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Bom dia, ou boa tarde/noite, pessoal!

Como vão? Tudo bem, né? Assim espero. Desta vez acho que posso dizer que demorei muito a voltar, porque é verdade. Mas vocês sabem: vida acadêmica, vida profissional, vida de escritorzão, vida de final de período... Tudo uma complicação só! Ainda assim, mais hora, menos hora, acabo voltando, e desta vez não foi diferente.

Hoje, acho que vim dar encerramento a uma trilogia involuntária de posts que criei neste site de família, porque, adivinhem: eu encontrei a solução para um dos maiores mistérios da história da literatura contemporânea!


Antes de dar início à nossa maravilhosa postagem, acho que preciso fazer alguns esclarecimentos. Mas, ainda antes disso, gostaria de dedicar este post a todos os meus amigos do curso de Letras, aos professores que talvez estejam me lendo, e a todos os amantes da literatura e da Literatura, porque, acreditem, hoje vocês vão rir ou chorar junto comigo. Em seguida, quero deixar linkados estes dois posts (este e este), nos quais eu exploro o mesmo tema que abordarei aqui hoje, embora, hoje, parece, eu tenha encontrado a solução, hehe. É recomendável a leitura dos artigos citados para melhor compreensão do que eu vou falar aqui, tudo bem? Mas, se estiver com preguiça de ler, não precisa; dá pra entender do mesmo jeito. Ou então leia depois de ler este, acho que surte o mesmo efeito. Enfim.

No primeiro artigo citado, eu discuto a valoração das obras literárias hoje em dia: o que é considerado boa literatura e o que é considerado má literatura. Continuo sustentando os mesmos pontos de vista. No segundo artigo, falo sobre a irresistibilidade dos Big Mac literários, aqueles livros ruins que a gente lê porque, por mais que a história seja ruim, a curiosidade grita mais alto. Mantenho, também, os mesmos pontos de vista tidos lá. O que eu quero compartilhar com vocês agora é fruto de uma discussão bastante... hm... como eu diria? “Inusitada”, pra mantermos a polidez, que aconteceu anteontem em um grupo do Facebook do qual eu participo.

Resumidamente, esse grupo é um espaço pequeno reservado a escritores de histórias com temática LGBT que publicam na plataforma Wattpad, site do qual eu também já falei aqui e pelo qual eu também publiquei meu mais recente romance (ah, sim! Acabei de escrever!), que você pode ler clicando aqui. Graças a esse site e a esse grupo, acabo tomando conhecimento de muitos romances homoafetivos, que é o que eu escrevo, também, majoritariamente. Assim sendo, é comum encontrar histórias de todos os tipos: histórias boas, histórias ruins, histórias medíocres, histórias mirabolantes... É o mesmo que acontece com qualquer outro tipo de romance: tem pra todos os gostos, e nesse grupo a gente tem contato com vários tipos de narrativa. Um fato curioso, porém, que me chamou atenção foi: na maioria esmagadora desses romances, o personagem ativo da relação (aquele que penetra) sempre tem um pênis “enorme” — e a palavra usada para se referir ao membro é sempre essa: enorme. Por motivos de preferência pessoal e de verossimilhança com a nossa realidade (onde, convenhamos, não é muito comum encontrar órgãos sexuais com mais de 19cm, que é o que, pra mim, configura um “pênis enorme”, a menos que você esteja em certas regiões da África), fui até o grupo em questão e levantei esse debate. Por que isso é assim? Por que os autores/leitores parecem ter essa preferência por órgãos de tamanho extra-largo haja vista que, na vida real, as estruturas do corpo humano não se adaptam a um corpo estranho dessa magnitude com a mesma facilidade com que os personagens das narrativas o fazem ao serem penetrados.

As respostas variaram em diversas direções, mas poucas acertaram o alvo da pergunta e quase nenhuma suscitou o debate que eu queria atingir. Cerca de sete ou oito pessoas, no total, responderam à minha indagação, sendo que, dessas, apenas uma ou duas também se mostravam ligeiramente incomodadas com esse exagero ou com a noção de que, na vida real, as coisas não são tão fáceis quanto na literatura. Porém, em virtude da mais aguda incapacidade de interpretação de texto, um ou outro cidadão que participava da discussão começou a distorcer o que eu ia dizendo, de forma a fazer parecer que eu sou contra cenas de sexo em romances (isso porque eu disse que não gosto de cenas de sexo “gratuito”, entendendo-se por “gratuito”: “não tinha nada mais interessante para escrever, coloquei uma cena de sexo porque o público gosta”; e acrescentei a esse detalhe a minha opinião de que usar esse recurso para prender o leitor é falta de competência).  

Essa foi a primeira parte da complicação. Como fruto dessa conversa infrutífera, em que eu tentava por B + C explicar que o que eu havia dito era A e não D, ficou parcialmente claro pra mim que esses autores usam cenas de sexo porque isso agrada o leitor. Guardem essa informação.

Passadas algumas horas, quando eu já havia até suposto que o assunto estava encerrado, chegaram outras pessoas à discussão. Uma delas, um rapaz escritor (ou “escritor”; não li o que ele escreve ainda), se posicionou contra o que eu disse e afirmou que, por experiência própria, ele gosta sim das cenas de sexo e que, quando quer ler, não quer ler nada literário, quer ler algo que o distraia e que seja de leitura fácil. Quem nunca, não é mesmo? Até aí, nenhum problema. Depois, foram chegando mais pessoas; três ou quatro, se não me engano (apaguei o post por motivos que explicarei adiante), começaram a defender a ideia levantada pelo rapaz que apoia as cenas de coito e todos passaram a gritar em coro: “Não gosta [das cenas de sexo ou dos membros avantajados], não lê!”. Bem prático, não?, como se eu tivesse deixado bem claro o tempo todo que sexo em romance é proibido!

A cereja do bolo, porém, veio mais tarde, e daí a canoa virou de vez. Um outro cara (esse eu já li e o livro—“livro” não: “folhetim”, vai, porque não tem história nenhuma: só uma sequência de cliffhangers que são postos no texto como ligação entre uma cena de sexo e outra) apareceu e apenas concordou; depois ficou quieto. Daí veio outro. Ninguém parecia concordar comigo, e logo o assunto mudou de “proporções do falo em histórias homoeróticas” para “qualidade estética dos textos homoeróticos”, sendo que não fui eu o precursor desta ideia. O ato final da ópera se deu quando um autor (esse eu também já li e ele é famosinho; as histórias que ele publica têm um número razoável de leituras, levando-se em conta a temática) apareceu e logo seus adoradores começaram a louvá-lo e fazer coro a tudo que ele dizia no tom de uma ironia bem pobre. Nesse momento, o manifesto literário que pautava a discussão era este:

Nós não queremos escrever nada literário; nós queremos escrever o que agrada o público; se agrada o público, continue: você está seguindo pelo caminho certo! Não queremos escrever o que uma ‘elite’ julga ser bom; não quero que ninguém leia meus livros na escola por obrigação! Queremos nos realizar como escritores!

(imagem: here&Now)

e assim por diante. Eu, é claro, minoria esmagada na discussão, fiquei parecendo o pseudo-cult transtornado, mas eu vou dar uns segundinhos pra vocês relerem os gritos de guerra do parágrafo anterior e chegarem à mesma conclusão que eu: 

A culpa é dos autores!

É claro! Como não pensei nisso antes?! A culpa não é de quem lê porcaria, é de quem produz porcaria! — e não estou falando que todos os que escrevem nesse grupo são porcaria, não! pelo contrário: tem uns três que salvam — inclusive, o mais popularzinho deles (que, aliás, por ironia do destino, procurou, dias antes, um grupo de crítica literária que eu administro e pediu uma review do texto dele e parece não ter gostado muito do que eu tinha a dizer (será que guardou rancor por causa disso?)) e o “namorado” dele (namorado entre aspas porque os dois têm perfis falsos e eu tenho a séria suspeita de que ambos são a mesma pessoa na verdade, mas isso não vem ao caso) escreve(m) até direitinho. — E, conforme a conversa progredia e as heresias eram despejadas uma após a outra, foi ficando cada vez mais claro pra mim que o emburrecimento literário das pessoas não é só culpa delas: é também de quem as alimenta!

Faça as contas. Quem escreve, quer ser lido. Hoje em dia, quem quer ser lido rapidamente e sem muito critério escreve o quê? Sexo! É óbvio! É lógico que agrada! Está na moda! Quem não gosta de sexo?! É tão fácil quanto somar dois mais dois: pegue dois personagens lindos, coloque todas as possíveis características perfeitas neles e recheie as páginas do livro com cenas e mais cenas de sexo! É claro que vai vender! É claro que vai dar ibope! É claro que vai ter leituras! E sabe o que é incrível acima de tudo isso? que é claro, pra essas pessoas, que a quantidade de leituras que elas recebem é reflexo simétrico da qualidade da escrita delas! GENTE!? Não é pra se jogar da ponte de tanto desespero?!


Em dado momento da conversa, já estava tão difícil levar essas pessoas que ousam se chamar de escritores a sério que eu, debochadamente, falei que era pra eles continuarem fazendo esse sucesso todo no Wattpad, que logo logo Dostoievski estaria os chamando de “mestres” de dentro da tumba. Eles riram! “Nós não queremos ser nenhum Dostoievski, nós queremos escrever o que agrada o público”...

Eu poderia partir daqui e começar toda uma discussão sobre literatura comercial, mas não vai ser possível. Sabe por quê? Porque essa categoria emergente de sub-escritores publica de graça no Wattpad. Um ou outro até tira o livro da plataforma e coloca na Amazon, mas, geralmente, os que conseguem ter suas histórias publicadas fisicamente são os que têm dinheiro pra pagar uma editora pra fazer isso (pagando bem, que mal tem?). Claro: já li coisas do Wattpad que saíram até da Amazon pra ir pras livrarias porque a editora bancou a publicação, mas aí tínhamos outra diferença: quem conseguiu esse feito sabe escrever, o que parece não ser moda entre parte significativa dos que publicam no site. Sim, porque, veja bem, já que os próprios autores reconhecem que não escrevem nada literário e reforçam a ideia de que seu objetivo é agradar o público, preceitos básicos da literatura, como a noção artística ou de trabalho com as palavras, são abandonados sumariamente. E, quando digo isso, não me refiro à utilização de figuras de linguagem, a descrições bem feitas, a cenários detalhados, não: me refiro a autores que sequer sabem pontuar o texto ou concordar sujeito com verbo — e isso me parece ser algo grave, porque é bastante recorrente. Em virtude das vantagens da autopublicação e do desespero existencial de ser lido custe o que custar, esses autores escrevem como se suas vidas dependessem disso, porque os leitores ávidos estão esperando pelo próximo capítulo! Resultado? Lixo. Lixo irreciclável. 

Mas, tudo bem, ainda que estivéssemos falando de literatura comercial e fôssemos entrar naquela velha discussão de que “tudo que vende não é bom”. Vamos fazer um paralelo com o mundo da música, que funciona mais ou menos do mesmo jeito que o mundo editorial? Vamos! Peguem aí qualquer farofa que toque nas rádios só pra vender e entreter e tocar nas baladinhas. Pegou? Agora pegue Adele. Sia. Lorde. Florence and the Machine. Ou, ainda, os que já não tocam nas rádios atualmente, como Pink Floyd, Radiohead, ou, um exemplo ainda mais magnífico: Michael Jackson. Todos esses artistas venderam pra caralho. Deixaram de ser bons? Deixaram de ser cult ou de ter valor artístico simplesmente porque foram sucesso de vendas? Na minha humilde opinião, não. A diferença: eles são/eram populares, mas também são/eram bons no que fazem/faziam, ao contrário de bastante coisa que tenho visto por aí ultimamente.

Olha, sei que aquela conversa me esgotou intelectualmente. Me senti entristecer profundamente ao ver gente exercendo o ofício da escrita visando apenas agradar o público com cenas medíocres de pornografia-barata-escrita e enredos rasos só pra entreter e ser lido. Disseram, aliás, que quem escreve pelo ato de escrever, sem visar lucros ou um futuro financeiro a partir da escrita, é hipócrita. Querido leitor que lê isto neste momento: prazer, apresento-lhes um hipócrita: eu.

Por fim, o post no grupo virou um espetáculo de dissimulação, senso comum, mediocridade, puxa-saquismo, deboche e sarcasmo tão insuportável que eu decidi apagar e poupar meus nervos, que já estavam bem gastos tentando mostrar um pouco de profundidade a essas mentes rasteiras — aquela história de que o pior cego é o que não quer ver, sabe? O problema é que eu insisto em tentar mostrar... Ai ai. Das várias tristes conclusões que se tiram desse retrato da realidade, ficam, para mim, duas: 1) precisamos dar um nome a essa nova classe de sub-escritores. Pensei em “Escritobos da Corte”, mistura de escritor com bobo da corte, mas não achei muito eufônico. E 2) Lu Schievano, eu te entendo, amiga; eu te entendo.


Lu me representando em poucas sentenças.

Beijo, gente! Até a próxima! Para me despedir, fiquem com o som de Adele, com Rolando no Profundo! — e parem de botar a culpa na E. L. James: ela só queria agradar. Fui!







Half Bad é um livro que simplesmente ESTOUROU lá fora. Na feira de Frankfurt de 2013 foi um dos destaques, e a Fox 2000 comprou os direitos para a adaptação cinematográfica do mesmo. O livro foi comparado com sucessos tipo Jogos Vorazes(!). 

Half Bad é o primeiro livro da autora britânica Sally Green. Ele conta a história de Nathan, um bruxo que vive em um mundo dividido entre os Bruxos da Luz e os Bruxos das Sombras. O problema reside no fato que o jovem é filho de uma Bruxa da Luz com o maior Bruxo das Sombras que existiu. Sendo um bruxo meio-sangue, Nathan passa a sua infância em meio a testes e restrições impostas pelo Conselho, um órgão que comanda a vida dos bruxos.

O livro começa interessante, com uma narrativa surpreendente na segunda pessoa, fazendo com que o leitor adentre na história de forma profunda. Os primeiros momentos do personagem são realmente bem escritos, e mesmo com o ritmo rápido, iniciam com maestria a jornada do protagonista para o leitor. A forma como o leitor é apresentado ao mundo é abrupta, como se já soubéssemos de tudo o que acontece ao redor; mas a autora soube lidar com a situação de forma delicada, introduzindo aos poucos informações simples e sem muitos rodeios. Além disso: história desperta interesse. Existe uma boa camada de aspectos sociais e humanos escondidos sob esse manto fantástico.

À medida que as páginas passam, porém, a autora muda para a narrativa em primeira pessoa, o que não é ruim, mas causa um estranhamento - quase como se dividisse a experiência ("você passou por aquilo" vs. "eu passei por isso"), deixando a leitura rasa em alguns momentos. É como se, no princípio, o protagonista lhe lembrasse uma história que aconteceu com você, mas então, do nada, interrompesse a começasse a falar de si mesmo.

Nathan possui uma personalidade plural e complexa, sendo o melhor personagem do livro. Porém essa personalidade às vezes parece mal trabalhada, ou mesmo esquecida. Existem cenas contraditórias: em certas partes do livro (quase todo ele, na verdade), Nathan repete que não quer matar ninguém, não quer ser mau, mas logo após aparece cometendo atos de crueldade, ele demonstra um prazer imenso que no mínimo me fez pensar que ele era bipolar. A escrita rápida aí pode se tornar um problema, pois faz as cenas que poderiam ser usadas para um aprofundamento do mesmo se tornarem simples pontes para a próxima cena, quase que imemoráveis.

Tal pressa da autora se mostra em momentos que deixam a leitura a desejar, criando falhas e buracos na história - coisas como personagens que não tiram o ar de "figurantes", palavras repetidas na escrita e, em casos particulares, palavras estrangeiras que surgem sem nenhuma explicação de seu significado para o leitor. Sem contar que existe muito o uso de repetições ao longo da história, coisas que o personagem diz sobre si mesmo, sentimentos iguais, o que soa forçado - a autora não soube mostrar ao leitor essas características de forma sutil; ela simplesmente jogou tudo na minha cara, esfregou mesmo.

O que mais estranhei, porém, foi o fato de que o livro começa com o protagonista sendo uma criança de nove anos de idade e progride até ele completar dezessete. A narrativa rápida (e alternada) faz com que ele praticamente não mostre nenhuma evolução. Nathan cresce fisicamente, e mostra isso (várias vezes, por sinal) para o leitor, mas sua mentalidade praticamente não muda. Além disso, existem cenas que surgem no livro sem razão nenhuma, ou então, de forma tão abrupta que deixa um buraco enorme na história - algo que poderia ser melhorado significamente.

A história segue sem rumo, e aí está o maior erro da autora: o livro não possui um arco fechado. Tive a sensação de que lemos Half Bad pela metade, ou então que perdemos o objetivo do personagem em meio ao ritmo exageradamente apressado. Quando achei que Nathan estava seguindo um rumo, o roteiro simplesmente deu uma virada ABSURDA sem razão nenhuma e tirou totalmente a trilha do livro.

O clímax do livro ficou muito água-com-açúcar, ao meu ver. Repetitivo e sem objetivo, simplesmente um amontoado de cenas sem sentido e que me fizeram pensar "wtf" várias vezes. O final não me deixou com muitas expectativas a respeito do segundo livro, que está sendo escrito.

Como diz o título, achei o livro "meio ruim". Confesso que o trailerbook me animou mais:


Lendas antigas, romances eternos e personagens que transpassam o seu próprio tempo. Tivemos a oportunidade de conhecer Patrícia de Luna, autora do romance histórico "Saga de Bravos", e não foi preciso muito para percebermos que esses três elementos são apenas alguns relances da viagem mágica presente no novo livro da escritora. Hoje, no Escolhendo Livros, trazemos uma entrevista exclusiva e bem gostosa com Patrícia de Luna!

Nós enviamos dez perguntas para a autora, que teve o prazer de nos responder em um vídeo feito em duas partes.

Na primeira parte, as seguintes perguntas foram respondidas:

1. “Montou sua primeira companhia de teatro aos doze anos, estudou escrita criativa na universidade de West Dean na Inglaterra e estagiou na BBC de Londres em programas voltados a arqueologia bíblica.” Só em uma rápida passada de olho na orelha de seu livro, já ficamos surpresos com a grande variedade de projetos e trabalhos que você já se dedicou. Como cada uma dessas áreas te ajudou no processo de escrita de “A Saga de Bravos”?

2. Como foi a experiência de escrever um romance histórico? Há alguma obra desse gênero que te inspirou especialmente?

3. Você possui um grande vínculo com o público infantil, sendo autora de um musical e um livro para crianças. Como a Saga de Bravos é o seu primeiro romance adulto, qual foi a principal diferença na hora de escrever essa obra?

4. A Saga dos Bravos é recheada de lendas e mistérios da história mundial. Dentre elas, conhecemos a profecia do T e das cidades sagradas, as quais sempre são aquelas que nascem em rios em que a primeira letra de seu nome é o “T”. São Paulo, por ter o Rio Tietê, também seria uma cidade sagrada. Como você entrou em contato com essa lenda?




Na segunda parte, essas foram as perguntas:

5. Dentre os personagens principais de A Saga de Bravos, conhecemos Ariadne, uma cantora de ´Trance Opera assombrada por estranhas visões desde sua infância. Como você desenvolveu essa personagem e quais as características que você mais aprecia em Ariadne? 


6. Além da forte carga histórica, A Saga de Bravos também possui um triângulo amoroso. Nos fale um pouquinho sobre essa história de amor.

7. Quais as principais épocas e cidades históricas utilizadas em Saga de Bravos e como foi feita a mistura entre ficção e realidade?

8. Você escreveu a biografia da esposa de Paulo Coelho e, por isso, teve a oportunidade de conhecer esse famoso autor brasileiro. O que você aprendeu com ele?

9. Um livro de cabeceira, uma música que não sai da sua cabeça e um filme que já viu incontáveis vezes.

10. Por último, dê uma dica para os nossos leitores que também desejam escrever um romance histórico.



Agradecemos ao carinho da autora e não deixem de comentar o vídeo!


Saga de Bravos é um lançamento da Idea Editora. A obra apresenta uma saga épica, com passagens históricas (crucificação de Jesus Cristo, Cruzadas Cátaras, Corte do Rei Arthur, Santo Graal), lugares sagrados, aventura, fantasia, amor, sexo, encontros, desencontros, guerras e paz. Esta fantástica história realmente faz com que o leitor se encante, emocione e perca o fôlego em uma busca incessante, alucinante e misteriosa. Em breve, o Escolhendo Livros também fará uma resenha do romance para os nossos queridos leitores curiosos!

Páginas nas redes sociais:
https://www.facebook.com/thebraveslegend?fref=ts
http://www.patriciadeluna.com/

Fonte: The Colorless
Nos últimos anos, plataformas digitais como o Steam possibilitaram que pequenas produtoras de games pudessem ter uma chance maior de ganhar espaço no mercado. Essa abertura tem ajudado consideravelmente ao renascimento do gênero adventure point and click, um dos nichos da indústria de jogos eletrônicos que mais se preocupa em unir um gameplay envolvente com uma boa história para contar. Dentre essas empresas indies, a Wadjet Eye Games destaca-se pela sua nostálgica forma de produzir adventures de mistério, e esse é um dos motivos para falarmos hoje sobre o melancólico, mas carismático, The Blackwell Legacy.

                            
   
Com um visual retrô que faria qualquer jogador dos anos 80 sentir um calorzinho no estômago, The Blackwell Legacy foi criado por Dave Gilbert e lançado originalmente em 23 de dezembro de 2006 para a plataforma PC. O jogo gira em torno da protagonista Rosangela Blackwell, que se vê atingida pela morte de sua única parente ainda viva, sua tia Lauren, que há anos sobrevivia em estado de coma no hospital. Para a surpresa de Rosa, Lauren acaba deixando-a uma inconveniente... herança (?) - um fantasma falante e cheio de manha chamado Joe Malone. Joe acompanha a família Blackwell há décadas, sendo um "legado" que é repassado entre as mulheres da família e que serve como um "guia mediúnico" para ajudá-las a resolver misteriosos casos sobrenaturais. 

Assim, Rosa deve ajudar outros fantasmas ainda presos na Terra a "atravessarem a luz", e se libertarem dos resquícios de culpa que os prendem a vida. Obviamente Rosa fica aterrorizada com todo esse furungudum que é jogado em seu colo, rendendo ótimas cenas de desacordo entre ela e o seu novo fantasminha camarada, Joe "Malinha" (brincadeirinha, ele é um fofo <3). Uma delas e que merece um boooooom destaque é a da primeira aparição de Joe para Rosa, que é um dos momentos mais cômicos e adoráveis do game. Quem adora um relacionamento meio "gato e rato" com muitas tiradas sarcásticas vai acabar se apaixonando por Rosa e Joe, que sem sombra de dúvidas é um dos mais carismáticos sidekicks do universo indie gamer. 

Por ser um jogo point and click, todo o game se baseia em explorar cenários, resolver quebra-cabeças (os chamados puzzles) e fazer escolhas de diálogo, para que assim possamos ajudar Rosa a desvendar o primeiro caso que Joe apresenta a sua nova parceira. Esse primeiro mistério, o de uma garota fantasma presa a uma praça, é bem simplório e bem bobinho, mas devido ao carisma dos protagonistas, a resolução do caso acaba se tornando tão gostosa que você nem liga tanto para a simplicidade absurda do jogo.  Infelizmente, o game é curto (dá para zerar em menos de uma hora), mas como é apenas o primeiro da série (que tem cinco títulos!), você acaba vendo ele mais como um episódio do que como um jogo completo. Dessa forma, The Blackwell Legacy funciona como um capítulo introdutório, que dá margem para que compreendamos os próximos jogos da saga.

Como todo apaixonado por videogame e boas histórias, tenho um apreço especial por uma produção que se atém aos detalhes, e The Blackwell Legacy, definitivamente, é reforçado por essa característica, O cenário do jogo é construído basicamente na cidade de Nova York, e como o criador Dave Gilbert mesmo falou na versão comentada do jogo, ele escolheu a cidade por viver nela (rs) e pelo contexto urbano que a história teria, sendo Rosangela uma típica nova-iorquina - solitária, tímida e que adora privacidade. Há uma cena do jogo que expressa bastante sua natureza: quando Rosa fica com vergonha de pedir um favor urgente (sem spoilers!) para a sua vizinha, simplesmente porque nunca realmente falou com ela mesmo morando há anos no mesmo prédio.  Isso é um detalhezinho muito diferente de se ver em um jogo, principalmente se tratando do gênero adventure, no qual normalmente os personagens precisam falar com ~estranhos aleatórios~ na rua pra poder resolver quebra-cabeças da trama (um beijo para The Longest Journey e Siberia!).

Vale comentar que tudo isso é amarrado com uma dublagem maravilhosa, destaque para Rebecca Whittaker como a Rosa e Abe Goldfarb como Joe. Inicialmente, o jogo foi lançado com outra pessoa dublando a protagonista, a dubladora Sande Cheu, mas com o relançamento do jogo em 2011, Dave Gilbert decidiu redublar todo o jogo para que ficasse com a mesma dubladora dos títulos posteriores do jogo (Rebecca foi quem dublou a Rosa em The Blackwell Convergence, Deception e Unbound). Como eu só joguei a versão relançada, não tive a possibilidade de ver o jogo na voz anterior, mas devo dizer que não consigo imaginar outra voz para Rosa. Eu simplesmente amo seu jeitinho frio de ser!

"É uma foto minha com a Tia Lauren". E eu adooooro a tia Lauren. Oops, mini spoiler!
O jogo é bem, bem leve (não tem nem 1 GB) e dificilmente não vai rodar no seu PC (venhamos e convenhamos, é um jogo com uso limitado de pixels!). O único problema é que ele não oferece legendas em português, mas para quem tem um conhecimento intermediário na língua, dá pra, sem problemas, acompanhar a trama. Além disso, já é possível encontrá-lo para IOS, sendo comercializado para Iphones e Ipads. Qualquer dúvidas sobre configuração, é só dar uma olhadinha nas informações a seguir:

OS: Windows ME ou maior.
Processador: Pentium ou maior.
Memória: 64 MB RAM. 
Gráfico: 640x400, 32-bit colour: 700 Mhz sistema mínimo. 
DirectX®: 5.0. 
HD: 200 MB de espaço. 
Som: Todos as placas de som compatíveis com DirectX.

Gostaram? Prometo trazer o segundo jogo da série, The Blackwell Unbound, em um próximo Jogos Dignos de Um Livro. Arivederci!


Boa noite, gente bonita!

Como vão vocês? Bem, espero. Como passaram as férias de julho? As minhas férias de julho acabaram há pouco mais de uma semana, pois, na verdade, começaram em agosto, portanto estou considerando que a mesma coisa aconteceu com todos vocês, ok? Ok. Hoje venho falar deste... clássico. Orange Is the New Black realmente parece estar se tornando the new black, não? Só se ouve falar nessa série! Mas calma: não é sobre a série que eu venho escrever hoje: é sobre o livro. Aliás, você sabia que a série é inspirada em um livro? Não? Então tá na hora de ficar sabendo. Vem comigo que eu te conto.

Antes de começar a resenha, gostaria de deixar claro que este texto não tem qualquer compromisso com a série original distribuída pela NetFlix. Conheço OITNB de nome, sim, mas nunca assisti a nenhum comercial, snippet, trailer ou qualquer coisa relacionada à série, portanto, caso você seja um espectador desta, esteja ciente de que o livro, assim como qualquer adaptação televisiva/cinematográfica, talvez (creio que “certamente” é mais preciso) apresente diferenças em relação ao que é exibido pela NetFlix, incluindo detalhes centrais da própria trama, certo? 


Muito bem: vamos ao que interessa. Orange Is the New Black (“Laranja é o novo preto”, pra quem não lembra do Inglês da quinta série) é um livro de caráter autobiográfico da escritora americana Piper Kerman, que relata na obra sua experiência com o sistema prisional americano. O livro é distribuído, no Brasil, pela Editora Intrínseca, tem 304 páginas e foi traduzido por Cláudio Figueiredo e Lourdes Sette. Li a primeira edição, de março de 2014.

Bom, a trama. A personagem principal da história é a própria Piper Kerman, autora do livro. Piper começa a narrativa contando como foi parar atrás das grades. Durante sua juventude, Piper se envolve com uma glamorosa traficante de drogas (no livro, chamada de Nora. Kerman explica que mudou os nomes de quase todos os personagens na história, pra preservar suas identidades). Movida pela paixão, ela acaba se envolvendo no tráfico internacional de drogas ao servir como “avião” para a então namorada. Em virtude da profissão-perigo, Piper e Nora viajam por vários lugares e vivem altas aventuras, até que, em dado momento, se separam (já não me lembro o motivo) e cada uma segue seu rumo.

O tempo passa, Kerman está em um relacionamento sério com um homem chamado Larry e a vida segue tranquila, até que, um belo dia, a polícia encontra Kerman e ela é intimada a responder pela acusação de tráfico internacional de drogas. O passado, então, volta à tona e Kerman precisa enfrentar as consequências de seus atos. Passam-se dez anos, do momento da intimação até a prisão de Kerman de fato. Ela é julgada, condenada a 15 meses de reclusão e enviada ao presídio federal de Danbury, Connecticut, onde cumpre sua pena.

Danbury é o cenário principal da trama, mas existem outras duas instituições pelas quais Piper passa na segunda metade da história. Eu quase diria que isso é um spoiler, mas é um tanto quanto impossível dar spoilers sobre OITNB, porque o livro não é um romance; não existe uma sequência lógica de fatos. Na versão americana do livro, ele é categorizado como memoir (livro de memórias; autobiografia); no Brasil não deve ser muito diferente. Assim sendo, os eventos que Piper narra dentro da prisão são um registro de suas memórias, sem que haja uma sucessão crescente de eventos que leve a um grande desfecho.

Kerman em 2014 (fonte)
Esse é, na verdade, um dos pontos que me... como eu diria? Acho que me entediou um pouco. Não sei se seria questão de gosto pessoal meu ou se são os elementos da obra que levam a isso, mas, em OITNB, nada de extremamente empolgante acontece. Piper está presa, então não vai a nem volta de lugar nenhum. No livro tem de um tudo: tem coisa triste, coisa interessante, coisa engraçada, coisa dramática, um número inacompanhável de personagens, mas nenhum momento de grande movimentação ou clímax. Acabei demorando pra lê-lo por causa disso: os capítulos passam e a história literalmente não sai do lugar até a segunda metade da segunda metade, onde o processo de soltura de Kerman começa a acontecer. Algumas personagens, contudo, são bastante cativantes: a cozinheira Pop, a amiga de cubículo Natalie, o marido de Kerman, Larry, que é um mozão (aliás, eles são casados até hoje!)... Quando comecei a ler a história, sem quaisquer expectativas, imaginei que fosse algo no estilo do extinto Oz, que passava nas madrugada do SBT e eu ficava acordado até altas horas só pra ver o Beecher e o Keller, mas não passou nem perto, em nenhum quesito. A única semelhança é o cenário. Só.

Quanto à escrita do livro, não há muito o que comentar: a leitura é fácil, leve, fluida, com uns palavrões aqui e ali; bastante contemporâneo. Não sei avaliar a qualidade da tradução porque não li nem lerei o original, mas é tudo bastante claro. Quanto à editoração, três ressalvas: primeiro: a capa do livro é a exatamente a mesma imagem (uma das) de promoção da série da NetFlix. Não devo ter me manifestado quanto a isso por aqui em outras ocasiões, mas não sou muito fã desse tipo de “empréstimo”; fica parecendo que o livro e a série são a mesma coisa, e todos nós sabemos que não é bem assim. Segundo: encontrei diversos erros de revisão ao longo do texto; páginas 109, 134, 175, 183, 236, 247... Coisas como “outras mulheres tinha vindo” e “nada mais difícil na cadeia do ser mãe”. Nada que comprometa o entendimento do texto, mas, ainda assim, faltou um pouco de cuidado aí. E por fim: a pessoa que teve a ideia de colocar, na última página, os detalhes do miolo, incluindo a fonte utilizada, tem um pedaço do meu coração garantido, porque Deus sabe o quanto eu lutei pra descobrir que aquela fonte se chamava Bembo e o Capeta deve ter rido na minha cara quando eu descobri que essa informação constava na última página.

Enfim. Pra quem gosta de gêneros autobiográficos — o que talvez não seja exatamente o meu caso —, Orange Is the New Black é uma leitura válida. Não é nada que vá mudar a vida de ninguém, mas é curioso ver como funciona a vida dentro de uma prisão feminina e o sistema prisional dos Estados Unidos de modo geral. Eu mesmo confesso que fiquei um tanto surpreso ao ver que, ao contrário da imagem estereotípica que a maioria das pessoas têm, nem todas as mulheres lá dentro são sapatões caminhoneiras que estacionam uma Scania bitrem em qualquer vaga, não: existem mulheres de todos os tipos, todas as cores, todas as idades, todas as etnias e todos os caráteres.

E é isso. Se alguém assiste à série e pretende ler o livro, ou o contrário, depois me conte se existem muitas diferenças ou muitas semelhanças entre as duas histórias. Quem sabe eu assista à série quando estiver com a lista de afazeres acadêmicos mais sossegada? E você que já leu OITNB? O que achou? Adorou? Odiou? Por quê? Conta pra gente nos comentários. Eu vou ficando por aqui. Um abração procês e até a próxima!



Ah... o amor. Tão belo, poético e hiperglicêmico. Já dizia a frase feita: "O amor está no ar". Mas sinceramente, não é só nele que ele está (até rimou!). O amor está nas famílias, no trabalho, na escola, nas paisagens turísticas, nas lendas, na religião, nos contos populares, nas mais esdrúxulas mentiras, nas fofocas da vizinha, nas traições passionais, nas poesias melosas, nas propagandas publicitárias, nos acordos pré-nupciais, nas letras de música, nos homicídios culposos, nas comédias românticas de baixo orçamento e, para o que mais nos convém no momento, na literatura. No entanto, por mais que tenhamos muitos exemplos de livros em que o tema amor é despretensiosamente abordado na trama, não vamos nos enganar: Amor é best-seller. E isso definitivamente fala algo sobre nossos hábitos literários. 

Acho melhor começar esse post falando que essa não é uma crítica aos livros românticos. Seria muita hipocrisia da minha parte tomar esse partido, principalmente com tantas resenhas desse site falando bem de obras do gênero. Eu AMO romances. Sim, sim, me refiro aos romances "românticos" e não ao romance como estilo narrativo - a dita composição em prosa. Minha estante vai de Meg Cabot a Stephen King, então tenha plena e absoluta certeza que essa não é a questão. O papo aqui é outro e está muito mais relacionado ao porquê de nós gostarmos TANTO de romances do que há qualquer questão de qualidade narrativa ou esteriótipos literários. Talvez se olharmos para a história, isso fique mais claro.

Não é mistério para ninguém que obras românticas sempre fizeram muito sucesso no meio popular. Se voltarmos para o século XVI, observamos as poderosas tragédias românticas de William Shakespeare que arrebatam até hoje multidões de fãs, principalmente se mencionarmos a obra-prima (categorizada como "a história de amor por excelência") Romeo e Julieta. No século XX, os folhetins franceses também abusaram de histórias de amor com mocinhas inocentes, galantes heróis e terríveis vilãs, criando um formato narrativo feito para as grandes massas. Só no Brasil, temos o inocente A Moreninha do autor Manuel Antônio de Almeida e o fofo Senhora de José de Alencar, que até hoje são considerados clássicos do gênero no território nacional. Poderia citar outras inúmeras obras mundiais de diferentes cenários históricos que abordam o amor, mas acredito que não seja preciso tantas voltas para afirmarmos que nós temos um grande interesse em histórias de amor. Mas por quê?

E se na triste realidade...
Talvez a melhor resposta que eu consiga dar, levando em conta a humildade de minhas intenções, esteja na expressão "a vida imita a arte". E o amor, como arte, é o que mais desejamos na nossa vida. Desde criança, somos acostumados a escutar contadores de histórias narrando belos contos de fadas, nos quais a gata borralheira conquista o príncipe encantado e ambos vivem felizes para sempre em um castelo de cristal. Então a pergunta que fica é: Seria culpa dos livros o nosso vício neste amor idealizado ou seria nossa culpa o abuso do amor como tema literário? A resposta eu não sei, mas que a indústria literária se alimenta dessa questão cíclica ao estilo "ovo ou galinha?", isso é fato.

O que eu realmente gosto de acreditar é que, por mais que o amor possa ser utilizado como um elemento caça-níquel, ainda há muitos autores que o abordam com propriedade e paixão em seus trabalhos. Eu já escutei muitas pessoas falando mal de best-sellers como A Culpa é Das Estrelas, E Se Eu Ficar e O Lado Bom Da Vida, e talvez eles realmente tenham os seus motivos (eu, particularmente, acho ACedE bem legal), mas é sempre bom perguntar a si mesmo antes de fazer qualquer juízo de valor - será mesmo que eles são livros feitos só para vender? Amor é best-seller, mas isso não significa que um forte valor comercial possa desvalorizar a qualidade técnica de uma obra. Vamos parar de criticar obras pela "visão mercadológica", mas sim, pela nossas reais impressões sobre ela.

Acha que eu só falei besteira e que o amor, hoje em dia, só dá material para livrinho sem valor? Não deixe de comentar sua opinião para tornar esse diálogo interessante. Se há uma coisa que eu gosto é ser contrariado... Sabe como é, só assim para eu aprender alguma coisa.

... Pudéssemos ter o nosso dia no baile?


Quando um livro gira em torno de um tema como "obesidade", é comum que a opinião do autor acabe dividindo os leitores entre aqueles que se identificam com a sua perspectiva e aqueles que discordam completamente dela. Se você der uma rápida procurada pela web por mais opiniões sobre Grande Irmão, irá perceber que esse caso se encaixa perfeitamente. Como um dos livros com o feedback mais "8 ou 80" da autora, eu já fui me preparando para mais uma experiência "ame ou odeie". Eu já sabia que levaria o livro para um nível bem pessoal, principalmente com esse "elefante branco" que Lionel Shriver decidiu explorar nessa nova empreitada.


Em Grande Irmão, o drama da vez gira em torno dos irmãos Pandora e Edison, unidos pelos laços sanguíneos mas sempre com visões bem diferentes da vida. Pandora é uma mulher retraída e passiva, enquanto Edison, um talentoso pianista de jazz, tem a pompa de quem gosta de estar no centro das atenções. Apesar das divergências, ambos sempre foram muito próximos, principalmente quando se uniam para aturar os caprichos do pai, uma ex-estrela de televisão que nunca percebeu que seus anos de glória haviam acabado. Os anos se passaram e Pandora construiu sua própria ideia de felicidade: Casou-se com um homem seguro e imponente (Fletcher) e praticamente adotou seus dois filhos de outro casamento. Mas é quando Edison resolve fazer uma visita, após anos de viver viajando de um lado pro outro do mundo, que Pandora choca-se com a nova realidade do irmão. Edison pesava agora mais de 170 quilos e em nada lembrava o belo irmão de suas lembranças.

Como falei anteriormente, eu tive que levar Grande Irmão pro lado pessoal e o motivo é bem óbvio: eu mesmo lá tenho os meus (bons) quilinhos a mais. Sempre sofri com as dificuldades de ser gordo e, em muitos momentos do livro, senti um certo asco de Pandora pelos seus pensamentos ferrenhos em relação ao estado do irmão. A protagonista passeia por vários sentimentos ao lidar com o "grande problema" a sua frente: asco, pena, compaixão e até vergonha, e pra mim, todos esses agiram  como uma flecha atravessando o meu estômago.

Pandora é uma mulher racional e eu entendo sua vontade de ajudar o irmão, mas quando um livro trata da perspectiva de uma terceira pessoa ao invés da vítima em questão, não dá para não sentir uma certa raiva. Edison teve os seus motivos para ficar gordo (sem spoilers!) e lutar contra a vontade de comer exige uma força de vontade ESTUPIDAMENTE grande. Na minha opinião, é uma das batalhas mais árduas e mais longas que alguém pode enfrentar.

Fonte: The Catholic Catalogue

Acho que uma das coisas mais legais sobre Grande Irmão é como ele funciona praticamente como um livro de ficção bem informativo sobre o assunto. Só para ter uma ideia, a obra mostra os prós e contras das ditas "dietas radicais", os desafios de lidar com a obesidade no campo profissional, no ambiente familiar e, principalmente, com o seu principal inimigo: a auto-estima. Por mais que o final de Grande Irmão seja um belo susto para o leitor (e o principal motivo do fator love or hate que o livro carrega), a ousadia da autora acaba se tornando uma forte mensagem de apoio as pessoas que sofrem com a obesidade e suas respectivas famílias.

Para os fãs de um bom drama, Grande Irmão é mais do que uma boa pedida. Mas não se espante se acabar recebendo um soco de estômago aqui e ali, viu?

P.S: Grande Irmão foi escrito por Lionel Shriver como um desabafo da autora pelo relacionamento turbulento que teve com o seu próprio irmão, que também sofria com excesso de peso. É interessante saber essa notinha para entender como o assunto é tratado de forma bem pessoal para a escritora...