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Sou adepto à Liga da Leitura Simultânea: Leio dois livros completamente diferentes um do outro no mesmo período do tempo. E como tenho desafiado o primeiro da trilogia Senhor dos Anéis nesses últimos tempos – o que, tenho que desabafar, suga muito as minhas energias devido a tamanha complexidade da obra – nada mais compreensível do que procurar um “parceiro de crime” para ele bem leve e fácil de digerir. O problema é quando ele se torna tão suave pros seus olhos que tu acaba engolindo ele todo em um dia e aí, parabéns, lá se vão as 248 páginas que você tinha programado para servir apenas de passatempo para intervalo entre um livro e outro. Se isso foi bom pra minha situação eu não sei, mas que Não Sou Este Tipo de Garotaconseguiu me conquistar com seu jeitinho despretensioso, ah, isso eu não posso negar.

Antes de tudo, deixo bem claro: Esse livro não vai mudar sua vida. Acho que isso é meio óbvio, né? Tem garotas, escola, popularidade, romancezinho teen, sexo e álcool. Entretanto a autora fez uma história bem plausível sobre uma das principais neuras que as adolescentes do séc.XXI têm: Ser centrada ou atirada? Sim, é um livro sobre “Como se portar” em uma época que coisas como saias curtas e não-ser-mais-virgem-aos-catorze-anos não soam mais como um tabu para a sociedade. Talvez exatamente por não procurar sair muito da palheta de temáticas típicas do gênero a Siobhan Vivian acabou acertando no tom do livro: Ele é bem gostoso de ler e até fornece um bom aprendizado para as meninas mais novas com dúvidas no assunto.

Perceba como a trama não é nada fora do normal: Natalie Sterling está no seu último ano colegial e, para fechar tudo com chave de ouro, decide concorrer a presidência do conselho estudantil. Para isso, ela tem o apoio de sua melhor amiga Autumn, uma garota doce com facilidade de fazer amigos a qual sempre pode contar. Logo no primeiro dia de aula, Natalie se surpreende quando uma das calouras do primeiro ano se revela como sendo a menina a qual foi babá quando mais nova e, por pura e espontânea vontade, decide ser sua guia sobre os “sims” e “nãos” do ensino médio. Porém, a protagonista descobre que aquela garotinha que mal ia para o banheiro sozinha agora virou o projeto de uma mulher fatal e com total controle sobre os seus... dotes corporais, algo que Sterling percebe como uma nova causa a ser combatida. Por mais que sua motivação tenha um fundo de verdade... Será que a própria Natalie não poderia fugir um pouco do seu tipo de garota?

O desenvolvimento do livro é tão singelo e sem grandes pretensões que chega até a surpreender um pouco pela plausibilidade do diálogo que a autora procurou evocar. Por mais que, sim, tenha um romance bonitinho e todos os clichês que esse tipo de leitura sempre traz, Não Sou Este Tipo de Garota entretém com propriedade, e em alguns momentos eu senti que, se fosse uma pré-adolescente, talvez encontraria muitas respostas dentro das dúvidas que Natalie tem sobre o que é ser uma boa garota. Siobhan é uma escritora competente e espero me agraciar futuramente com outras obras do mesmo naipe.

Esse é um post para agradecer a quem me disse "cala a boca e vai ler Jogos Vorazes": Onã, Lygia... o Trinta também. Provavelmente foram vocês três.


Eu não estava esperando adorar tanto essa série de livros, minhas expectativas eram baixas e foi lindo observar como todos os conceitos pré-estabelecidos que eu tinha sobre uma possível história superestimada foram por água abaixo depois de ler provavelmente quinze linhas. O livro flui e você não precisa se forçar a ler, a história demanda sua atenção.

Eu não saberia dizer se você gostou ou se irá gostar, eu só sei dizer que eu gostei – e eu sei exatamente o porquê:

Desde o começo ficou claro que Jogos Vorazes possui uma combinação de coisas que particularmente me interessam muito. Eu sempre gostei de histórias distópicas (lugares com sistemas opostos ao que deveria ser considerado ideal, a antítese da utopia), sempre gostei de personagens que tentam sobreviver em governos opressivos e totalitários, em tempos de repressão ou pré/pós apocalíptico (Vai entender). 1984 é um dos meus livros preferidos, bem como é o seriado Caprica - o spin off de Battlestar Galactica onde existem as Doze Colônias de Kobol.

Provavelmente seja um gosto que se formou porque eu não acho que o mundo onde a gente viva agora esteja muito longe de uma distopia. Eu a observo em situações que eu considero absurdas sendo vistas como normais pelas pessoas e governos, e não é difícil imaginar de onde Suzanne Collins tirou a ideia de criar os Jogos Vorazes, que é uma hipérbole de uma situação claramente absurda que porém é tratada com normalidade (até mesmo como uma honra) simplesmente porque foi imposta por um governo que a considera razoável visando seus próprios interesses. As pessoas então ficam anestesiadas e se entretêm com uma situação que, essencialmente, deveria deixá-las horrorizadas.

Outra característica do livro é a forma como ele é narrado e a forma como ele descreve. Eu gosto de ler descrições detalhadas de coisas que a maioria das pessoas considera dispensável - como o que os personagens estão comendo, descrição de cheiros, barulhos (e haja barulho de graveto em Jogos Vorazes!) bem como descrição de texturas de tecidos de roupas, cores e barulho de água de riacho e afins. Eu gosto de personagens femininas que se preocupam com coisas como solucionar crimes, resolver puzzles e a auto preservação/sobrevivência.

Acima de tudo, eu gosto de livros que você diz "É isso por hoje", fecha e simplesmente abre de novo porque você realmente quer voltar pra aquele mundo.

Não tinha como eu não gostar desse livro.

Outra coisa que vale mencionar sobre Jogos Vorazes é que ele é narrado pela personagem principal, uma garota que – por falta de uma expressão melhor eu irei usar essa – chuta bundas. O livro transborda de Katniss atirando com o arco e flecha, Katniss subindo em árvores, acampando, se machucando e engolindo choro like a boss, curando ferimentos, caçando, desarmando armadilhas... enquanto isso o Peeta, um dos personagens centrais masculino, é gentil, bom coração, tem o dom da oratória e é realmente bom em decorar bolos. 
Dá pra dizer que o livro foi escrito por alguém cuja mente vive no século 21 e não se prende no mundo limitado dos estereótipos de gênero.

A forma como o livro lida com cliffhangers é particularmente excepcional: No momento que algo grande acontece e você pensa que esse poderia ser o grande acontecimento do livro, algo extremamente maior a inesperado acontece algumas páginas depois. A história se revela de uma forma bem elaborada e bem planejada, e o segundo livro mantém – ou até supera – a ótima história do primeiro. 

Jogos Vorazes pode por vezes parecer um livro para jovens com uma história que provavelmente irá virar um filme blockbuster de gosto talvez (Ou não?) questionável, mas não se engane. Ele é um daqueles livros que possui camadas, e é bem sucedido em todas elas, podendo ser visto apenas como uma boa – e inteligente - história para jovens, mas que também pode ser interpretado de formas mais profundas e certamente há material pra fazer você pensar por muito tempo, sobre muitas coisas.




Facebook. Twitter. Wikipedia. Google+. Tumblr. Blogger. Filmow. Orangotag. Skoob. Resquícios de um Orkut abandonado... Liberdade de Expressão. Estamos em 2012 - o ano amaldiçoado pelos maias como o verdadeiro apocalipse - e se há um ideal que existe dentro da nossa sociedade é o de que aquilo que você fala é o que você é. Se você me perguntar se isso é algo bom ou ruim, minha resposta não poderia ser mais imprecisa; É um, é outro e não é nem um nem outro. O que cria esse paradoxo não é o fato de que estamos dentro de um espaço em que tudo o que você pensa pode ser popularizado dentro de círculos sociais muito maiores do que apenas o dos seus amigos, mas sim pela polêmica do conteúdo daquilo que você pensa. Você tem certeza de que aquilo que você acredita ser verdade é o que deve atingir as grandes massas? Virar um trending topic, um meme ou até mesmo um artigo na Wikipédia? Deus, pense em como a palavra hoje tem o poder incalculável de te deixar influente sem nem sair do seu quarto e até em menos de 140 caracteres! Estamos mais imbatíveis, poderosos, ativos do que nunca. E se há algo que a elite não gosta é da democracia ideológica. Você acha que o governo vai nos deixar soltos assim por tanto tempo? O que impede de que ele não encontre uma nova forma de nos controlar, nos domar, através da manipulação midiática de um show de horror e tortura o qual Suzanne Collins denominou de "Os Jogos Vorazes"?

Opa, desculpa por me perder demais nos meus próprios pensamentos, mas a trilogia Hunger Games trouxe a gasolina necessária para renascer um pouquinho daquilo que muita gente critica na juventude do novo milênio: A vontade de pensar política. Mergulhado dentro de uma narrativa rápida e sem muitos rodeios, Jogos Vorazes mistura o livro 1984, reality shows, ficção científica, crítica social e um toque de romance apropriado para tornar uma temática NADA adolescente em uma obra atraente para todos os públicos. Repito, TODOS. A nova aposta de 2012 tem tudo para se tornar um dos livros mais comentados dos próximos anos e eu me sinto, verdadeiramente honrado, de ter conseguido ler toda a trilogia ainda nos primeiros passos de seu sucesso mundial. Mas bem, chega de tralalá, porque fazer um apanhado sobre esse universo é mais difícil do que você imagina.

Em um futuro próximo, a guerra entre os países do nosso mundo resultou em quase toda a sua destruição, deixando apenas 13 distritos restantes no que anteriormente era o território americano. Renomeado como Panem, o conjunto de metrópoles entrou em uma novo conflito pelo poder, o que resultou na vitória daquele que seria o responsável pelo novo regime totalitário que condenaria todos os outros doze distritos restantes: "A Capital". Dentro desse cenário controverso, Katniss Everdeen vive no Distrito 12, o mais pobre e explorado de todos, sobre a ameaça de um dos maiores "métodos de controle" que a Capital tem sobre seus estados escravizados. Esse artifício se ilustra no show de rede nacional chamado Jogos Vorazes, um reality show brutal no qual, todos os anos, um garoto e uma garota entre 12 e 18 anos são sorteados de cada um de seus doze distritos - aqueles que seriam os 24 Tributos - para serem jogados dentro de uma arena de batalha no qual apenas um vencedor sairá vivo. Sim, eles terão que assassinar uns aos outros numa espécie de Big Brother mortal. Katniss tem 16 anos e, mais uma vez, terá que enfrentar o terrível dia da Colheita, a loteria macabra na qual os tributos são anunciados. Entretanto, para o choque geral, o nome que sai para o tributo feminino do Distrito 12 não é o da protagonista e sim, Prim Everdeen, sua irmãzinha de doze anos. Em um golpe de misericórdia, Katniss se oferece para ir no lugar de sua irmã e todos nós mergulhamos em um dos thrillers de ação mais fascinantes que já coloquei as mãos.

Antes de mais nada, respira. Eu sei, essa foi uma das misturas mais estranhas e apelativas que você provavelmente já colocou os olhos nos últimos tempos, mas acredite se quiser, funciona. Suzanne Collins, uma ex-roteirista de programas infantis do canal de TV paga Nickelodeon, deu uma reviravolta em sua carreira e escreveu um livro young adult inteligente e viciante com a capacidade de tirar o seu sono - E não exatamente pela carnificina de suas páginas, mas sim pelo seu fator CHICLETE. Se há uma tag correta para o que é a experiência de ler todos os três livros de Hunger Games, provavelmente seria"impossível-de-largar-o-livro-independente-de-ser-duas-da-tarde-ou-três-da-manhã". Mas por outro lado, há muita coisa sobre sua natureza que não é fácil de digerir. Ele é muitas vezes frio e cru,  algo que eu posso resumir pelo fato dele ser ENTUPIDO de mortes. Perceba a contradição: Fluido e pesado. Como não achar isso uma verdadeira façanha para o universo dos livros "adolescentes"? 

Apesar desse ser o contexto apenas do primeiro livro, as suas sequências conseguem manter o nível, se aprofundando ainda mais dentro desse universo paralelo capaz de pipocar diversas vertentes de pensamentos. Miséria, fome, banalização da violência, manipulação ideológica, ditadura... O livro consegue esboçar uma verdadeira "aula" inicial sobre questões filosóficas que poderiam se encaixar facilmente em um aula de Ética e Mídia ou Teoria Política. O livro dois, Em Chamas, se responsabiliza por detalhar mais o contexto geral de Panem e a visão da sociedade como um todo e o terceiro, A Esperança, bem, digamos que temos o clímax da resposta do povo. Mas não vamos cair nos spoilers, certo? Acho que já deu pra dar uma bela zapeada por tudo aquilo que tanto me surpreendeu nesse livro mágico que, sim, virou um dos meus preferidos. E se você quer meu conselho, não espera o filme estrear sexta não! Procure o livro e se encante com esse romance às cegas, sem se prender tanto na adaptação cinematográfica ( Não se engane, eu acho que vai ser maravilhosa, já até comprei o ingresso, mas o certo é separar uma coisa da outra.) e tendo sua primeira impressão sobre Jogos Vorazes baseado na mágica que só as páginas de um livro conseguem oferecer. E você nem precisará da sorte para isso.





Tem clichê mais gostoso do que terminar de ler O Morro dos Ventos Uivantes em uma madrugada chuvosa e friorenta?  O engraçado é que a reação que tive com o final do livro não teve NADA haver com a minha primeira impressão açucarada de Wuthering Heights: Medo. Quando você se depara com os fantasmas angustiados presentes durante toda a leitura deste clássico, não tem como você dissociar o amor possessivo entre Heathcliff e Catherine de uma verdadeira história de terror psicológico. O anti-heroísmo presente na vingança de Heathcliff me chocou – Não esperava tanto ódio dentro de um protagonista! – e seus atos são tão compreensíveis que não pude deixar de sentir pena, compaixão e até mesmo amorpor ele. Olho por olho, dente por dente. O que há de tão errado em tirar tudo daqueles que lhe tiraram tudo também? O que é incrível na narrativa de Emily Bron é que você não deixa de odiá-lo, assim como TODAS as outras personagens do livro; ela soube realmente passar a ideia de que o ser humano tem qualidades e defeitos. Para falar a verdade, muito mais erros do que acertos. Todos tem a sua camada de egoísmo, hipocrisia e soberba dentro da Granja dos Tordos e do Morro dos Ventos Uivantes e eu, como simplesmente me apaixonei pelo livro, não podia deixar de apresentar pra vocês uma história tão tocante como essa aqui no Escolhendo Livros.

Através da narrativa da empregada Ellen Dean, conhecemos os Earnshaw, uma família amplamente conhecida na região de Gimmerton, Yorkshire, por ser a residente do famoso Morro dos Ventos Uivantes.  Depois de uma viagem para a cidade, o patriarca dentre eles trás de volta para casa um pequeno órfão, de origem desconhecida a todos, o qual nomeia “Heathcliff”. O garoto acaba se tornando o favorito do Sr.Earnshaw, criando atrito com o seu filho legítimo, Hindley, e a afeição de sua nova irmã, Catherine. Eles crescem juntos sobre uma criação igualitária entre ambos, até o pai/padrasto das crianças falecer e Hindley assumir o posto do Senhor do Morro dos Ventos Uivantes. A infância de Heathcliff muda abruptamente, transformando-o em um empregado da casa e cada vez mais o separando de Catherine. Mas isso apenas aproxima os dois, cultivando um amor que, apesar de forte e intenso, não impede Cathy de agir pela cobiça e se casar com o Edgar Linton, o endinheirado herdeiro da Granja dos Tordos. Heathcliff se vê traído por todos daquela casa, seja por terem o abandonando ou o por impedi-lo de sair da ignorância, e assim, acaba fugindo do Morro dos Ventos Uivantes. Anos depois, Heathcliff volta para Gimmerton rico e forte, o que atrai a atenção de Catherine e o ciúme de Edgar. Qual será sua intenção ao voltar para a cidade? A partir daí, Bronconstrói os contornos de uma das maiores personalidades da literatura, colocando Heathcliff como um bruto e voraz demônio com apenas um ponto fraco: Os olhos castanhos de Catherine Earnshaw

Como já foi dito aqui, não espere um romance bonitinho e cheio de frufru (como a MALDITA tag da capa - “o livro favorito de Bella e Edward” - tenta vender ao público) e muito menos um príncipe encantado na pessoa de Heathcliff. Ele é um bruto, ignorante, sem discernimento de conceitos como perdão e bondade, alimentado unicamente pela raiva de ter perdido a única coisa que lhe valia a vida. Catherine então, me desculpem o termo, é uma verdadeira VACA. Mesquinha e superficial, às vezes me perguntava por que diabos ele se apaixonou por ela. Mas aí o estalo vinha logo a minha cabeça e me lembrava do quão defeituoso ele também era. A sacada genial de Emily ronda justamente na crítica ferrenha a uma geração repleta de preconceitos quanto à raça e a falta/presença de inteligência, sociedade pela qual a única regra que funcionava era a da hipocrisia sobre os seus “inferiores”. Você, como leitor, não pode criticar um personagem... Simplesmente porque o outro não é nem um pouco melhor! E era exatamente isso que Catherine, Edgar, Hindley, Isabella, Joseph e a PRÓPRIA Ellen Dean ( a narradora) faziam. Julgavam. Eles mereciam a vingança de Heathcliff? Mereciam. Mas todos nós merecemos as penalidades da vida e nem é por isso que devemos ganhá-las. O amor tornou cego a visão do “mocinho” de Wuthering Heights, e a forma como ele tenta aplicar uma lição naqueles que corromperam sua alma apenas evidencia o quão ele mesmo está fadado ao inferno. E não, não falo do inferno religioso, aquele demoníaco que tantas vezes é citado no livro... Mas o inferno de sua própria infelicidade.

Eu consegui sentir os ventos roçando minha nuca. As pontadas de dor sempre que Edgar e Catherine humilhavam Heathcliff. A frieza do quarto de Hareton. A voz delicada de Isabella. Os cachos encaracolados de Catherine batendo contra seus ombros. Os encontros contra a árvore de quando Heathcliff expurgou seus demônios. A textura árida do galpão do Morro dos Ventos Uivantes. Eu consegui sentir tudo que a autora queria que eu sentisse. Não é isso que deveria ser o conceito de escrever? Sentir. E mesmo sendo um livro obscuro e trágico, Wuthering Heightspassa calor. Um calor frio como o amor de Heathcliff por sua amada... E quente como a ira dos que nunca serão perdoados.

"Não é fácil perdoar, olhar para esses olhos e agarrar essas mão mirradas. (...) Beija-me e não me deixes ver os teus olhos! Perdoo-te o mal que me fizeste. Eu amo quem me mata. Mas... Como poderei perdoar quem te mata?"
                                                                                        Heathcliff - O Morro dos Ventos Uivantes.


Eu já escutei muitas críticas à Jodi Picoult por seu estilo - vamos colocar assim - depressivo de escrever. Casamentos despedaçados, mortes prematuras, amizades fadadas ao fim... Dentro do nicho de autores conhecidos pelas reviravoltas dramáticas dentro de suas tramas, um grupo constantemente encabeçado por nomes como Nora Roberts e Nicholas Sparks, Picoult foi aquela que a fama mais se destacou aos meus olhos, principalmente após a adaptação pros cinemas de A Guardiã de Minha Irmã (No Brasil foi traduzido para Prova de Amor) ter sido um dos últimos filmes que conseguiu me fazer sair da sala com a cara vermelha-pimentão de tanto chorar. E olha que eu fui ver o filme sozinho. (Sabe o quão constrangedor é sair do cinema chorando sozinho?) É, primeiras impressões sempre deixam uma marca na nossa pele... Então quando fui com uma amiga, no mesmo ano, escolher um presente de aniversário para mim, um exemplar de O Pacto logo chamou minha atenção. Um Romeu e Julieta às avessas... Como não dar ao menos uma chance? Deixo aqui um agradecimento à Ludmila, por provavelmente o melhor presente que ganhei no meu terceiro ano. 

Chris e Emily nasceram para ser um do outro. Na verdade, eles, literalmente, já nasceram juntos. Suas famílias se entrelaçaram antes mesmo de virem ao mundo, e uma vez que suas mães Gus e Melanie frequentavam as mesmas aulas de parto e seus pais James e Michael saiam em noitadas juntos, era evidente que as duas crianças seriam criadas como irmão e irmã. A mudança dos Golde para a casa vizinha a dos Hart apenas confirmou o destino: Eles estavam conectados por algo que nenhuma pessoa poderia explicar.  A infância e o começo da adolescência dos dois foram praticamente uma só de tão grudados que eram, e quando começaram a namorar, nenhum dos pais ficou surpreso com o desenrolar dos fatos. “Era para ser assim”, provavelmente comentavam um para o outro. Mas assim que aquelaligação no meio da noite levou as duas famílias para o mesmo hospital... Algo havia dado errado. Emily está morta e Chris é um dos principais suspeitos. Até que ponto nós realmente sabemos o que está acontecendo debaixo de nossos narizes?


O Pacto mistura um intenso drama familiar com o thriller policial na medida certa, uma ousadia que possibilitou  uma gama de personagens complexos e inteligentes. Picoult vai e volta no tempo para mostrar todos as facetas de Chris, Emily e seus pais inconformados, buscando a melhor forma de explicar qual poderia ter sido a causa para esse possível asssassinato. Mas, se vocês me permitem, devo colocar aqui uma ênfase a mais na relação Chris e Emily. É surpreendente a forma como a autora criou uma aura ao redor do amor dos dois, explicando por meio de flashbacks o desenvolvimento de um casal que tinha tudo para ser realista, se não fosse único o suficiente para ser incomparável com qualquer coisa que vemos por aí. Por mais que a frase de efeito da capa do livro seja "Uma história de amor" e isso seja muito brega por si só... Devo admitir, é compreensível sua utilização. É uma história de amor e ponto. Vejo até um pouco de Heathcliff e Catherine neles (o engraçado é que estou lendo O Morro dos Ventos Uivantes agora), com a diferença de que Picoult desconstrói a sua paixão, provavelmente, em mais pontos negativos do que positivos. Eles foram feitos um para outro... Mas foram feitos para todo o sempre?


"I, um, I have this problem. I broke up with my boyfriend, you see. And I'm pretty upset about it, so I wanted to talk to my best friend. [...] The thing is, they're both you.” 
                                                                                                                                                                  ―Jodi Picoult, The Pact.



Eu dividiria o livro em dois atos que ocorrem ao mesmo tempo: O passado e o presente. No primeiro, temos uma narrativa bem gostosa sobre toda a relação entre os primogênitos dos Golde e Hart, uma amizade singela com um ar fraternal um tanto curioso. Jodi Picoult explora tantos temas aqui dentro que eu não duvido nada que ela recorreu a uma bela pesquisa de campo sobre crianças e adolescentes: Possessão, ciúmes, irmãos, puberdade, namoro, suicídio, sexo, drogas, limites etc. Já no segundo momento, o clima é bem mais pesado, e entramos dentro de um contexto de pura investigação e agressividade psicológica.  Esses são os capítulos que você vai ficar preso dentro de um mistério que o fará virar as páginas numa velocidade contagiante.   


Ah, mas o final. Ou melhor... O clímax. Acho que não há nada mais mágico no romance do que a o fulgor que as últimas revelações segredam ao leitor, as quais, admito, me fizeram revirar na cama pelo menos umas mil vezes - como sempre, estava lendo de madrugada - com todo aquele suspense do grande veredicto. E apesar de não gostar de falar em "moral da história", deixo o meu orgulho de lado e admito que há sim, um belo ensinamento, o qual ficou bem claro nas últimas páginas. Uma vez que tudo já aconteceu, porque se penalizar jogando culpas de um lado para o outro como se algo ainda pudesse ser salvo? Motivos, por quês e ressalvas não adiantam nada quando o fim chegou.  E nem mesmo uma última mensagem perdida no presente pode transformar as infelicidades do passado. Ler o Pacto me fez desejar um amor impossível, desses que nunca deveriam existir, por mais hipócrita que isso possa soar. Por que quando eu penso que eu até poderia ter algo do tipo... Será que iria mesmo querer me sentir assim... Tão perto de alguém?


“Do you know what it's like to love someone so much, that you can't see yourself without picturing her? Or what it's like to touch someone, and feel like you've come home? What we had wasn't about sex, or about being with someone just to show off what you've got, the way it was for other kids our age. We were, well, meant to be together. Some people spend their whole lives looking for that one person. I was lucky enough to have her all along.” 
                                                                                                                                                                    ― Jodi Picoult, The Pact.
   





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Outono de 1996, Inglaterra. Uma solteirona de meia idade ganha espaço nas prateleiras de várias livrarias britânicas no que seria a proposta de “uma Elizabeth Bennet dos anos 90” em formato de diário. Pretensioso demais? É, talvez a capa não grite “revolucionário”. Porém, as confissões constrangedoras de Bridget Jones sobre sua luta contra a balança, a vida amorosa inexistente e as relações ariscas com os familiares atingiram a autoestima de inúmeras mulheres inglesas (e logo depois, do mundo inteiro) em um processo de identificação com o personagem tão espetacular que lhe concedeu o prêmio de British Book of the Year (“O livro do ano da Inglaterra”) dois anos depois de ser lançado. Helen Fielding, em uma conferência na Oxford Union em 2009, afirmou que a sua ideia principal era ridicularizar as mulheres obcecadas por um padrão de beleza utópico e muitas vezes inalcançáveis, causa pela qual costumam, muitas vezes, correr atrás de livros de autoajuda e dietas milagrosas.



“É uma doença moderna. Percebi isso me atingir quando ia para sessões de fotos e depois olhava as capas de revistas comigo completamente modificada e pensava: Quem dera que eu fosse assim. (...) Mesmo que eu tenha negado tantas vezes que eu era a Bridget... Eu realmente era.”
                                                                                                                             
                                                                        Helen Fielding





O retrato de uma geração crescente de mulheres inseguras e solitárias instigou um novo mercado de consumidoras nada convencionais: As encalhadas. Por mais frio que isso possa soar, o grupo de cat ladies (termo americano para as solteironas de meia idade) popularizado em uma época pós-feminismo dos anos 60 se tornou, praticamente, uma casta social da atualidade. E a literatura, como qualquer outro tipo de produto nos dias de hoje, acompanhou – e influenciou – a formação desse cenário com o fenômeno do Chicklit.

Desconhece o termo? Vamos logo direto ao ponto: Chicklit, do inglês “literatura para garotas”, abrange uma série de livros nos quais uma protagonista do sexo feminino vivencia inúmeras situações típicas do complexo universo da mulher moderna. Muitas pessoas acreditam que o romanceé a principal característica do gênero, mas não – Família, amizade, dinheiro, trabalho, sexo e drogas estão constantemente presentes dentro da lista de temáticas possíveis de se encontrar em seu conteúdo. Depois do sucesso do livro Bridget Jones, a década de 90 presenciou uma verdadeira enxurrada de títulos parecidos com a obra de Fielding, como o posterior sucesso de Melancia de Marian Keyes (1995), a boca suja de Sex and the city de Carrie Bradshaw (1997) e os cartões de créditos estourados de Os Delírios de Consumo de Becky Bloom da Sophie Kinsella (2000), autoras que até hoje fazem sucesso no grupo da velha guarda chickliteira.

Foi nas mãos da dona do gato de um olho só mais famoso do mundo que a transição do chicklit para o território adolescente foi feita, e não demorou muito até o nome de Meg Cabot ficar conhecido por trazer Mia Thermópolis ao mundo dos livros. O Diário da Princesa (2000) apresentou aquela garota insegura que já conhecemos, porém, inserida em um contexto teen repleto de mean girls (as “líderes de torcida antipáticas”) do ensino médio, puberdade e aquele amor platônico comum da adolescência. O livro entretanto, insere um elemento interessante a trama – A quebra do enredo rotineiro. Em The Princess Diaries,Mia descobre que é a herdeira do trono de Genovia, e  através dos ensinamentos de sua avó, ela deve se desligar da vida de uma adolescente comum para se transformar em uma verdadeira princesa.

“Eu fui inspirada a escrever O Diário da Princesa quando minha mãe, depois da morte do meu pai, começou a namorar um dos meus professores, assim como a mãe de Mia fez no livro! Eu sempre tive uma “coisa” por princesas (meus pais costumavam brincar que, quando eu era pequena, eu dizia que meus “verdadeiros” pais eram um rei e uma rainha, e que era melhor eles me tratarem MUITO bem!), então eu coloquei uma princesa no livro só para testar... E VOILÀ! O Diário da Princesa nasceu.”
                                                                                                                                                                     
                                                                                        Meg Cabot




A história de Mia deu para as garotas adolescentes do começo dos anos 2000 uma “melhor amiga” destrambelhada e cheia de problemas tão parecidos quanto os dela, com a adição do velho sonho americano: “Coisas incríveis podem acontecer com qualquer um”. Garotas podem sonhar? Meg Cabot presenteou cada menina com a capacidade de ver sua própria vida através de um diálogo interno cheio de humor, transformando o desespero de garotas nerds e tímidas em características de uma possível heróina, algo que até o momento, não se via representado nem em filmes da Disney. A partir daí, vários títulos seguiram a linha no mercado teen, em títulos como A Irmandade das Calças Viajantes de Ann Brashares (2001) e Gossip Girl (2002) de Cecily Von Ziegesar


Os anos passaram, autores se consagraram e o universo feminino entrou em um processo de estagnação. Tudo parecia normal até uma das maiores reviravoltas na ideologia chicklit mudar completamente a literatura adolescente: Chegamos na época Crepúsculo, a galinha dos ovos de ouro de Stephenie Meyer. 



Em 2005, Stephenie Meyer publicou pela primeira vez o primeiro livro da saga Twilight, um romance sobrenatural sobre o amor de uma garota humana e um vampiro de quase  104 anos de idade. O livro, descrito pelos críticos como “um romance obscuro que contamina até a alma” é aclamado pela “forma como captura perfeitamente a tensão sexual e a alienação dos adolescentes”. Mas a sua fama alcançou as grandes massas quando em 2008 a adaptação cinematográfica do livro veio à tona pelas mãos de Catharine Hardwicke, o que foi responsável por arrecadar mais de 392 milhões de dólares ao redor do mundo. O sucesso garantiu uma nova vertente dentro dos patamares chickliteiros – O desejo pelo diferente, sombrio, novo e surreal.


"Eu não escrevi esses livros especificamente para o público jovem. Eu os escrevi para mim. Eu não sei por que eles os separam tanto por idades, mas eu acho confortante que várias mulheres de trinta e tantos anos com filhos, como eu, respondam tão bem por essa série – Então não é só por eu ter uma garota de quinze anos dentro de mim!"
                                                                                                                                        
                                                                          Stephenie Meyer






Sucesso é algo que não pode ser contestado. Entretanto, o que dizer sobre a experiência de conhecer Bella Swan? Lembro-me bem de ter comprado o primeiro livro perto do filme ser lançado, quando o modismo dava seus primeiros passos. O que constatei no estilo de Meyer escapou completamente do que eu esperava. Em uma mistura de literatura de banca com resquícios de tudo que Anne Rice não usaria,  Meyer proclamou uma história de amor fadada ao melosismo - Fato que pelo qual um amplo grupo de feministas odeiam a autora, principalmente pela insustentável dependência de Bella por um vampiro, no retrato de uma "relação abusiva". Meyer jogou a posição da garota anos luz para trás, tirando os seus trejeitos de uma mulher racional e a transformando quase em um objeto sub humano. Críticas as quais eu não posso fazer nada a não ser balançar a cabeça em concordância. 

A ideologia de Meyer espalhou uma onda de livros sobre vampiros, lobisomens, anjos, imortais, zumbis e curupiras (?). O mercado de chicklits saturou as estantes com obras como Sussurro (2009)de Becca Fitzpatrick, Para Sempre (2009) de Alyson Noël, House of Night (2007) de P.C Cast e Kristin Cast entre tantos outros trabalhos que seguiram essa nova tendência. As livrarias nunca estiveram tão recheadas de histórias sobre girl meets vampire, anjos que reencarnam até reencontrar o amor da sua vida, lobisomens selvagens lutando por meninas indefesas etc.

A garota moderna não deve mais ser a menina dos holofotes, uma Miss Simpatia de cabelos loiros e com o título de representante de classe. Não há mais tanto bláblábláde popularidade, principalmente porque ninguém mais quer ser aquela que é padrão para todo mundo e com uma coleção completa de roupas de marca da estação. Estamos nos tempos da menina indieenvolvida com política, com um guarda-roupa de camisa flanelada, fã de rock alternativo e dona de um tumblr sofisticado. Estamos vivendo o momento de se expressar.Ser diferente é ser normal em 2012. O círculo vicioso continua e tudo que vemos é o quanto, no final das contas, fugir do padrão virou um padrão e mesmo que as maquiagens básicas tenham atacado o lápis gótico, a verdade é que isso não tornou nada mais inovador... Apenas trocou de naipe. O chicklit conta a história da garota de hoje, tanto quanto contou a de ontem e irá, um dia, se transformar na do futuro. Independente do orgulho dos conservadores, do preconceito pelo modismo, da razão de Sookie Stackhouse ou a sensibilidade de Becky Bloom... Um livro começa pela persuasão de suas palavras.

Esse post é uma homenagem as alfinetadas de uma mulher que tornou tudo isso possível.
Jane Austen 
1775 - 1817