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Ano passado tive a oportunidade incrível de visitar a Bienal do Livro no Rio de Janeiro (rolou até um post por aqui, lembram?). Dentre as várias atrações do evento, eu pude pegar um autógrafo com a Emily Giffin, fazer uma sessão de fotos no trono de Game of Thrones, me deslumbrar com a decoração magnífica dos stands e ainda folhear muitos e muitos livros. Resumindo: Uma das experiências mais divertidas que já tive. Este ano a Bienal do Livro será em São Paulo e a Editora Intrínseca tem uma surpresa para os seus leitores de todo o Brasil. Que tal ganhar uma viagem para São Paulo para participar do encontro de blogueiros da Bienal do Livro?


#Morto
Sim, isto não é um sonho! O concurso cultural "Minha Experiência com a Intrínseca" levará cinco ganhadores de cada região do país (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste, Sul) para São Paulo, com direito a passagens e hospedagens para participar do maior evento literário anual. Cada ganhador terá direito a levar consigo um acompanhante e ainda poderá participar do encontro de blogueiros da 23º Bienal do Livro SP. Então nem pense em deixar este presente dos deuses passar batido, minha gente!

Para participar, tudo que você precisa fazer é gravar um vídeo de 1 minuto com o tema "Minha Experiência com a Intrínseca" e mandar para este site aqui. A ideia para o vídeo é bem simples: Você pode falar sobre os seus livros favoritos, contar alguma história pessoal, relatar a sua experiência com a Turnê da editora... Seja criativo!

Mais informações sobre o regulamento? Clique aqui para acessar o site da Intrínseca e descobrir tudo sobre este concurso maravilhoso. Mas não perde tempo que é só até o dia 28, viu?


Fonte: Blue Sun Games 

Faz um tempo que eu deixei esta coluna nas mãos do Natan, mas se ele me permite, vou pegá-la emprestada para uma pequena, pero valiosa, adição ao nosso querido Hall de Dignidade Literária dos Jogos (de onde diabos eu tiro essas coisas...). Em uma mistura de paranormalidade, Dr. Frankenstein e o filme O Grande Truque, a coluna de hoje veio para mostrar a verdadeira magia dos adventure games. 

Acredito que se existe um gênero no universo gamer que sempre investe em boas histórias é o Adventure,  um ramo que teve o seu auge na década de 90 e, infelizmente, quase desapareceu do mapa nos últimos anos. Por isto, como o fã que sou deste nicho, acho super justo abrir um espaço nesta coluna para apresentá-los ao misterioso Gray Matter, uma recente jóia dos jogos de aventura point and click que poderia facilmente fazer parte da sua estante. Quem está afim de um mistério?



Como sempre fui apaixonado pelo gênero, Gray Matter logo chamou minha atenção quando entrou no acervo do Steam (uma plataforma de compra, venda e gerenciamento de games super em conta) e, tchamtchararam, com 20% de desconto na semana de lançamento. Assim como The Cat Lady, o jogo já se apresentava como um daqueles mistérios sobrenaturais cheio de quebra-cabeças e perguntas sem resposta, mas com uma curiosa peculiaridade; debater crenças sobrenaturais utilizando o universo da neurobiologia e dos truques de mágica.

Imagine o quanto fiquei surpreso ao ver um pequeno game indie partir de uma visão tão inexplorada sobre a morte - afinal, normalmente quando se fala em histórias de fantasmas sempre se escolhe o caminho fácil das explicações místicas e religiosas - e conseguir desenrolar uma história interessante E crível. Claro que eu não sou nenhum expert nos estudos sobre telecinésia e eventos paranormais (acho que filmes de terror não conta como material de pesquisa, snif), mas se tem uma coisa que Gray Matter conseguiu foi me fazer refletir sobre o potencial desconhecido do cérebro humano (este spoiler só sera capturado para quem realmente sabe o que é Gray Matter). Mas bem, deixa eu cortar essa babação de ovo que o jogo presta demais para eu não falar dele!

Gray Matter é um jogo de 2011 da renomada designer Jane Jensen (conhecida pela série Gabrel Knight). Sua trama nos apresenta a aprendiz de mágica (pelo menos eu ~acho~ que o feminino de mágico é mágica) mochileira errante e ex-gótica (... eu juro que o jogo é bom!) Samantha Everett, uma curiosa garota que tem como objetivo de vida viajar pelos vários cantos do mundo como se não houvesse amanhã. Porém, em uma fatídica noite, sua moto acaba enguiçando, o que obriga a protagonista a procurar por um refúgio. E claro que, de todos os lugares do mundo, ela bate de frente com uma mansão enorme e super assombrosa que eu preferiria dormir no relento da noite do que ter que sequer pensar em tocar naquela porta.

Mas tudo bem, vamos desconsiderar a sanidade mental da garota. Sam é recebida por uma agradável velhinha, a Sra. Dalton, que acaba a confundindo com uma suposta universitária que estaria chegando naquela noite para preencher o cargo de secretária do proprietário da casa. Sam, que de boba não tem nada, logo assume o papel que lhe foi dado, aproveitando da hospitalidade que tanto lhe viria a calhar naquela noite fria.  Porém, na manhã seguinte, Sam logo descobre que o seu novo patrão nada mais é do que o misterioso neurobiólogo David Styles, que precisa urgentemente que sua nova escrava empregada arranje "seis cobaias" na universidade para o seu "novo experimento". Um pedido super normal e saudável.


Samantha Everett.
David Styles.


E é a partir daí que tomamos controle do jogo, alternando entre a Samantha e o Doutor Styles para desvendar este novo e estranho relacionamento entre os dois. Do lado de Sam, somos levados a explorar o mundo universitário e a acompanhar a sua caça ao tesouro ao clube secreto Deadalus Club, um grupo fechado e sigiloso de mágicos profissionais. Já David se mantém boa parte do tempo enclausurado em sua mansão, na qual precisamos ajudá-lo a completar suas pesquisas científicas e descobrir uma forma de reencontrar a sua falecida esposa.

Por mais previsível que seja a história do cientista que "procura incansavelmente entender a morte de seu amor perdido de uma forma racional", este jogo não transita no lugar comum. David é um personagem teimoso, arredio, quase frio, que questiona a si mesmo o tempo todo se vale a pena perseguir uma pesquisa que se afasta TANTO do que realmente é comprovado cientificamente... Mas ainda assim, crê e luta pela existência de um universo sobrenatural. Ao mesmo tempo, Sam e a sua dedicação pelo mundo mágico estranhamente contradiz com os questionamentos de Styles, até porque toda mágica tem um truque realístico - por mais desanimador que isto seja - e enquanto Styles procura o irreal na sua realidade, Sam busca exatamente o contrário.

 Como um jogo de mistério, Gray Matter é um prato cheio para aquele friozinho na barriga de ~suspense no ar~. O ritmo às vezes lento, às vezes rápido funciona perfeitamente, principalmente por nos deixar ansiosos se os mistérios tem motivos palpáveis ou se há mesmo algo místico na história. Acho que uma coisa que sempre me irrita (sempre não, porque com certeza é algo perdoável em alguns casos) em histórias sobrenaturais é o quão os personagens aceitam que aquele "fantasminha camarada falando com você" é algo "ok", e em Gray Matter, graças a deus, isso non ecxiste. E, ironicamente, deixa a fantasia ainda mais acreditável!

No mais, poucos são os detalhes que ficaram abaixo das minhas expectativas. Os personagens são carismáticos (principalmente Sam e os estudantes de Edmund Hall), os cenários são lindos e a jogabilidade, para um point and click, é bem acima da média.  Uma ideia divertida foi a utilização de truques de mágica para solucionar puzzles, de maneira que você de vez em quando vai ter que parar na lojinha de instrumentos mágicos na cidade para "manter o estoque de "parafernálias mágicas".Talvez o sistema fique cansativo com o decorrer do jogo, mas sinceramente, eu achei a ideia bem cuidadosa (gosto quando um jogo parece ter sido planejado em todos os mínimos detalhes).

Um dos meus cenários preferidos.
Além disso, devo abrir um parênteses para algumas escolhas tristes de dublagem. Senti alguns atores beeeeem forçadinhos (Helena e Angela, sorry), mas como tenho um bom coração, consegui relevar por ser um jogo indie. Ainda assim, para tentar melhorar a parte sonora da obra, a trilha sonora de Gray Matter é maravilhosa! Sério, hands down! Até baixei essa música deliciosa do The Scarlet Furies, que toca sempre no menu e é o teminha da Sam. <3


 

Qualquer pessoa que acompanha os meus posts com uma mínima assiduidade sabe que eu sou um puxa-saco enrustido de Lionel Shriver. Digo isso porque este já é o terceiro livro da autora que apresento no Escolhendo Livros e, como se ainda houvesse dúvidas da minha parte, Dupla Falta foi mais um tapa na cara que eu não me arrependo de ter levado (e admito que estou escrevendo isto com um sorrisinho sacana de um típico fã orgulhoso estampado no rosto). Da primeira vez, foi a ousadia macabra de Precisamos Falar Sobre o Kevin que me deixou embasbacado; na segunda, o irônico poder das tomadas de decisão recorrentes na vida, descrito acidamente em O Mundo-Pós Aniversário; agora, Dupla Falta coloca em foco uma das facetas mais mesquinhas e nauseantes que o ser humano tem a coragem de possuir.... Talvez este tenha sido o livro de Shriver mais difícil de tragar.

Sets, games, aces e match points. Para a ambiciosa Wilhemena "Willy" Novinsky, não há linguagem mais sedutora do que a presente em uma boa partida de tênis. Como uma jogadora profissional, Willy dedica todas as suas forças a alcançar o famoso ranking dos 100 melhores da elite tenista, um objetivo que moldou as suas escolhas de vida desde que descobriu o seu maior sonho quando ainda jogava descompromissadamente no quintal de casa. Mas quando conhece Eric Oberdorf, Willy mal pode acreditar que exista um homem mais adequado para compartilhar o seu estilo de vida. Eric é um charmoso aspirante a tenista profissional, embalado com a inteligência aguçada de um recém-formado em Matemática. Se o tênis já não preenchesse o cargo, Eric provavelmente seria a sua alma gêmea. No entanto, Eric logo começa a mostrar que a sua habilidade está muito acima do esperado... Poderia um relacionamento sobreviver a pura e simples competição de egos?

Ler Dupla Falta foi uma experiência angustiante. Irritante. Talvez até desgostosa em alguns momentos. Digo isto porque eu me senti incrivelmente afastado da senhorita Novinsky, que simplesmente é uma mulher metida a besta demais pro meu gosto (pronto, falei!). No entanto, a minha falta de identificação com os sentimentos da personagem não é exatamente um ponto negativo; apesar do meu desgosto com a atitude egocêntrica e os insuportáveis mimimis que aparecem aqui e ali (Eric não é uma das pessoas agradáveis de se lidar com a sua necessidade em ser bom em tudo, mas há horas que você não a-g-u-e-n-t-a mais os ataques de estrelismo de Willy!), a protagonista consegue ser interessante, até pela próprio impacto de suas reações diante dos problemas que enfrenta durante as reviravoltas da trama. Só para você ter uma ideia, vamos colocar as coisas em outra perspectiva:

"O seu sonho é ser uma tenista. Desde os seis anos de idade, você treina todos os dias incansavelmente para um dia ser a melhor atleta possível, apesar das inúmeras barreiras no caminho. E os obstáculos não são poucos: Seus pais sempre foram contra, a concorrência é alta e o campo profissional esportivo ainda é entupido de machismo. Mas você consegue se destacar a ponto de entrar em uma escola de prestígio através de uma bolsa (!) e ainda com o auxílio especializado de um dos melhores treinador na área (!!). Ai quando você decide aliviar a pressão, deixa o mundo do jogo pela primeira vez e se permite tentar o amor para variar... Este alguém cresce ao seu lado e começa a se tornar.... Melhor que você."

Com certeza, isto é, no mínimo, frustrante.

Através deste exercício de "colocar sob perspectiva", até consigo entender um pouco mais da visão da personagem. Mesmo sendo difícil admitir o quanto todos nós somos um pouco egoístas quando se fala em perseguir os nossos maiores sonhos, dar a chance para uma leitura deste tipo ajuda, e MUITO, em aceitar a ideia de que sim, nós também somos uma Willy de vez em quando (ok, algumas pessoas são com mais frequência, HAHA). Por isto, mesmo que não seja o livro mais impactante da autora, Dupla Falta nos satisfaz com mais uma história corrosiva que provavelmente não vai sair da sua cabeça por um bom tempo. Deus sabe que até o meu namorado ficou chocado quando eu contei o final pra ele...


Aproveitar o sábado nem sempre significa se preparar para os embalos da noite! Se sair de casa não está nos seus planos, que tal se deliciar com um adorável conto de fantasia para aquecer o seu final de semana? Hoje trazemos para você o singelo O Elfo Triste, mais um conto da Laísa Couto feito especialmente para o nosso EL. Apresento-lhes com muito carinho, Lufelor!


O Elfo Triste
                                  por Laísa Couto

Numa terra longínqua, muito além do Mar do Leste, vivia um povo que outrora fora muito feliz. Lá, nas Terras Remotas esse povo não via mais a alegria do Sol, pois sempre era noite de um escuro sem estrelas, acompanhada por uma Lua pálida e solitária. Nas bordas distantes do mundo, as boas lembranças dos tempos antigos nunca foram esquecidas, mas era doloroso lembrá-las, o coração sentia o vazio do tempo que nunca passava e a saudade que nunca cessava. 


Nas Terras Remotas viviam os elfos que um dia foram expulsos do seu verdadeiro lar. Era um preço a ser pago por um mal acometido, porém pouco se fala do passado obscuro, o sentimento ruim das más lembranças invadia alma e corroia o coração. Infelizes viviam, sonhando com o dia que voltariam ao Lar Distante, depois que o erro de seus antepassados fosse totalmente perdido no tempo... 

Sentado no alto de uma encosta de um monte virado para o imenso mar intransponível, estava um pequeno elfo, solitário e pensativo, era Lufelor. O seu olhar se perdia no limite do horizonte com um desejo de poder ultrapassá-lo e finalmente conhecer a bela terra da qual seu povo falava. Ouvira dizer sobre as florestas cheias de segredos e campos intermináveis, tudo sempre brilhava a luz do Sol, que o pequeno elfo não conhecia. Perguntava-se se na sua longa existência veria toda a maravilha do Lar Distante, a terra dos grandes reis élficos que padeceram na Discórdia levando seu povo a um vácuo no tempo, onde nada passa, nada muda. 


Lufelor sentia que ainda poderia voltar e no seu intimo sempre cultivava a esperança que guardava no coração cheio de boas estórias do passado. No entanto, o sentimento que mais conhecia naquele mundo sombrio era a tristeza e todo o povo dos elfos compartilhava dela, pois as lembranças do Lar Distante o tempo nunca foi capaz de apagar, os envolvia como uma névoa densa e dolorosa, naquele lugar sem a presença cálida da luz. Triste assim, Lufelor vivia, perdido nos devaneios que cantarolavam doces notas vindas de uma terra desconhecida, onde um dia fora nascente daquela civilização encantada, que como um rio límpido e luminoso como as estrelas, transbordou nos mares do vasto mundo. O menino elfo, desde muito pequeno aprendera sua tradição, sabia da cada letra, cada palavra, cada verso de canções e estórias. Da palavra sábia dos mais velhos ouvira dizer sobre leis que outrora foram desobedecidas e que levaram seu povo à ruína do tempo perdido.

O elfo triste ficava a sonhar, desejando um futuro que não sabia se viria ou veria no tempo que não tinha resquícios do passado, a certeza do presente e nem a esperança do futuro. Lufelor só tinha uma certeza nesses dias que parecia ser sempre o mesmo – sentaria na beira da encosta e contemplaria o mar negro e sua esposa, a Lua, que refletia sua face pálida no espelho escuro, reservando para si os segredos que o vento trazia do horizonte além. 


Não havia ninguém que lhe trouxesse uma palavra de consolo, pois todos estavam mergulhados no sofrimento dos dias eternos. Como suportavam a saudade do Lar Distante? Não havia resposta para tal questão. Era insuportável a falta do Sol, dos rios caudalosos, dos mares cálidos, das montanhas altivas, das florestas douradas e das criaturas amigas. Viviam numa terra onde as árvores eram vultos e os animais eram ilusórios, fazendo o mundo parecer um vazio infinito. 


Fim. 


Entrevistamos a autora da série "O Castelo das Águias" e organizadora de "Excalibur", dois livros já comentados aqui antes, além de organizar livros como "Meu Amor é um Sobrevivente" e "Bestiário" e ser autora de "O Caçador". Ana revela os segredos de seu mundo mágico e fala um pouco de sua vida e profissão. Após o pulo, conheçam um pouco mais da obra e vida dessa maravilhosa escritora!




1 - Em O Castelo das Águias, o leitor conhece Athelgard, o mundo mágico que cerca Anna, a protagonista. Não apenas nesse livro, mas em diversos contos espalhados no blog do livro, em e-books e até antologias, nos damos por conta da magnitude dessas terras mágicas. De onde surgiu a inspiração para esse lugar? O que é Athelgard?

R: Athelgard se construiu aos poucos a partir das várias cidades, florestas, territórios em que se passavam minhas histórias. A tribo da Anna por exemplo existiu antes de Athelgard, assim como Pwilrie, a terra do Cyprien. Como eu sempre gostei de fazer os personagens das histórias se encontrarem, acabei juntando todos eles na ilha, que é uma espécie de continente único desse mundo fantástico (até onde se sabe). Para isso, tive que tornar o universo coerente - e daí foi surgindo a mitologia, a ideia da origem comum, algumas respostas para haver povos e culturas diferentes.

2 - E a religião? Como ela é no universo de O Castelo das Águias?

R: Os elfos brilhantes acreditam em algo além da matéria e acreditam em Magia, mas não em divindades. Os magos humanos costumam ser assim também, mas há exceções como o Padraig, que é devoto de Thonarr. Este, assim como Woden, Aegir e outros, é um dos Heróis cultuados pelos homens, em quase toda a ilha, desde o início, mas há alguns séculos surgiu uma religião monoteísta (o Templo) que afirma haver um Deus que é como se fosse um "superior" desses Heróis; não os renega, pelo contrário, mas os coloca mais ou menos na posição em que estão os santos cristãos, intervindo em alguns casos mas subordinados a esse poder maior. E tem as tribos de elfos, que seguem mais o modelo xamânico.

Capa do segundo livro da série,
 já em pré-venda aqui.
3 - O Castelo das Águias é um livro que mostra, em um de seus vários contextos, uma ideologia feminista. Há machismo em Athelgard, mas, em até que ponto ele existe? Vemos que esse assunto é tratado com certa sutileza e cuidado. Qual o motivo de inserir esse assunto no romance? Você se consideraria feminista?
R: Sim, me considero, mas não afirmo isso a todo momento. Acho que a preocupação com a igualdade entre sexos, os direitos humanos, a liberdade individual, tudo isso transparece em meus livros de várias formas, e pretendo que leve os leitores a refletirem, mas não de forma panfletária nem didática (não esquecendo que escrevo para um público mais novo). Meus personagens (os heróis) se posicionam claramente contra a violência, mas tenho a preocupação de fazê-los coerentes com seu tempo e situação. Por exemplo, o Kieran abomina quem bate numa mulher, mas acha natural que, como homem, seja ele a dar a última palavra no casamento. E a Anna, que cresceu com elfos (os quais praticam a igualdade entre sexos) , responde que ela pode ouvir as razões dele, mas não tem que obedecê-lo. Tudo de forma que considero coerente com o cenário e com as personalidades de ambos. 

4 – O Castelo das Águias, cenário que dá nome ao primeiro livro, é um lugar cheio de magia e mistério, e os professores da escola são bastante característicos, sem contar com as suas matérias – que incluem até música. Fica claro que todos são complexos e cada um tem um papel importante na trama. Existem planos de escrever sobre alguns desses personagens secundários?

R: Sim, o Urien já protagoniza um conto disponível na Amazon (Um Estranho Equinócio) e com o tempo alguns dos outros devem aparecer em spinoffs também. Rydel terá papel de destaque, pois através dele quero trabalhar com a questão da homoafetividade, um tema que acho muito importante e acabou ficando de fora do primeiro livro. E a Lara será mostrada no passado, ao longo do seu casamento com Hillias, um tema que voltará a aparecer no terceiro livro da saga.

Outro personagem de destaque, embora não seja professor, é o Conselheiro Thorold, cuja história pregressa está na novela Saga de Thorold, disponível em e-book na Amazon.com.br.

5 – Quando você decidiu virar escritora?

R: Sempre quis, desde que me entendo por gente, mas acho que a ideia de me profissionalizar surgiu por volta de 1995, quando finalmente concluí meu primeiro livro (a primeira versão de O Caçador, hoje publicado pela Franco Editora). Hoje é uma carreira paralela - trabalho na Biblioteca Nacional - mas, depois que me aposentar, pretendo me dedicar com ainda mais afinco, além de retomar as atividades de mediação de leitura e contação de histórias que são outra grande paixão.

6 – Quais projetos se seguem depois da publicação do primeiro livro?

R: livros, novos contos... O próximo romance da série que começou com O Castelo das Águias deve sair lá para 2016.

7 – Se pudesse tornar um personagem de O Castelo das Águias em uma pessoa real, qual seria? E por que?

Seria a Anna de Bryke, acho uma personagem muito legal e que tem muito ainda para crescer - e para partilhar em termos de histórias, conhecimentos e boas mensagens.

8 - Você organizou coletâneas de contos em projetos como Excalibur (Draco) e Bestiário (Ornitorrinco), ambos com uma qualidade, na minha opinião, muito boa. Com é, para você, trabalhar com isso? Há algo além da escrita que te motiva? Existem mais projetos do tipo previstos?

R: Eu gostei muito da experiência de organizar coletâneas. Uma diferença importante entre os Bestiários e Excalibur (e Meu Amor é um Sobrevivente, que venho de organizar), é que as duas primeiras tinham autores convidados e temas previamente combinados (cada autor falava de uma criatura fantástica), então eu e a Ana Cristina Rodrigues não tivemos problema com repetição de temas e garantimos de antemão a qualidade, tendo que interferir muito pouco nos contos (porque sempre se pode sugerir uma alteração para melhor, mesmo com textos e escritores excelentes). Já nas duas da Draco, foi preciso escolher dentro do que recebemos, não apenas os contos mais bem escritos e originais, mas também aqueles que formassem juntos um livro bem equilibrado e harmonioso. Em Excalibur eu tive muitos contos sobre Lancelote, mas a variedade de gêneros e enfoques deu uma compensada na repetição do tema. Em Sobrevivente, eu e Janaína Chervezan pusemos mais contos de zumbis do que gostaríamos, mas mesmo assim creio que chegamos a um bom resultado. Acho que um bom organizador se preocupa fundamentalmente com esse equilíbrio, com fornecer variações aprazíveis sobre o mesmo tema, com alternar contos mais ágeis e outros narrativos. Não que os bons textos não sejam fundamentais, claro que são, e nesse ponto sempre tive sorte, mas a organização vai além de escolher os melhores - e passa, necessariamente, por saber como trabalhar com aquilo que se recebe.

9 - Em Excalibur seu conto se destaca por não manter a linha narrativa e dos fatos focada na história do rei Arthur, guerras ou intrigas políticas. "A Dama da Floresta" é mais sutil, com um toque onírico. Em um clima mágico e cheio de mistérios, vemos um lado diferente das lendas apresentadas normalmente. Como foi escrever esse conto? 

R: É comum da editora Draco postarmos sobre a construção de nossos textos em seu blog. Você pode ler sobre esse conto específico nesse link.

10 – Nós sabemos que você é bibliotecária. Quais livros foram as maiores inspirações para sua história?

Embora meu livro preferido seja "A História Sem Fim", de Michael Ende, acho que foi a série "Earthsea", da Ursula le Guin, que forneceu mais inspiração para essa série do Castelo. A HQ "Elfquest", de Wendy e Richard Pini, também. Por fim, "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley, pela ambientação e por algumas situações.

11 – O que você acha do avanço da literatura fantástica no mercado brasileiro?

R: Só posso achar ótimo e torcer para que conquistemos mais espaço e novos leitores que não sejam sempre os mesmos do fandom (grupo de pessoas que gosta de fantasia e ficção científica). E acho que a litfan voltada para crianças e jovens pode ter um papel importantíssimo nisso, pois as escolas, no Brasil, são o lugar onde mais circulam livros e se dissemina literatura.

12 – O que você deixa de dica para aqueles que querem ser escritores? 

R: Que leiam o mais que puderem, gêneros variados; que escrevam o tipo de história que gostam de ler; que revisem, reescrevam, pesquisem, estudem; que se orgulhem do que fazem, mas sejam humildes ao reconhecer erros e problemas; que saibam lidar com críticas e rejeições e sejam educados se tiverem de rebater alguma mais ofensiva (pois há uma grande diferença entre criticar e ofender, e aceitar crítica não é o mesmo que engolir sapo!); que tenham uma boa noção de como se dirigir a leitores críticos e editores; que não desistam, mesmo que ouçam muito não, pois ninguém é dono da verdade nem pode gostar de tudo; por fim, e que se divirtam, pois a gente rala tanto para conseguir terminar os textos que é preciso contrabalançar isso com muito prazer e alegria na hora em que os escrevemos! :)

É...

Depois de ler e escrever a resenha do bíblico Olho do Mundo, cá estou eu para falar sobre outro titã literário: Sob a Redoma. E por incrível que pareça, Estefano Rei, também conhecido como "O Senhor dos Finais Cagados", conseguiu me manter empolgado até a última das quase MIL PÁGINAS (por que eu faço isso comigo mesmo?).

Para aqueles que despacharam as malas para o voo errado, Sob a Redoma é um romance de um dos escritores mais ativos da atualidade, Stephen King (sério, esse homem já publicou e vendeu tanto livro que se ele não estiver milionário, não sei mais no que acreditar). Foi publicado em 2009 mas a produção dele começou nos longínquos anos 70. Entretanto, só escreveu menos de 80 páginas nessa época e não conseguiu passar daí. Como não sabia o que fazer, o projeto acabou indo pro congelador e só sendo lançado mais de 30 anos depois.

Springfield que se cuide.
A história começa quando uma redoma de material não identificado, que ninguém consegue ver, só sentir, desce (sim, ela desce, beeeeeeem devagarinho) sobre uma cidadezinha do Maine, chamada Chester's Mill. Com a cidade isolada do resto do mundo, os moradores que estavam dentro dela no momento que a tampa desce ficam sem saber o que fazer e aprontam altas confusões. Pronto, é isso.

Esse livro é mais um objeto de entretenimento que tenta mostrar como a sociedade reage a uma situação de crise extrema, mas numa escala menor e mais controlável do que um apocalipse global. Nesse pequeno ambiente, o autor cria intrigas políticas coerentes, guerras de poder e consegue desenvolver muito bem cada aspecto da loucura crescente do grupo de habitantes dentro da redoma.

Vale dizer que essa história poderia virar uma novela da Globo sem problema nenhum. São tantos os personagens ativos da trama que você, querido leitor, querida leitora, vai se perder. Felizmente, sr. King colocou nas primeiras páginas do livro um pequeno guia de personalidades importantes da cidade, para ajudar a manter o leitor na trilha certa, sabendo quem é quem.

E não é só isso. O livro é todo dividido em partes pequenas. Ele possui capítulos (enormes...) como qualquer outro livro, mas esses capítulos são aglomerados de blocos de texto que por vezes não duram nem uma página. Isso é ótimo pro leitor casa-trabalho (como eu).

Tampando o bolinho.

Eu não quero e nem vou falar mais nada porque tudo que eu disser será um spoiler. Uma coisa que eu gostei desse livro é que ele possui twists o tempo todo. E todos eles são memoráveis. E o escritor não tem pena dos personagens e nem do meio ambiente. O importante é manter as curvas da trama o mais emocionantes possíveis (George R. R. Martin aprova).

Enfim, história envolvente, personagens carismáticos, (apesar de muitos, você consegue gostar de pelo menos algum aspecto de cada um deles), situações familiares mas bem orquestradas e muita política (mas não se engane, isso não é The West Wing). Só não tem a vaca cortada do seriado, só uma marmota (risos).

Desculpas pra quem queria ler a vaca sendo cortada.






Boa tarde, gentes

Tudo bem? Então tá bom. Como vai essa vida? Tudo nos conformes, como sempre? Aqui também, tirando o sono etc. Esse negócio de entrar de férias e trocar o dia pela noite é complicado, porque depois pra regular o relógio biológico de novo é um parto. Mas vamo seguindo, vamo fazendo.

Pessoal, hoje venho a este site de família trazer um jogo que descobri recentemente e, olha, fiquei de. queixo. caído. com a história. Vamos cortar o papo introdutório e ir direto pro que interessa.

Muito que bem. Dia desses eu estava zanzando pelo YouTube e fui visitar o canal do Zangado, no qual eu sou inscrito. Quem curte jogos geralmente o conhece; acho que ele é um dos maiores canais desse ramo no Brasil. Tem uma seção no canal que se chama “Vale ou não a pena jogar”, e o jogo da vez numa dessas semanas foi The Cat Lady.


Essa expressão, traduzida livremente como “a mulher dos gatos”, é utilizada pra falar daquelas mulheres que, por um motivo qualquer, acumulam gatos em casa e acabam ficando conhecidas como “a mulher dos gatos”. No jogo, não é exatamenteassim que isso acontece, mas a personagem principal, Susan Ashworth, alimenta gatos das redondezas e eles acabam meio que fazendo parte da vida dela. Mas o papel dos gatos na história é mínimo, o que importa mesmo é o background e tudo.

Susan é uma mulher extremamente solitária e o jogo começa com uma nota de suicídio. Da própria Susan. Ou seja: o jogo começa com ela... morta. Achei estranhíssimo quando percebi isso, mas, na nota, Susan explica que decidiu dar cabo da própria vida porque já não tinha mais motivos pra viver, porque ela não lidava bem com pessoas e por isso era hora de morrer. Então ela toma algumas dezenas de tarja preta e puft, morre. O problema é que ela não moooorre morre mesmo, de morte morrida: ela vai parar em um lugar que é como um limbo, um entre-céu-e-inferno, e, nesse lugar, ela encontra uma mulher; uma velha que se auto-intitula “A Rainha dos Vermes”. Essa velha não se revela nem como Deus, nem como o diabo, nem como a personificação de um sentimento nem nada: ela só diz que o que se encaixa melhor é Rainha dos Vermes. E, nesse mundo em que elas estão, que parece um campo de centeio (sdds Catcher in the Rye), Susan encontra o próprio cadáver em diversos lugares e começa a se questionar que lugar é aquele e se ela está realmente morta. Então a velha diz que sim e blá blá blá (o jogo tem MUITOS diálogos; todos enormes) e que Susan está ali porque a velha tem uma missão a ela: voltar ao mundo dos vivos e matar cinco pessoas, cinco vermesque não merecem estar vivos, e que Susan é a única que pode fazer isso.

Susan Ashworth
Aí é o princípio de tudo. Susan é uma mulher que está afundada em depressão e, por isso, se julga fraca e incapaz de fazer qualquer coisa, especialmente matar uma pessoa (quanto mais cinco!). Mas a velha acaba a convencendo de que isso deve ser feito e, para garantir que Susan vai suceder em sua missão, ela a abençoa com a imortalidade. Então, Susan acorda em uma cama de hospital. Ou seja: os tarja preta que ela tomou não a mataram, só a desmaiaram e ela foi socorrida a tempo (por uma personagem que depois se torna peça importantíssima no jogo, mas não vou contar pra não spoilar). Sem saber se tudo foi um sonho ou não, Susan fica um tanto atordoada, mas logo as coisas levam a crer que a velha falava a verdade e que não era nada de sonho.

O jogo foi produzido de forma independente, não sei se já comentei. O formato é um tanto estranho: acontece em 2D, no estilo sidescroller, tipo Mario, e tudo funciona na base da resolução de puzzles. Por exemplo: Susan está no hospital e precisa dar um jeito de sair; então ela precisa convencer uma interna a trocar de pulseira com ela, pegar o prontuário dessa interna — não sem antes, claro, dar um jeito de tirar a recepcionista do balcão pra poder pegar esse documento na surdina — mostrar os documentos aos seguranças pra eles liberarem a passagem e, só depois de resolver isso tudo, fugir dali. Os puzzles são MUITO difíceis, às vezes, porque eles não dão dicas de nada: quem não tiver bons neurônios se perde facilmente. A ambientação do jogo é, na maior parte, preto e branco, com gráficos bem rústicos e realce de cores importantes, como vermelho, já que o jogo tem sangue por toda parte. E a trilha sonora também é um espetáculo à parte.

"The River"
Mas o que mais me chamou atenção no jogo, e é a parte que justifica transformá-lo num livro, são duas coisas: primeiro, a ambientação impecável. Chove na maior parte do tempo, a solidão de Susan é quase tangível, o prédio em que ela mora também é praticamente um edifício-pós-apocalíptico, essa simbologia que envolve gatos... Tudo tem um quê de gótico que eu acho que Poe traduziria muito bem. Falando nele, em alguns momentos o jogo me lembra A Queda da Casa de Usher e todo aquele ambiente sombrio da casa. Também associei a Alegria Breve (livro que já comentei aqui), de Vergílio Ferreira, em que o protagonista está completamente sozinho em um vilarejo, acompanhado apenas de seu cachorro Médor. E a segunda coisa que me chamou atenção: os diálogos. Quem escreveu esses diálogos (que são longos e muitos) tem minha estrelinha de fã. A linguagem é simples, tem até bastantes “fucking”, “bitch” e outros termos chulos inclusos, mas é um texto muito rico, natural. Acho que construir um diálogo verossímil, maduro, que não soe robótico ou artificial é uma parte difícil da construção de um texto, seja ele literário ou não, e por isso digo que o responsável pelo texto do jogo (que renderia um livro só pela extensão) está ó, de parabéns. E tem, ainda, a coisa do Realismo Fantástico: não dá pra saber se o que passa na mente da Susan é simplesmente coisa da cabeça dela, ou se foi uma representação mental da realidade, ou se foi um sonho, ou se a Rainha dos Vermes realmente existe... Fica tudo dúbio em alguns aspectos. Pra quem quiser saber mais sobre Realismo Fantástico, escrevi aqui no site, também, sobre Astrícia, uma obra brasileira que aborda o fantástico de forma bem interessante.

Pra quem curte jogos no PC e tem um domínio razoável de Inglês, eu super recomendo. O jogo pode ser baixado pelo site da Steam (aqui) e custa menos de R$17. Vale a pena comprar. Deixo, abaixo, o trailer oficial do jogo e um poema que é citado no início, que eu também achei lindinho, apesar do tema. E assim eu me despeço. Tenham todos uma boa semana e cuidem bem dos seus gatos. Até mais!

River
(Agnieszka Surygala)

Standing by the river I wonder,
do I need a stone?
No...my heart is heavy enough.
It will drag me down for sure.
Standing by the river I smile,
will I miss it all?
No...I'll be glad to leave it behind,
and never come back.
Standing by the river I close my eyes.
One jump and I'm there.
No...someone jumped after me.
He will never be my friend.
Standing by the river I'm thinking,
will I jump again?
No...behind the closed doors
I have fallen in love with the razor