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Conto inédito hoje no EL! A autora Laísa Couto nos apresenta hoje ao conto "O Lenhador, a Bruxa e a Lua Cheia", um spin-off da série Lagoena. "Mas quem realmente é a nova moradora do vilarejo?"

O Lenhador, a Bruxa e a Lua Cheia
por Laísa Couto 

Era noite de festa num distante vilarejo. A Lua brilhava em Lagoena, num tempo em que as criaturas da Terra Secreta não tinham pesadelos ou medo do amanhecer. Os homens, descontraídos, bebiam ao calor de uma grande fogueira, as mulheres se revezavam com bandejas nas mãos, enquanto as crianças corriam, trançando entre as pernas dos mais velhos.

Comida e bebida foram servidas durante toda noite. Os mais sensatos moderaram as doses, partindo para seus lares logo cedo, os mais gulosos, se fartaram à vontade até o último leitão assado e os que se diziam lúcidos encheram suas canecas até o dia clarear.

Quando rompeu a aurora, o vilarejo se enchia novamente de vida, um viúvo lenhador despertava. Atordoado com a tênue claridade, viu o mundo girar ao seu redor, fazendo sua cabeça zunir. Lembrou-se da noite anterior e das grandes canecas de bebida fermentada que consumira no festejo. Tomando fôlego, se levantou meio trôpego e se deparou com uma bela moça adormecida ao seu lado. Chocado, percebeu quem era: a nova moradora do vilarejo, assunto das últimas semanas, principalmente das rodas masculinas, que elogiavam sua beleza. O lenhador vestiu-se com pressa e partiu, deixando a jovem em seu sono.


Arrependido, o lenhador não se lembrava de como cortejara aquela moça ao ponto de seduzi-la. Desde que sua esposa falecera, deixando a única filha, nunca se permitiu se unir a mais ninguém. Aconteceu que naquele mesmo dia se espalhou a notícia de que o viúvo lenhador teria pedido a moça em casamento. Jovens solteiras invejaram a sorte da moça, que teria uma família para cuidar. Velhas fofoqueiras não pouparam especulações sobre a origem da agora noiva, que aparecera repentinamente no vilarejo.

O lenhador, desesperado, tratou de procurar a jovem para desfazer o noivado, pois quando fizera o pedido não estava sóbrio, além disso, não era o que seu coração desejava. E ela, quando viu seu casamento desfeito, encheu-se de ódio e gritou para todos ouvirem:

— Ouça bem, lenhador! Quando a noite cair e a grande Lua amarela subir, seu coração sangrará de dor! Levarei embora aquela que sempre teve ao seu lado!

O homem não deu confiança à moça, afinal, estava transtornada com o fim do casório. Assim voltou para casa, com o peso da culpa nos ombros, mas logo que viu a sua filhinha, todo aquele mal entendido dissolveu de sua mente e o restante do dia transcorreu tranquilo. Rápido, chegou a noite, com ela a Lua cheia e todos foram dormir.

Quando, enfim, amanheceu o lenhador percebeu com horror que sua pequena filha havia desaparecido, então, lembrou-se da ameaça da moça no dia anterior. Correu até sua casa no fim do vilarejo, arrombou a porta e não encontrou ninguém. Os moradores, compadecidos, em grupos se espalharam pelas redondezas. A procura foi em vão, não encontraram nenhuma pista da filha do lenhador e de sua ex-noiva, uma bruxa.

Passaram-se dias, semanas e o homem saía todos os dias à procura de sua filhinha, até, quando, na noite da primeira Lua cheia após seu sumiço, escutou um choro infantil ao longe dentro da floresta. Procurou até a noite entrar na madrugada, a Lua amarela se esconder no horizonte e a noite cessar. Procurou durante os dias e as noites seguintes, até escutar novamente o choro de sua filhinha na floresta em outra noite de Lua Cheia.


Acontece que a bruxa enfeitiçou um poço e trancou a filha do lenhador lá dentro e para enlouquecê-lo de tanto a procurar, escutaria seu choro em noites de Lua cheia sem que pudesse alcançá-lo e tirar a menininha de lá. 


Assim, anos se foram e mais velho o lenhador ficou, porém ainda continuava sua procura, na esperança de encontrar sua querida filha, seja numa noite de Lua cheia ou em outra qualquer.




Todo mundo diz que feriadão sem viagem não tá com nada. Não há nada como pegar o carro, chamar os amigos e partir para alguma cidadezinha do interior em busca de uma experiência única; um tempo que nunca mais se repetirá. Eu até poderia dizer que Dias Perfeitos, o segundo livro do jovem autor brasileiro Raphael Montes, é um livro sobre este tipo de viagem. Porém, isto seria esconder o ouro. Esta é uma história de amor, sequestro e obsessão.

Téo é um jovem estudante de medicina de poucos amigos, ambições e sonhos. Não dá para dizer que sua vida é feita de grandes emoções: Ele cuida de Patrícia, sua mãe paraplégica, se dedica aos estudos de anatomia na faculdade com o amor de um aluno dedicado e vai todos os finais de semana para a igreja, como um bom filho de beata. Até que um dia, Patrícia o arrasta para uma festa e Téo conhece uma garota diferente; Clarice, que nunca leu Lispector. A pouca conversa que tiveram já esboçava grandes diferenças entre os dois: Téo, metódico; Clarice, desapegada. Téo só escutava música brasileira; Clarice curtia internacionais. Mas mesmo que não fosse uma das meninas mais bonitas, o rapaz enxergou ali, pela primeira vez, o que significava se apaixonar. A partir daí, Téo começa a tentar se aproximar de Clarice à todo custo, em uma mistura de obsessão e amor incondicional.

Fonte: O Globo

Sim, acho que já deu para ficar bem claro que Téo não aceita um não como resposta e acaba, consequentemente, sequestrando a garota para em nome do amor. E a partir daí, minha gente, segure a respiração porque a cada página que se passa o livro desce um degrau no nível de loucura. Téo leva a garota dentro de uma mala para Teresópolis e mantém Clarice como refém em uma pousadinha chamada Lago dos Anões. Tudo isso como se aquela fosse ~as férias de um casal de namorados~. A mente do protagonista, por mais lógica e racional que possa ser na sequência de eventos, é completamente perturbadora. Como um fâ de Dexter (sim, apesar do final ruim, a série ainda tem um espaço no meu coração), senti-me em casa com a narrativa desenfreada do autor, que apesar de não ser muito detalhista (algo compreensível para um romance policial), enlaça os capítulos com uma habilidade de veterano (e olha que é apenas o segundo livro de Raphael!).

Ao chegar em casa, Téo se sentia zonzo. Correu ao celular na cabeceira da cama e aproveitou para mandar uma mensagem à mãe. Acessou as chamadas perdidas, saboreando os dígitos da última ligação recebida. Ficou muito tempo deitado no sofá . Encarava o teto, revivia imagens. Algo havia explodido dentro dele. Algo que ele não conseguia nem explicar. Ainda que não soubesse o sobrenome de Clarice, onde ela morava ou em que universidade cursava história da arte, ele tinha o número de celular dela e isso o tornava íntimos. (MONTES, Raphael. Dias Perfeitos. p.21)


Um fator que me chamou atenção é o quanto o lado corrupto do Brasil ajudou a enriquecer a obra. Não vou especificar os momentos, mas o livro aborda o caráter questionável que caracteriza o nosso povo com frequência (infelizmente), deixando o sequestro de Clarice ainda mais revoltante.  É engraçado porque se pegarmos os livros e filmes americanos do gênero, dificilmente vemos a corrupção da polícia ou das pessoas aparecer com tanta visibilidade (no máximo a polícia sempre chegando no final depois que o vilão já morreu, mas isso é mais uma questão de burrice do que maldade, HAHA). Talvez faça até sentido para o público estadunidense, mas para a nossa cultura, é quase utópico. Por isso, Dias Perfeitos definitivamente é um romance policial palpável para nós e eu imaginei facilmente como uma dessas histórias loucas e sensacionalistas que aparecem de vez em quando nos jornais do país (o caso Eloá, por exemplo).

No mais, se há uma palavra que descreva esta leitura é... Sufocante. Fiquei sinceramente abalado com o decorrer da história e, quando o final vai chegando, fiquei desesperado pelo caminho que Dias Perfeitos estav tomando. Vou logo deixar bem claro; tenha um estômago forte, Raphael Montes sabe causar um impacto. Eu mesmo já estou pensando em comprar o seu primeiro livro, Suicidas, que pela sinopse já estou vendo que vou me corroer de aflição. Mas acho que é para isso que romance policial existe, não é? Fato mais que comprovado. 

E olha só este booktrailer. E sim, aquele é o autor. E ele só tem 24 anos. E sim, ele já foi indicado para pelo menos uns três prêmios da literatura nacional. E eu aqui, escrevendo de pijamas enquanto baixo Grey's Anatomy.


A vida é movida por duas coisas: O que não sabemos e o que não contamos. Já escutou este ditado? Todo dia há pelo menos uma coisa que guardamos para nós mesmos; pode ser um comentário maldoso sobre a nova saia da vizinha, uma caneta roubada do estojo do papai ou até uma terrível e secreta paixão platônica pelo namorado da melhor amiga. Seja por vergonha, conveniência, insegurança ou simplesmente pelo instinto de auto-preservação, temos essa necessidade incontrolável de esconder as verdades, fazendo com que os nossos relacionamentos sejam construídos sob uma familiar sensação de desconfiança. No post de hoje, conheceremos O Segredo do Meu Marido, um livro que não tem medo de fazer a mais difícil das perguntas: Saber ou não saber?


A autora de O Segredo do Meu Marido Liane Moriarty nos apresenta esta pergunta através do link criado entre três mulheres após a revelação de um segredo devastador. Este era escondido pelo marido de Cecilia Fitzpatrick, uma sofisticada mãe e dedicada esposa que sempre se orgulhou de sua família perfeita. Após encontrar uma antiga carta de seu marido com os dizeres "para ser aberto apenas na ocasião de minha morte", Cecilia enfrenta uma decisão desafiadora. Também pronta para se deparar com uma encruzilhada,  a tímida Tess vê seu casamento ruir após ouvir de seu esposo e de sua melhor amiga que os dois estão, tcharam-tcharam, apaixonados. Tess foge do estado com o filho e decide voltar as suas raízes ao buscar a casa da mãe em sua cidade natal. Por fim, Rachel Crowley é uma solitária secretária que sofre com a mudança do filho e sua esposa para outro país. Mas a verdadeira questão é que as suas dores já vinham se deteriorando desde um fatídico acontecimento do passado. O drama de cada personagem, por mais diferentes que sejam, possuem uma conexão magnífica e, se já posso começar a pontuar minhas impressões, são interdependentemente fascinantes. 

"(...) esta situação não pode ser consertada. É simplesmente incorrigível." 

Apesar das temáticas corriqueiras de um típico drama familiar preencherem 70% do livro (e não, isso não é um problema), o tão misterioso segredo do dito marido realmente não tem nada de corriqueiro. Eu, particularmente, esperava algo bem diferente quando descobri o que diabos tinha na carta (e meu deus, como fiquei feliz em ver a esnobe da Cecilia perder o chão!). Resumindo, a-do-rei ser pego de surpresa. Depois que o livro pega o embalo das revelações, digeri a história em um ritmo que parecia até fim de temporada de seriado americano. Como o próprio livro anuncia ao citar a crítica feita pela revista americana USA Today, "impossível de largar."

"Ela não era uma boa pessoa? Teve uma leve consciência de algo, quase como uma vergonha do modo como tinha levado a vida. Não havia um certo isolamento, até mesmo um egoísmo e maldade, no modo como se desligava das pessoas, escondendo-se atrás de sua conveniente timidez, de sua ansiedade social?" (O Segredo do Meu Marido, Liane Moriarty, pg. 273)

Isto, devo dizer, foi uma coisa que chamou a minha atenção em O Segredo do Meu Marido. Além de ser uma história impactante e reflexiva, o desenvolvimento da trama é EXCELENTE, mostrando o quanto a autora conseguiu equilibrar cada capítulo para que sempre tivesse reviravoltas interessantes - e olha que estamos falando de capítulos curtinhos! Por isto mesmo, ouso dizer que assim como os fãs de drama gostarão das análises delicadas da autora sobre cada um de seus personagens, também acredito que a obra pode agradar um bom fã de suspense afim de variar um pouco dos livros de detetive. 

O canal do youtube da Editóra Intrínseca disponibilizou um vídeo muito legal da autora dando uma entrevista sobre o livro (clique aqui para acessá-lo). Se está faltando um empurrãozinho a mais para ir na livraria agora e comprar o Segredo do Meu Marido, dá uma olhadinha neste vídeo. Além de falar sobre a história, ela também conta um pouco sobre as suas opiniões sobre contar e guardar segredos. O vídeo está legendado em português, então pode deixar que o domínio da língua inglesa não estará no seu caminho! ;)



Dessa vez resolvi ler um livro mais curtinho. E como fã (verme) do morcego, não podia deixar passar a chance de ler um algo escrito apenas com letras, sem figurinhas, do cruzado mascarado. Pena que não tem o Batman, mas um farsante. E peço calma a todas as "morceguetes" de plantão. Continuem lendo e vou tentar explicar porque eles acertaram em cheio no título do livro e tornaram meu herói favorito em alguém tão vazio quanto a atuação de Christian Slater em Alone in the Dark...

Para aqueles que passaram tempo demais dentro da caverna e não viram o sol raiar, Tracy Hickman é famoso no ramo de aventuras fantásticas. Ficou conhecido principalmente por seu trabalho para a finada (e maravilhosa) TSR, editora do sistema Advanced Dungeons & Dragons (AD&D) de RPGs de mesa, escrevendo módulos de aventura e principalmente a série Crônicas de Dragonlance, junto com a escritora Margaret Weis. E não parou por aí, o homem tem quase 40 títulos publicados e continua sendo uma referência quando o assunto é fantasia. Ele está até trabalhando num projeto com o lendário Richard Garriott.

Mas aí, você pergunta: por que RAIOS escolher ESSE cara pra escrever um livro do Batman?

Bem, dizem que se o cara é bom, ele escreve qualquer coisa. Então vamos começar pelo começo. Wayne de Gotham começa com uma investigação padrão Batman, onde o herói é desafiado por um vilão que ele ainda não tem certeza qual seja, mas que usa técnicas de controle mental para fazer pessoas comuns cometerem seus crimes. Durante seu trabalho para descobrir qual dos 589.000 malfeitores malucos da cidade está por trás da bagunça, ele começa a descobrir detalhes sobre o passado que talvez preferisse manter no passado (como quase todo mundo rs).

Nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, nan, BATMAAAAAN!!!
A estrutura do livro é o que torna ele interessante. Durante sua investigações, Batman vai descobrindo detalhes da história de seu pai que ele mesmo nunca soube. E enquanto ele vai descobrindo esses fragmentos de informação, o leitor é presenteado com as partes mais brilhantes do livro que são as histórias do passado, onde o protagonista da história realmente aparece, Thomas Wayne, pai de Bruce.

Cada capítulo conta com pelo menos uma parte dedicada à esses flashbacks que, não necessariamente, fazem parte da investigação, mas ajudam o leitor a entender o que está acontecendo. Eles mostram Thomas, um médico recém-formado tendo que se desdobrar em 600 para atender as expectativas do pai, Patrick Wayne, cuidar da então melhor amiga, Martha Kane e seguir suas ambições. Os flashbacks mostram um cara normal tendo que lidar com "pepinos" que, na maioria das vezes, estão além de sua capacidade, o obrigando a se esforçar ao máximo para resolvê-los. Nesses momentos, a história se torna mais humana, menos teatral. E principalmente, menos cafona.

Sim, cafona é a palavra para descrever os trechos que narram o presente, onde o protagonista é o Batman. Em matérias de revistas e blogs ou propagandas, chamar o herói de "cruzado encapuzado" é algo visto como aceitável. Mas num livro? Sério, isso é muito anos 60. Frases como "A sombra do morcego desceu o saguão..." e outras bem piores figuram nos trechos de Bruce. E não é só isso, o Batman de Tracy Hickman é a versão mais chata e mimimi que já tive a oportunidade de ler. Mas não quero ser injusto falando que o escritor não soube retratar bem o herói. Afinal, é uma história que tem um cara que veste uma roupa de morcego e saí por aí pulando de prédio em prédio batendo na galera. O que esperar de alguém assim?

Tá vendo?
Por influência divina o escritor resolveu dividir o livro em capítulos minúsculos. Para o leitor de "caminho-do-trabalho" isso é excelente. Isso ajuda a organizar o pensamento, pois dá tempo para você pensar no que aconteceu. E não se engane. Os capítulos são pequenos, mas acontece coisa demais.

E isso foi um problema de vez em quando. Apesar de haver um tracking do tempo, é difícil fazer a associação de alguns fatos na história. Principalmente dos trechos do presente. Tudo bem, já sabemos que o Batman é um coadjuvante, mas ele não precisava ser tão desinteressante. E por causa disso, eu não dei muita bola pra boa parte da organização dos fatos dos dias atuais, o que tornou o final do livro meio meh.

E não só sobre a investigação, as cenas de ação do Batman são looooooongas. Muuuuuuuuito loooooongas. Por vezes durando um capítulo completo. E são muito chatas. Mesmo quando a situação deveria ser tensa, aquela que você estaria roendo todas as unhas torcendo muito pro herói se dar bem, eu só queria que tacassem uma bomba nuclear no batmóvel se isso fizesse a história avançar pro próximo capítulo.

Mas não se preocupem, apesar de poucos momentos (poucos mesmo), existem situações onde a história do Bruce brilha. E um capítulo do Batman, um único, que salvou todos os outros. Eu não consegui dormir depois de ler essa parte de tão embasbacado que fiquei....... Vocês saberão quando chegarem lá.

Enfim, para fãs e não tão fãs assim, é uma boa história que diverte mas que, por causa da expectativa de ver um Batman bacanudo estrelando um livro, pode ser estragada pelo moleque imaturo que tomou o lugar do herói.

O BOM:
  • Thomas Wayne domina o livro e você não vê a hora dele aparecer de novo.
  • Os trechos do passado mostram situações incrivelmente interessante.
  • Capítulos minúsculos e texto fácil de lembrar caso você pare de ler e volte duas semanas depois.
O RUIM:
  • Uma das piores versões do Batman (o herói, não o livro todo) que já li.
  • Ação longa e monótona.
  • Vilões aparecendo apenas para fanservice.
Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião nos comentários.

Yeah!



Ano passado tive a oportunidade incrível de visitar a Bienal do Livro no Rio de Janeiro (rolou até um post por aqui, lembram?). Dentre as várias atrações do evento, eu pude pegar um autógrafo com a Emily Giffin, fazer uma sessão de fotos no trono de Game of Thrones, me deslumbrar com a decoração magnífica dos stands e ainda folhear muitos e muitos livros. Resumindo: Uma das experiências mais divertidas que já tive. Este ano a Bienal do Livro será em São Paulo e a Editora Intrínseca tem uma surpresa para os seus leitores de todo o Brasil. Que tal ganhar uma viagem para São Paulo para participar do encontro de blogueiros da Bienal do Livro?


#Morto
Sim, isto não é um sonho! O concurso cultural "Minha Experiência com a Intrínseca" levará cinco ganhadores de cada região do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste, Sul) para São Paulo, com direito a passagens e hospedagens para participar do maior evento literário anual. Cada ganhador terá direito a levar consigo um acompanhante e ainda poderá participar do encontro de blogueiros da 23º Bienal do Livro SP. Então nem pense em deixar este presente dos deuses passar batido, minha gente!

Para participar, tudo que você precisa fazer é gravar um vídeo de 1 minuto com o tema "Minha Experiência com a Intrínseca" e mandar para este site aqui. A ideia para o vídeo é bem simples: Você pode falar sobre os seus livros favoritos, contar alguma história pessoal, relatar a sua experiência com a Turnê da editora... Seja criativo!

Mais informações sobre o regulamento? Clique aqui para acessar o site da Intrínseca e descobrir tudo sobre este concurso maravilhoso. Mas não perde tempo que é só até o dia 28, viu?


Fonte: Blue Sun Games 

Faz um tempo que eu deixei esta coluna nas mãos do Natan, mas se ele me permite, vou pegá-la emprestada para uma pequena, pero valiosa, adição ao nosso querido Hall de Dignidade Literária dos Jogos (de onde diabos eu tiro essas coisas...). Em uma mistura de paranormalidade, Dr. Frankenstein e o filme O Grande Truque, a coluna de hoje veio para mostrar a verdadeira magia dos adventure games. 

Acredito que se existe um gênero no universo gamer que sempre investe em boas histórias é o Adventure,  um ramo que teve o seu auge na década de 90 e, infelizmente, quase desapareceu do mapa nos últimos anos. Por isto, como o fã que sou deste nicho, acho super justo abrir um espaço nesta coluna para apresentá-los ao misterioso Gray Matter, uma recente jóia dos jogos de aventura point and click que poderia facilmente fazer parte da sua estante. Quem está afim de um mistério?



Como sempre fui apaixonado pelo gênero, Gray Matter logo chamou minha atenção quando entrou no acervo do Steam (uma plataforma de compra, venda e gerenciamento de games super em conta) e, tchamtchararam, com 20% de desconto na semana de lançamento. Assim como The Cat Lady, o jogo já se apresentava como um daqueles mistérios sobrenaturais cheio de quebra-cabeças e perguntas sem resposta, mas com uma curiosa peculiaridade; debater crenças sobrenaturais utilizando o universo da neurobiologia e dos truques de mágica.

Imagine o quanto fiquei surpreso ao ver um pequeno game indie partir de uma visão tão inexplorada sobre a morte - afinal, normalmente quando se fala em histórias de fantasmas sempre se escolhe o caminho fácil das explicações místicas e religiosas - e conseguir desenrolar uma história interessante E crível. Claro que eu não sou nenhum expert nos estudos sobre telecinésia e eventos paranormais (acho que filmes de terror não conta como material de pesquisa, snif), mas se tem uma coisa que Gray Matter conseguiu foi me fazer refletir sobre o potencial desconhecido do cérebro humano (este spoiler só sera capturado para quem realmente sabe o que é Gray Matter). Mas bem, deixa eu cortar essa babação de ovo que o jogo presta demais para eu não falar dele!

Gray Matter é um jogo de 2011 da renomada designer Jane Jensen (conhecida pela série Gabrel Knight). Sua trama nos apresenta a aprendiz de mágica (pelo menos eu ~acho~ que o feminino de mágico é mágica) mochileira errante e ex-gótica (... eu juro que o jogo é bom!) Samantha Everett, uma curiosa garota que tem como objetivo de vida viajar pelos vários cantos do mundo como se não houvesse amanhã. Porém, em uma fatídica noite, sua moto acaba enguiçando, o que obriga a protagonista a procurar por um refúgio. E claro que, de todos os lugares do mundo, ela bate de frente com uma mansão enorme e super assombrosa que eu preferiria dormir no relento da noite do que ter que sequer pensar em tocar naquela porta.

Mas tudo bem, vamos desconsiderar a sanidade mental da garota. Sam é recebida por uma agradável velhinha, a Sra. Dalton, que acaba a confundindo com uma suposta universitária que estaria chegando naquela noite para preencher o cargo de secretária do proprietário da casa. Sam, que de boba não tem nada, logo assume o papel que lhe foi dado, aproveitando da hospitalidade que tanto lhe viria a calhar naquela noite fria.  Porém, na manhã seguinte, Sam logo descobre que o seu novo patrão nada mais é do que o misterioso neurobiólogo David Styles, que precisa urgentemente que sua nova escrava empregada arranje "seis cobaias" na universidade para o seu "novo experimento". Um pedido super normal e saudável.


Samantha Everett.
David Styles.


E é a partir daí que tomamos controle do jogo, alternando entre a Samantha e o Doutor Styles para desvendar este novo e estranho relacionamento entre os dois. Do lado de Sam, somos levados a explorar o mundo universitário e a acompanhar a sua caça ao tesouro ao clube secreto Deadalus Club, um grupo fechado e sigiloso de mágicos profissionais. Já David se mantém boa parte do tempo enclausurado em sua mansão, na qual precisamos ajudá-lo a completar suas pesquisas científicas e descobrir uma forma de reencontrar a sua falecida esposa.

Por mais previsível que seja a história do cientista que "procura incansavelmente entender a morte de seu amor perdido de uma forma racional", este jogo não transita no lugar comum. David é um personagem teimoso, arredio, quase frio, que questiona a si mesmo o tempo todo se vale a pena perseguir uma pesquisa que se afasta TANTO do que realmente é comprovado cientificamente... Mas ainda assim, crê e luta pela existência de um universo sobrenatural. Ao mesmo tempo, Sam e a sua dedicação pelo mundo mágico estranhamente contradiz com os questionamentos de Styles, até porque toda mágica tem um truque realístico - por mais desanimador que isto seja - e enquanto Styles procura o irreal na sua realidade, Sam busca exatamente o contrário.

 Como um jogo de mistério, Gray Matter é um prato cheio para aquele friozinho na barriga de ~suspense no ar~. O ritmo às vezes lento, às vezes rápido funciona perfeitamente, principalmente por nos deixar ansiosos se os mistérios tem motivos palpáveis ou se há mesmo algo místico na história. Acho que uma coisa que sempre me irrita (sempre não, porque com certeza é algo perdoável em alguns casos) em histórias sobrenaturais é o quão os personagens aceitam que aquele "fantasminha camarada falando com você" é algo "ok", e em Gray Matter, graças a deus, isso non ecxiste. E, ironicamente, deixa a fantasia ainda mais acreditável!

No mais, poucos são os detalhes que ficaram abaixo das minhas expectativas. Os personagens são carismáticos (principalmente Sam e os estudantes de Edmund Hall), os cenários são lindos e a jogabilidade, para um point and click, é bem acima da média.  Uma ideia divertida foi a utilização de truques de mágica para solucionar puzzles, de maneira que você de vez em quando vai ter que parar na lojinha de instrumentos mágicos na cidade para "manter o estoque de "parafernálias mágicas".Talvez o sistema fique cansativo com o decorrer do jogo, mas sinceramente, eu achei a ideia bem cuidadosa (gosto quando um jogo parece ter sido planejado em todos os mínimos detalhes).

Um dos meus cenários preferidos.
Além disso, devo abrir um parênteses para algumas escolhas tristes de dublagem. Senti alguns atores beeeeem forçadinhos (Helena e Angela, sorry), mas como tenho um bom coração, consegui relevar por ser um jogo indie. Ainda assim, para tentar melhorar a parte sonora da obra, a trilha sonora de Gray Matter é maravilhosa! Sério, hands down! Até baixei essa música deliciosa do The Scarlet Furies, que toca sempre no menu e é o teminha da Sam. <3


 

Qualquer pessoa que acompanha os meus posts com uma mínima assiduidade sabe que eu sou um puxa-saco enrustido de Lionel Shriver. Digo isso porque este já é o terceiro livro da autora que apresento no Escolhendo Livros e, como se ainda houvesse dúvidas da minha parte, Dupla Falta foi mais um tapa na cara que eu não me arrependo de ter levado (e admito que estou escrevendo isto com um sorrisinho sacana de um típico fã orgulhoso estampado no rosto). Da primeira vez, foi a ousadia macabra de Precisamos Falar Sobre o Kevin que me deixou embasbacado; na segunda, o irônico poder das tomadas de decisão recorrentes na vida, descrito acidamente em O Mundo-Pós Aniversário; agora, Dupla Falta coloca em foco uma das facetas mais mesquinhas e nauseantes que o ser humano tem a coragem de possuir.... Talvez este tenha sido o livro de Shriver mais difícil de tragar.

Sets, games, aces e match points. Para a ambiciosa Wilhemena "Willy" Novinsky, não há linguagem mais sedutora do que a presente em uma boa partida de tênis. Como uma jogadora profissional, Willy dedica todas as suas forças a alcançar o famoso ranking dos 100 melhores da elite tenista, um objetivo que moldou as suas escolhas de vida desde que descobriu o seu maior sonho quando ainda jogava descompromissadamente no quintal de casa. Mas quando conhece Eric Oberdorf, Willy mal pode acreditar que exista um homem mais adequado para compartilhar o seu estilo de vida. Eric é um charmoso aspirante a tenista profissional, embalado com a inteligência aguçada de um recém-formado em Matemática. Se o tênis já não preenchesse o cargo, Eric provavelmente seria a sua alma gêmea. No entanto, Eric logo começa a mostrar que a sua habilidade está muito acima do esperado... Poderia um relacionamento sobreviver a pura e simples competição de egos?

Ler Dupla Falta foi uma experiência angustiante. Irritante. Talvez até desgostosa em alguns momentos. Digo isto porque eu me senti incrivelmente afastado da senhorita Novinsky, que simplesmente é uma mulher metida a besta demais pro meu gosto (pronto, falei!). No entanto, a minha falta de identificação com os sentimentos da personagem não é exatamente um ponto negativo; apesar do meu desgosto com a atitude egocêntrica e os insuportáveis mimimis que aparecem aqui e ali (Eric não é uma das pessoas agradáveis de se lidar com a sua necessidade em ser bom em tudo, mas há horas que você não a-g-u-e-n-t-a mais os ataques de estrelismo de Willy!), a protagonista consegue ser interessante, até pela próprio impacto de suas reações diante dos problemas que enfrenta durante as reviravoltas da trama. Só para você ter uma ideia, vamos colocar as coisas em outra perspectiva:

"O seu sonho é ser uma tenista. Desde os seis anos de idade, você treina todos os dias incansavelmente para um dia ser a melhor atleta possível, apesar das inúmeras barreiras no caminho. E os obstáculos não são poucos: Seus pais sempre foram contra, a concorrência é alta e o campo profissional esportivo ainda é entupido de machismo. Mas você consegue se destacar a ponto de entrar em uma escola de prestígio através de uma bolsa (!) e ainda com o auxílio especializado de um dos melhores treinador na área (!!). Ai quando você decide aliviar a pressão, deixa o mundo do jogo pela primeira vez e se permite tentar o amor para variar... Este alguém cresce ao seu lado e começa a se tornar.... Melhor que você."

Com certeza, isto é, no mínimo, frustrante.

Através deste exercício de "colocar sob perspectiva", até consigo entender um pouco mais da visão da personagem. Mesmo sendo difícil admitir o quanto todos nós somos um pouco egoístas quando se fala em perseguir os nossos maiores sonhos, dar a chance para uma leitura deste tipo ajuda, e MUITO, em aceitar a ideia de que sim, nós também somos uma Willy de vez em quando (ok, algumas pessoas são com mais frequência, HAHA). Por isto, mesmo que não seja o livro mais impactante da autora, Dupla Falta nos satisfaz com mais uma história corrosiva que provavelmente não vai sair da sua cabeça por um bom tempo. Deus sabe que até o meu namorado ficou chocado quando eu contei o final pra ele...