas o protagonista em si: o Ennis del Mar do conto e o do filme são praticamente pessoas diferentes, e é claro que eu não me refiro ao físico, mas ao psicológico. Proulx deposita em Ennis uma carga (singela, muito singela) de ternura que o del Mar do cinema não tem, e a culpa não é do Heath Ledger, mas do texto. Durante o conto, Ennis, por duas ou três vezes, fala coisas importantíssimas que não aparecem no cinema, e eu quando li fiquei “!!! Como assim?”. Da mesma forma, existem elementos na narrativa que conduzem a essa ternura e não aparecem no filme de jeito nenhum, nem na expressão facial do personagem, que parece estar sempre com o mesmo humor, do primeiro ao último minuto do filme. E eu acho que isso é algo significativo, porque a relação entre Ennis e Jack é muito delicada, conturbada e problemática, e se essas duas ou três frases tivessem sido ditas no cinema, haveria uma senhora amplificação da empatia com o protagonista, coisa que não é cem por cento recorrente pra quem não leu o conto; porque eu, pessoalmente, senti raiva de algumas atitudes de Ennis no filme, e esse sentimento não existiria se alguns momentos do conto tivessem sido mantidos.

Bom.  Preciso dizer, ainda, que todos os personagens, literalmente, fizeram um papel brilhante no filme. Apesar de alguns deslizes no texto, o espírito de cada um foi lindamente transportado das páginas pra tela. E, claro, é necessário dizer que o conto, apesar desses problemas de desenvolvimento, emociona tanto quanto o filme, embora naquele fiquem um pouco menos evidentes alguns fatores importantes de nível sócio-cultural: a história fala de dois caubóis, gente da roça, caipira, que se conhece e se apaixona em 1963 e vive um amor que atravessa décadas. Se hoje, em 2013, em que há quem diga que vivemos uma ´´ditadura gayzista´´, é difícil manter um relacionamento homossexual de longo termo, imagina em 1963. Pra quem não consegue imaginar, assista Kinsey (2004), que é um bom relato de como o comportamento sexual era entendido na metade do século XX. Além de tudo isso, talvez até acima de tudo isso, ainda preciso dizer que a última frase do filme/do conto me intriga tanto quanto o final de Inception. Annie foi uma grande filha da puta mãe ao terminar a história como ela terminou. Não sei se isso é um elogio ou uma alfinetada, mas ó.

E é isso, galero. Tinha muito mais coisa pra falar, mas aí já partiríamos pro campo do spoiler e eu me propus a redigir esse texto sem spoilar e acho que, ainda assim, falei demais. E se você tem uma horinha sobrando, leia o conto porque vale a pena. Um abraço proceis e a gente se vê daqui a algum tempo. Até lá!


Imagem: my-cherry-blossom
Aprender a ler é uma questão muito mais complicada do que nós gostamos de admitir. Quando uma criança não demonstra afinidade pela leitura, uma das primeiras coisas que os professores fazem é dar um antigo conselho que provavelmente soa óbvio a primeira vista, mas que é, na verdade, muito eficiente: "Procure um assunto que te interessa". Normalmente, a dica é tiro e queda: Segmentar as suas escolhas te ajuda a digerir um amontoado de páginas com mais facilidade. Porém, poucos percebem o grande risco de levar este aprendizado como uma mantra de vida. Está na hora de aprendermos a ler o novo, de novo.

Pense bem. Quando você entra em uma livraria, qual é o primeiro lugar que você vai? Quando tinha 14-15 anos, eu simplesmente passava direto para a seção de Literatura Infanto-Juvenil Estrangeira, mas especificamente, para a prateleira dos Romances. Uma das lembranças mais fortes que eu tenho é das horas e horas que passava no quarto, devorando Meg Cabot como se fossem um saco de batata fritas do Mac Donalds. 

Não me leve a mal; ainda amo A Mediadora e compro romances teen avidamente, mas hoje, a primeira coisa que me passa pela cabeça ao reviver essa memoria é o quanto eu gastei tempo com as mesmas histórias. Essa fixação em pegar livros em que eu já sabia que iria gostar de cara me fez esquecer o prazer do novo, do inesperado, do estranho... Daquilo que nos motiva a testar os nossos próprios limites. Pensar que s e eu tivesse mantido meus hábitos adolescentes eu não teria conhecido Lionel Shriver, Ursula K. Le Guin, Oscar Wilde, Stephen King, Anne Rice e Marçal Aquino é simplesmente assustador, e por isso, dedico este post a uma nova filosofia:

Vamos esquecer o favoritismo literário.

Eu sei, não é facil. No começo, sempre teremos uma inclinação a comprar aquele novo livro que tem TUDO que te atrai, mas dessa vez, eu preciso que você segure os seus impulsos e desafie a si mesmo. A proposta a seguir é um estímulo a você, leitor-de-um-gênero, a abrir os seus horizontes literários e descobrir novos tipos de literatura para enriquecer a sua biblioteca particular.

Aquela tal menina que roubava livros sabe muito bem disso...

1) Passeie em livrarias.

A livraria é um museu. Ao entrar nela, ande por todas as seções para ter uma visão geral do que está disponível. Nada de correr para uma estante e começar a folhear um livro - Isso apenas limitará a sua visão. Faça um tour por todos os cantinhos da loja do começo ao fim. Essa é uma forma de você se acostumar a olhar para capas de livro diferentes, perder os preconceitos e, quem sabe, criar uma curiosidade insaciável por um livro que você nunca tinha ouvido falar. 

2) Escute as recomendações dos outros.

Amigos, familiares, professores, colegas de trabalho, blogueiros, tanto faz! Procure saber os livros que as pessoas ao seu redor gostaram, o por quê e se eles podem te emprestar para dar uma chance. Se ele tiver aconselhado um livro que você já tinha interesse antes, nada disso: Peça outra recomendação! Pense que, mesmo que você acabe não gostando tanto assim do livro no final, você poderá ter uma opinião sobre a obra e poderá conversar sobre ela com a pessoa (ou comentar no blog do blogueiro - Sim, isso é um estimulo para vocês, leitores do Escolhendo Livros, rá!). Não há nada mais estimulante do que ter alguém para dividir suas ideias!

3) Descubra o que está sendo comentado por aí.

Assine revistas, acompanhe as notícias de sites e blogs, leia críticas de plataformas diferentes, curta fanpages de livros, siga o twitter de vários autores - crie o costume de saber o que está acontecendo no universo da literatura. Quanto mais você tirar o vício dos seus olhos de sempre buscar suas informações no mesmo lugar, mais você partirá para novas jornadas literárias.

4) Compre um livro de um gênero diferente por mês.

Coloquei um estímulo mensal, mas acredito que você deva apropriar esse item para o seu caso (nem todo mundo pode ficar gastando com livros todo mês, claro). O que importa é: Sempre que você for para a livraria adquirir algo já do seu gosto, tente levar outro título de um gênero fora de seus planos. E claro, não adianta comprar e deixar ele na prateleira como uma decoração cult para as visitas ficarem admiradas. Leia. Explore. Não abandone. 

5) Use as redes sociais ao seu favor.

Vou utilizar o Skoob como exemplo, mas caso você prefira o Goodreads, não se acanhe. Nesta rede social, existe uma forma de você separar os seus livros em estantes diferentes e criar metas de leituras que podem te ajudar na organização dos seus futuros planos. No Skoob, as metas costumam ser anuais, então procure colocar pelo menos uns 3 livros divergentes do seu gosto e 1 clássico como um desafio bônus (falo isso por muitas pessoas terem mais dificuldades em ler livros antigos, mas caso não seja o seu problema, procure outra coisa para ser o seu desafio). Lembre-se, leve suas metas a sério!

Gostou das dicas? Lembre-se: Quanto mais você deixar seus favoritos de lado, mais novos favoritos você poderá conhecer. Aproveite o post a sua maneira e não esqueça de voltar aqui para falar as suas experiências. Beijos!