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Entrevistamos a autora da série "O Castelo das Águias" e organizadora de "Excalibur", dois livros já comentados aqui antes, além de organizar livros como "Meu Amor é um Sobrevivente" e "Bestiário" e ser autora de "O Caçador". Ana revela os segredos de seu mundo mágico e fala um pouco de sua vida e profissão. Após o pulo, conheçam um pouco mais da obra e vida dessa maravilhosa escritora!




1 - Em O Castelo das Águias, o leitor conhece Athelgard, o mundo mágico que cerca Anna, a protagonista. Não apenas nesse livro, mas em diversos contos espalhados no blog do livro, em e-books e até antologias, nos damos por conta da magnitude dessas terras mágicas. De onde surgiu a inspiração para esse lugar? O que é Athelgard?

R: Athelgard se construiu aos poucos a partir das várias cidades, florestas, territórios em que se passavam minhas histórias. A tribo da Anna por exemplo existiu antes de Athelgard, assim como Pwilrie, a terra do Cyprien. Como eu sempre gostei de fazer os personagens das histórias se encontrarem, acabei juntando todos eles na ilha, que é uma espécie de continente único desse mundo fantástico (até onde se sabe). Para isso, tive que tornar o universo coerente - e daí foi surgindo a mitologia, a ideia da origem comum, algumas respostas para haver povos e culturas diferentes.

2 - E a religião? Como ela é no universo de O Castelo das Águias?

R: Os elfos brilhantes acreditam em algo além da matéria e acreditam em Magia, mas não em divindades. Os magos humanos costumam ser assim também, mas há exceções como o Padraig, que é devoto de Thonarr. Este, assim como Woden, Aegir e outros, é um dos Heróis cultuados pelos homens, em quase toda a ilha, desde o início, mas há alguns séculos surgiu uma religião monoteísta (o Templo) que afirma haver um Deus que é como se fosse um "superior" desses Heróis; não os renega, pelo contrário, mas os coloca mais ou menos na posição em que estão os santos cristãos, intervindo em alguns casos mas subordinados a esse poder maior. E tem as tribos de elfos, que seguem mais o modelo xamânico.

Capa do segundo livro da série,
 já em pré-venda aqui.
3 - O Castelo das Águias é um livro que mostra, em um de seus vários contextos, uma ideologia feminista. Há machismo em Athelgard, mas, em até que ponto ele existe? Vemos que esse assunto é tratado com certa sutileza e cuidado. Qual o motivo de inserir esse assunto no romance? Você se consideraria feminista?
R: Sim, me considero, mas não afirmo isso a todo momento. Acho que a preocupação com a igualdade entre sexos, os direitos humanos, a liberdade individual, tudo isso transparece em meus livros de várias formas, e pretendo que leve os leitores a refletirem, mas não de forma panfletária nem didática (não esquecendo que escrevo para um público mais novo). Meus personagens (os heróis) se posicionam claramente contra a violência, mas tenho a preocupação de fazê-los coerentes com seu tempo e situação. Por exemplo, o Kieran abomina quem bate numa mulher, mas acha natural que, como homem, seja ele a dar a última palavra no casamento. E a Anna, que cresceu com elfos (os quais praticam a igualdade entre sexos) , responde que ela pode ouvir as razões dele, mas não tem que obedecê-lo. Tudo de forma que considero coerente com o cenário e com as personalidades de ambos. 

4 – O Castelo das Águias, cenário que dá nome ao primeiro livro, é um lugar cheio de magia e mistério, e os professores da escola são bastante característicos, sem contar com as suas matérias – que incluem até música. Fica claro que todos são complexos e cada um tem um papel importante na trama. Existem planos de escrever sobre alguns desses personagens secundários?

R: Sim, o Urien já protagoniza um conto disponível na Amazon (Um Estranho Equinócio) e com o tempo alguns dos outros devem aparecer em spinoffs também. Rydel terá papel de destaque, pois através dele quero trabalhar com a questão da homoafetividade, um tema que acho muito importante e acabou ficando de fora do primeiro livro. E a Lara será mostrada no passado, ao longo do seu casamento com Hillias, um tema que voltará a aparecer no terceiro livro da saga.

Outro personagem de destaque, embora não seja professor, é o Conselheiro Thorold, cuja história pregressa está na novela Saga de Thorold, disponível em e-book na Amazon.com.br.

5 – Quando você decidiu virar escritora?

R: Sempre quis, desde que me entendo por gente, mas acho que a ideia de me profissionalizar surgiu por volta de 1995, quando finalmente concluí meu primeiro livro (a primeira versão de O Caçador, hoje publicado pela Franco Editora). Hoje é uma carreira paralela - trabalho na Biblioteca Nacional - mas, depois que me aposentar, pretendo me dedicar com ainda mais afinco, além de retomar as atividades de mediação de leitura e contação de histórias que são outra grande paixão.

6 – Quais projetos se seguem depois da publicação do primeiro livro?

R: livros, novos contos... O próximo romance da série que começou com O Castelo das Águias deve sair lá para 2016.

7 – Se pudesse tornar um personagem de O Castelo das Águias em uma pessoa real, qual seria? E por que?

Seria a Anna de Bryke, acho uma personagem muito legal e que tem muito ainda para crescer - e para partilhar em termos de histórias, conhecimentos e boas mensagens.

8 - Você organizou coletâneas de contos em projetos como Excalibur (Draco) e Bestiário (Ornitorrinco), ambos com uma qualidade, na minha opinião, muito boa. Com é, para você, trabalhar com isso? Há algo além da escrita que te motiva? Existem mais projetos do tipo previstos?

R: Eu gostei muito da experiência de organizar coletâneas. Uma diferença importante entre os Bestiários e Excalibur (e Meu Amor é um Sobrevivente, que venho de organizar), é que as duas primeiras tinham autores convidados e temas previamente combinados (cada autor falava de uma criatura fantástica), então eu e a Ana Cristina Rodrigues não tivemos problema com repetição de temas e garantimos de antemão a qualidade, tendo que interferir muito pouco nos contos (porque sempre se pode sugerir uma alteração para melhor, mesmo com textos e escritores excelentes). Já nas duas da Draco, foi preciso escolher dentro do que recebemos, não apenas os contos mais bem escritos e originais, mas também aqueles que formassem juntos um livro bem equilibrado e harmonioso. Em Excalibur eu tive muitos contos sobre Lancelote, mas a variedade de gêneros e enfoques deu uma compensada na repetição do tema. Em Sobrevivente, eu e Janaína Chervezan pusemos mais contos de zumbis do que gostaríamos, mas mesmo assim creio que chegamos a um bom resultado. Acho que um bom organizador se preocupa fundamentalmente com esse equilíbrio, com fornecer variações aprazíveis sobre o mesmo tema, com alternar contos mais ágeis e outros narrativos. Não que os bons textos não sejam fundamentais, claro que são, e nesse ponto sempre tive sorte, mas a organização vai além de escolher os melhores - e passa, necessariamente, por saber como trabalhar com aquilo que se recebe.

9 - Em Excalibur seu conto se destaca por não manter a linha narrativa e dos fatos focada na história do rei Arthur, guerras ou intrigas políticas. "A Dama da Floresta" é mais sutil, com um toque onírico. Em um clima mágico e cheio de mistérios, vemos um lado diferente das lendas apresentadas normalmente. Como foi escrever esse conto? 

R: É comum da editora Draco postarmos sobre a construção de nossos textos em seu blog. Você pode ler sobre esse conto específico nesse link.

10 – Nós sabemos que você é bibliotecária. Quais livros foram as maiores inspirações para sua história?

Embora meu livro preferido seja "A História Sem Fim", de Michael Ende, acho que foi a série "Earthsea", da Ursula le Guin, que forneceu mais inspiração para essa série do Castelo. A HQ "Elfquest", de Wendy e Richard Pini, também. Por fim, "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley, pela ambientação e por algumas situações.

11 – O que você acha do avanço da literatura fantástica no mercado brasileiro?

R: Só posso achar ótimo e torcer para que conquistemos mais espaço e novos leitores que não sejam sempre os mesmos do fandom (grupo de pessoas que gosta de fantasia e ficção científica). E acho que a litfan voltada para crianças e jovens pode ter um papel importantíssimo nisso, pois as escolas, no Brasil, são o lugar onde mais circulam livros e se dissemina literatura.

12 – O que você deixa de dica para aqueles que querem ser escritores? 

R: Que leiam o mais que puderem, gêneros variados; que escrevam o tipo de história que gostam de ler; que revisem, reescrevam, pesquisem, estudem; que se orgulhem do que fazem, mas sejam humildes ao reconhecer erros e problemas; que saibam lidar com críticas e rejeições e sejam educados se tiverem de rebater alguma mais ofensiva (pois há uma grande diferença entre criticar e ofender, e aceitar crítica não é o mesmo que engolir sapo!); que tenham uma boa noção de como se dirigir a leitores críticos e editores; que não desistam, mesmo que ouçam muito não, pois ninguém é dono da verdade nem pode gostar de tudo; por fim, e que se divirtam, pois a gente rala tanto para conseguir terminar os textos que é preciso contrabalançar isso com muito prazer e alegria na hora em que os escrevemos! :)

É...

Depois de ler e escrever a resenha do bíblico Olho do Mundo, cá estou eu para falar sobre outro titã literário: Sob a Redoma. E por incrível que pareça, Estefano Rei, também conhecido como "O Senhor dos Finais Cagados", conseguiu me manter empolgado até a última das quase MIL PÁGINAS (por que eu faço isso comigo mesmo?).

Para aqueles que despacharam as malas para o voo errado, Sob a Redoma é um romance de um dos escritores mais ativos da atualidade, Stephen King (sério, esse homem já publicou e vendeu tanto livro que se ele não estiver milionário, não sei mais no que acreditar). Foi publicado em 2009 mas a produção dele começou nos longínquos anos 70. Entretanto, só escreveu menos de 80 páginas nessa época e não conseguiu passar daí. Como não sabia o que fazer, o projeto acabou indo pro congelador e só sendo lançado mais de 30 anos depois.

Springfield que se cuide.
A história começa quando uma redoma de material não identificado, que ninguém consegue ver, só sentir, desce (sim, ela desce, beeeeeeem devagarinho) sobre uma cidadezinha do Maine, chamada Chester's Mill. Com a cidade isolada do resto do mundo, os moradores que estavam dentro dela no momento que a tampa desce ficam sem saber o que fazer e aprontam altas confusões. Pronto, é isso.

Esse livro é mais um objeto de entretenimento que tenta mostrar como a sociedade reage a uma situação de crise extrema, mas numa escala menor e mais controlável do que um apocalipse global. Nesse pequeno ambiente, o autor cria intrigas políticas coerentes, guerras de poder e consegue desenvolver muito bem cada aspecto da loucura crescente do grupo de habitantes dentro da redoma.

Vale dizer que essa história poderia virar uma novela da Globo sem problema nenhum. São tantos os personagens ativos da trama que você, querido leitor, querida leitora, vai se perder. Felizmente, sr. King colocou nas primeiras páginas do livro um pequeno guia de personalidades importantes da cidade, para ajudar a manter o leitor na trilha certa, sabendo quem é quem.

E não é só isso. O livro é todo dividido em partes pequenas. Ele possui capítulos (enormes...) como qualquer outro livro, mas esses capítulos são aglomerados de blocos de texto que por vezes não duram nem uma página. Isso é ótimo pro leitor casa-trabalho (como eu).

Tampando o bolinho.

Eu não quero e nem vou falar mais nada porque tudo que eu disser será um spoiler. Uma coisa que eu gostei desse livro é que ele possui twists o tempo todo. E todos eles são memoráveis. E o escritor não tem pena dos personagens e nem do meio ambiente. O importante é manter as curvas da trama o mais emocionantes possíveis (George R. R. Martin aprova).

Enfim, história envolvente, personagens carismáticos, (apesar de muitos, você consegue gostar de pelo menos algum aspecto de cada um deles), situações familiares mas bem orquestradas e muita política (mas não se engane, isso não é The West Wing). Só não tem a vaca cortada do seriado, só uma marmota (risos).

Desculpas pra quem queria ler a vaca sendo cortada.






Boa tarde, gentes

Tudo bem? Então tá bom. Como vai essa vida? Tudo nos conformes, como sempre? Aqui também, tirando o sono etc. Esse negócio de entrar de férias e trocar o dia pela noite é complicado, porque depois pra regular o relógio biológico de novo é um parto. Mas vamo seguindo, vamo fazendo.

Pessoal, hoje venho a este site de família trazer um jogo que descobri recentemente e, olha, fiquei de. queixo. caído. com a história. Vamos cortar o papo introdutório e ir direto pro que interessa.

Muito que bem. Dia desses eu estava zanzando pelo YouTube e fui visitar o canal do Zangado, no qual eu sou inscrito. Quem curte jogos geralmente o conhece; acho que ele é um dos maiores canais desse ramo no Brasil. Tem uma seção no canal que se chama “Vale ou não a pena jogar”, e o jogo da vez numa dessas semanas foi The Cat Lady.


Essa expressão, traduzida livremente como “a mulher dos gatos”, é utilizada pra falar daquelas mulheres que, por um motivo qualquer, acumulam gatos em casa e acabam ficando conhecidas como “a mulher dos gatos”. No jogo, não é exatamenteassim que isso acontece, mas a personagem principal, Susan Ashworth, alimenta gatos das redondezas e eles acabam meio que fazendo parte da vida dela. Mas o papel dos gatos na história é mínimo, o que importa mesmo é o background e tudo.

Susan é uma mulher extremamente solitária e o jogo começa com uma nota de suicídio. Da própria Susan. Ou seja: o jogo começa com ela... morta. Achei estranhíssimo quando percebi isso, mas, na nota, Susan explica que decidiu dar cabo da própria vida porque já não tinha mais motivos pra viver, porque ela não lidava bem com pessoas e por isso era hora de morrer. Então ela toma algumas dezenas de tarja preta e puft, morre. O problema é que ela não moooorre morre mesmo, de morte morrida: ela vai parar em um lugar que é como um limbo, um entre-céu-e-inferno, e, nesse lugar, ela encontra uma mulher; uma velha que se auto-intitula “A Rainha dos Vermes”. Essa velha não se revela nem como Deus, nem como o diabo, nem como a personificação de um sentimento nem nada: ela só diz que o que se encaixa melhor é Rainha dos Vermes. E, nesse mundo em que elas estão, que parece um campo de centeio (sdds Catcher in the Rye), Susan encontra o próprio cadáver em diversos lugares e começa a se questionar que lugar é aquele e se ela está realmente morta. Então a velha diz que sim e blá blá blá (o jogo tem MUITOS diálogos; todos enormes) e que Susan está ali porque a velha tem uma missão a ela: voltar ao mundo dos vivos e matar cinco pessoas, cinco vermesque não merecem estar vivos, e que Susan é a única que pode fazer isso.

Susan Ashworth
Aí é o princípio de tudo. Susan é uma mulher que está afundada em depressão e, por isso, se julga fraca e incapaz de fazer qualquer coisa, especialmente matar uma pessoa (quanto mais cinco!). Mas a velha acaba a convencendo de que isso deve ser feito e, para garantir que Susan vai suceder em sua missão, ela a abençoa com a imortalidade. Então, Susan acorda em uma cama de hospital. Ou seja: os tarja preta que ela tomou não a mataram, só a desmaiaram e ela foi socorrida a tempo (por uma personagem que depois se torna peça importantíssima no jogo, mas não vou contar pra não spoilar). Sem saber se tudo foi um sonho ou não, Susan fica um tanto atordoada, mas logo as coisas levam a crer que a velha falava a verdade e que não era nada de sonho.

O jogo foi produzido de forma independente, não sei se já comentei. O formato é um tanto estranho: acontece em 2D, no estilo sidescroller, tipo Mario, e tudo funciona na base da resolução de puzzles. Por exemplo: Susan está no hospital e precisa dar um jeito de sair; então ela precisa convencer uma interna a trocar de pulseira com ela, pegar o prontuário dessa interna — não sem antes, claro, dar um jeito de tirar a recepcionista do balcão pra poder pegar esse documento na surdina — mostrar os documentos aos seguranças pra eles liberarem a passagem e, só depois de resolver isso tudo, fugir dali. Os puzzles são MUITO difíceis, às vezes, porque eles não dão dicas de nada: quem não tiver bons neurônios se perde facilmente. A ambientação do jogo é, na maior parte, preto e branco, com gráficos bem rústicos e realce de cores importantes, como vermelho, já que o jogo tem sangue por toda parte. E a trilha sonora também é um espetáculo à parte.

"The River"
Mas o que mais me chamou atenção no jogo, e é a parte que justifica transformá-lo num livro, são duas coisas: primeiro, a ambientação impecável. Chove na maior parte do tempo, a solidão de Susan é quase tangível, o prédio em que ela mora também é praticamente um edifício-pós-apocalíptico, essa simbologia que envolve gatos... Tudo tem um quê de gótico que eu acho que Poe traduziria muito bem. Falando nele, em alguns momentos o jogo me lembra A Queda da Casa de Usher e todo aquele ambiente sombrio da casa. Também associei a Alegria Breve (livro que já comentei aqui), de Vergílio Ferreira, em que o protagonista está completamente sozinho em um vilarejo, acompanhado apenas de seu cachorro Médor. E a segunda coisa que me chamou atenção: os diálogos. Quem escreveu esses diálogos (que são longos e muitos) tem minha estrelinha de fã. A linguagem é simples, tem até bastantes “fucking”, “bitch” e outros termos chulos inclusos, mas é um texto muito rico, natural. Acho que construir um diálogo verossímil, maduro, que não soe robótico ou artificial é uma parte difícil da construção de um texto, seja ele literário ou não, e por isso digo que o responsável pelo texto do jogo (que renderia um livro só pela extensão) está ó, de parabéns. E tem, ainda, a coisa do Realismo Fantástico: não dá pra saber se o que passa na mente da Susan é simplesmente coisa da cabeça dela, ou se foi uma representação mental da realidade, ou se foi um sonho, ou se a Rainha dos Vermes realmente existe... Fica tudo dúbio em alguns aspectos. Pra quem quiser saber mais sobre Realismo Fantástico, escrevi aqui no site, também, sobre Astrícia, uma obra brasileira que aborda o fantástico de forma bem interessante.

Pra quem curte jogos no PC e tem um domínio razoável de Inglês, eu super recomendo. O jogo pode ser baixado pelo site da Steam (aqui) e custa menos de R$17. Vale a pena comprar. Deixo, abaixo, o trailer oficial do jogo e um poema que é citado no início, que eu também achei lindinho, apesar do tema. E assim eu me despeço. Tenham todos uma boa semana e cuidem bem dos seus gatos. Até mais!

River
(Agnieszka Surygala)

Standing by the river I wonder,
do I need a stone?
No...my heart is heavy enough.
It will drag me down for sure.
Standing by the river I smile,
will I miss it all?
No...I'll be glad to leave it behind,
and never come back.
Standing by the river I close my eyes.
One jump and I'm there.
No...someone jumped after me.
He will never be my friend.
Standing by the river I'm thinking,
will I jump again?
No...behind the closed doors
I have fallen in love with the razor




Imagens: Douglas MCT
Hoje é um dia especial pro Escolhendo Livros! O motivo? Fomos atrás de um  autor chegado a uma aventura épica para mostrar que o Brasil também cria as suas próprias fantasias. Este era Douglas MCT, o simpático criador da saga Necrópolis, que nós até já falamos por aqui há alguns posts atrás. Se você se lembra bem e teve a chance de ler a nossa resenha, Douglas é um dos disseminadores da cultura Dark Fantasy pela nossa terrinha e tem muita a dizer sobre o seu trabalho como escritor de ficção nacional. Vem com tudo que a entrevista hoje está imperdível!


EL: Quando passeava pela Bienal do Livro 2013, tive a chance de encontrar o Necrópolis – A Fronteira das Almas no stand da Editora Gutenberg. Dentre os vários fatores que me fizeram levar o livro para casa, com certeza o termo dark-fantasy foi o que mais chamou a minha atenção. Então nós do Escolhendo Livros gostaríamos de saber: Como você entrou em contato com este gênero literário? Existe algum autor(a) que te influenciou diretamente? 


MCT: Eu acho que acabei me atraindo para esse gênero meio sem querer. Descobri os quadrinhos de Hellboy aos 15 anos e descobri, anos depois, que aquilo era dark-fantasy. Com o passar dos anos, outras construções narrativas desse gênero acabaram me conquistando fortemente, como a franquia de games God of War e a série A Torre Negra, de Stephen King, A Trilogia Tormenta, de Leonel Caldela, e a Trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Acredito que George R.R. Martin, Bernard Cornwell e Neil Gaiman também caminhem um pouco por este gênero. Aliás, isso ainda responde a sua outra pergunta, esses autores foram e continuam sendo grande influência na minha literatura, junto de Henry James e Mike Mignola

EL: Como foi o processo de criação da saga? Você teve alguma dificuldade específica ao criar um universo tão extenso e detalhado como o de Necrópolis? 


MCT:
O processo sempre foi complexo, e continua sendo. Mas desde moleque sempre tive muito interesse e facilidade em construção de mundos e criação de personagens, é o tipo de elemento que gosto de passar horas, semanas e meses trabalhando, é da minha natureza como autor. Isso não exclui as dificuldades de cada processo, claro. Mas, especificamente, acho que definir a moeda corrente e distância entre cenários, foram os elementos mais complicados, dado meu problema com números e cálculos. 

EL: Em alguns momentos de A Fronteira das Almas, é possível capturar uma essência narrativa que lembra bastante a de jogos e livros de RPG (Role Playing Game). Há alguma inspiração oriunda deste universo tão popular na cultura nerd? 


MCT: Sim, sim. Na verdade, além de outros livros, a minha literatura é influenciada por todas as outras mídias, como RPG, games, séries, animações ocidentais e orientais, e principalmente cinema e quadrinhos. Todas essas mídias trabalham a narrativa, cada uma a sua maneira, mas todas elas contam histórias. E todas elas me ensinaram como contar as minhas próprias histórias, então você encontra essas influências nos meus livros e continuará encontrando. 


EL: Dia 23 de setembro de 2012, o segundo volume da série, A Batalha das Feras, foi lançado no Fantasticon. Como foi a recepção do livro no evento? 


MCT: Foi ótima. Mesmo o Fantasticon sendo um evento mais de nicho e não tão forte como a Bienal do Livro (onde o Necrópolis 1 foi lançado um mês antes naquele ano), proporcionalmente falando, foi um dos melhores lançamentos do evento, tanto do público que descobria a série Necrópolis ali, quanto e principalmente dos fãs, que já acompanham a série há um tempo e foram com grande expectativa pela continuação. 


EL: Existe algum personagem do livro que você tem alguma ligação mais íntima? 


MCT: Eu costumo dizer que cada um dos personagens, pelo menos entre os principais, tem um pouco de mim. Como se eu tivesse dividido minhas qualidades, defeitos e personalidade em cada. Verne tem mais da minha voz, Simas expõe toda a minha caricatura social, enquanto que Karolina é orgulhosa como sempre serei e Ícaro tem aquele lado sombrio que procuramos ocultar a maior parte do tempo, etc. 

EL: Quais são os livros que não podem faltar na sua estante? 


MCT: São muitos, e ali incluo também quadrinhos. Mas focando na literatura e na sua pergunta, aí vão alguns: A Trilogia Fronteiras do Universo, As Crônicas de Gelo e Fogo, A Trilogia Tormenta, Coisas Frágeis e Hellboy. Ah é, eu falei que não citaria quadrinhos, mas Hellboy está colado eternamente nessa estante já quase sem espaço. 


EL: Você tem outros projetos em andamento? Fale um pouquinho deles para gente!


MCT: Tenho sim. Bastante coisa. Estou assumindo como editor-chefe de uma revista mensal sobre animes e mangás, que é publicada há muitos anos no Brasil. Estou escrevendo Necrópolis 3, que tem previsão de lançamento para esse ano. Na área de quadrinhos, voltei com força total, estou roteirizando Dez Desejos, que é um mangá que poderá ser lido como webcomic gratuitamente a partir de fevereiro neste endereço: http://www.necropolissaga.com/dezdesejos/ e faz parte do universo de Necrópolis, se você é fã, será incrível, se nunca tiver lido os livros, será incrível também, afinal é uma história que se passa 25 anos antes da jornada de Verne, com a linda arte do Rafael Françoi. Além deste, tem Hansel&Gretel, um mangá grandioso, com mais de 80 páginas prontas (de 260), que será lançado pela NewPOP assim que terminarmos, mas não, não temos previsão de quando esse material ficará pronto, só saibam que eu e a artista, Rafi Bluebunny, estamos trabalhando semanalmente neste projeto lindo e que ele sairá, sim. Tem outras duas HQs que estou roteirizando, mas elas são segredo ainda e serão reveladas na hora certa. Por fim, tem alguns contos e outros romances que pretendo escrever em breve, mas tudo ao seu tempo e tempo eu não tenho faz tempo. 

EL: Em uma visita pelo site oficial de Necrópolis, notei que o livro tem uma playlist própria para os leitores. Como foi que surgiu esta ideia? 


MCT: Como eu disse acima, entre as minhas influências, o cinema foi uma delas e bem forte. Eu sempre imaginei minhas obras como algo multimídia e não a toa, fui o primeiro a lançar um booktrailer no Brasil, algo que se consolidou como formato de sucesso no país. Ainda em 2006, data da primeira versão de Necrópolis, eu pensei que, assim como os filmes, que tem a música-tema e uma trilha para cada cena da película, um livro poderia também, talvez, ter uma música-tema e uma trilha para cada capítulo. Conheci e convidei Isis Fernandes para musicar o livro e ao longo de quatro anos ela realizou esse belíssimo trabalho, que logo vou disponibilizar na íntegra para todos

EL: Entrar no mercado editorial brasileiro: Difícil? 


MCT: Já foi, hoje não mais. Na época que eu fazia as primeiras tentativas, ainda em 2003, o mercado era outra e a fantasia não tinha moral editorial, hoje ela é prioridade. Atualmente, 9 entre 10 editoras tem um selo para literatura fantástica e buscam, no Brasil ou fora, obras do gênero, e cada qual com sua proposta, vem abrindo portas para este mercado, que espero cresça e que os leitores filtrem o que é bom e deve continuar. 

EL: Dê uma dica para os leitores que queiram escrever um livro de fantasia.


MCT: A dica de sempre: leia, leia, leia e depois leia mais um pouco. Leia sempre, e leia de tudo. Não só fantasia. Leia suspense, leia terror, leia o mainstream indefinido (mas também não precisa apelar para auto-ajuda). Escreva, escreva e escreva. Tente, sem pressa, experimente, use você como laboratório para si mesmo. Vá a eventos, participe de grupos, colha opiniões de terceiros que tenham boa vontade, mas não sejam amigos nem trolls. E consuma outras mídias, como games, quadrinhos, filmes e desenhos animados, porque eles tem muito a ensinar também no contar de histórias. Seja paciente, profissional e nunca desista. Leia e escreva, mas eu já disse isso, né?
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Nós agradecemos imensamente a participação do autor aqui no Escolhendo Livros e fazemos a pergunta: Você já leu algum livro do nosso convidado de hoje? Não deixe de comentar aqui embaixo sobre as suas experiências com as obras do Douglas!







Boa noite, gente!

Como vocês estão? Eu vou muito bem, obrigado, aliás, muito bem mesmo, porque acabei de acordar (quando este post estiver publicado, já fará algum tempo) e estou com aquela sensação de sono pós-sono que, olha... Uma delícia. Vontade de voltar pra cama, mas vou ficar acordado porque a vida não pode ser tão zoeira assim. Como foi o final de semana? Bom? Então tá bom. Já não preciso dizer que sumi e voltei porque é assim que eu sempre introduzo os posts e é sempre verdade, então vamos pra parte que importa.

Novamente, venho, hoje, trazer uma resenha, e não um post falando sobre qualquer coisa no Paralela Mente (mas calma: eu ainda farei esse post sobre qualquer coisa; já estou trabalhando em algumas ideias). Venho, hoje, falar de um romance que li ontem, da noite pro dia e, olha, o negócio é feio. Vem comigo!



Pois muito que bem. Hoje venho falar de uma história que acho que não seria considerada um clássico. Ou todos os livros escritos antes do século XX são considerados clássicos? Bem, não sei. Sei que a história é antiga, do finalzinho do século XIX. Bom Crioulo, o nome, de Adolfo Caminha. Não sei se é ignorância minha (muito provavelmente é, sim), mas eu nunca tinha ouvido falar desse nobre cidadão até tomar conhecimento dessa história. Bom Crioulo se enquadra no período literário correspondente ao Naturalismo, no Brasil, embora essa coisa de escolas literárias seja meio problemática. Pra quem não sabe, o Naturalismo foi um parente do Realismo, que se preocupava em mostrar a realidade nua e crua, geralmente do lado mais podre, falando de temas pesados/polêmicos, como violência, instintos humanos meio ~selvagens~, incesto, homoerotismo e por aí vai. Outra coisa interessante é que está associada ao princípio Darwinista de que o homem é fruto de seu meio; aquela história, lembra?, lá no primeiro ano do ensino médio? Então.

E, bem, esse parágrafo introdutório, basicamente, resumo o livro todo. Mas antes de ir à história, deixe-me contar como cheguei a ela: escrevi um conto (que você pode ler aqui) e, nesse conto, há um homem negro como par romântico de outro homem. Um amigo meu leu e disse que a história o fez lembrar Bom Crioulo, aí já me interessei. Fui ler a sinopse do livro e, realmente, havia certa semelhança: homem branco se envolve com homem negro. E, continuando a pesquisa, outra informação interessante: de acordo com a Wikipédia, Bom Crioulo é considerado por alguns o primeiro romance homossexual da literatura ocidental. Eu, claro, diante de tal informação, fui atrás do pdf na hora (a história é de domínio público, aliás; você pode lê-la aqui) e li da noite pro dia, literalmente. Mas deixa eu falar sobre a história, depois eu volto nessas questões acima.

Bom Crioulo narra a história de Amaro, o "Bom Crioulo" (apelido dado por seu bom comportamento e atributos físicos acima dos dos demais), um escravo fugido da fazenda que encontra emprego num tipo de embarcação que agora eu me esqueci do nome e toma gosto pela coisa e vira marinheiro. No começo da história, Bom Crioulo está recebendo um castigo físico por ter se envolvido em uma briga pra defender Aleixo, que é o rapaz lourinho afeminado de olhos azuis da embarcação, por quem Bom Crioulo se afeiçoa imediatamente. A história se desenrola a partir desse sentimento avassalador que Amaro desenvolve por Aleixo e, ó, é drama.

O livro é curto, a história se desenrola sem muita prolixidade — o que, pra mim, é ponto positivo —, a linguagem é aquela coisa típica da época (ler com o dicionário ao lado) e tem bastantes termos relativos à Marinha, que eu boiei um pouco. O xis da questão é a polêmica, né? O cara é um ex-escravo fugido, vai parar numa embarcação e acaba se apaixonando por outro cara. Muita coisa perigosa aí: negro, fugido e gay, no Brasil do século XIX. Complicado, né? Não conheço a obra de Adolfo Caminha. A escrita dele não é nada muito excepcional em relação aos já consagrados, mas uma coisa me chamou a atenção: a habilidade que o autor teve para mostrar, mesmo o livro não tendo sequer uma cena de sexo explícito, que o desejo de Bom Crioulo por Aleixo era algo selvagem, ferino, irrefreável, e acho que quem já sentiu algo desse tipo, de alguma forma, se identifica com o desespero do personagem, que quer, a todo custo, satisfazer seus desejos, mas está impedido pelo espaço e pelo meio em que está. Imagina. Uma embarcação, cheia de outros homens amontoados, e ele lá, louco para fazer um amorcom o loirinho. Onde? Que hora? De que jeito? Não dá! Confesso que fiquei com pena dele, coitado. Não só por isso, mas porque ele passa por uns bons bocados durante a história.

Tem mais coisa legal pra se falar, mas aí já é spoiler. A forma como o princípio Darwinista que eu falei se aplica na história também é interessante: (acho que isso não é spoiler) dentro da embarcação, Aleixo (o loirinho) é, basicamente, a mulher da história, ou a mulher de/para Amaro, e o narrador o descreve como tal, acentuando, em algumas partes descritivas, os traços sutis como os de uma mulher, dizendo, aliás, em algum lugar, que, para ser uma mulher, só lhe faltavam os peitos! Depois, fora da embarcação, envolvido em outro meio, ele passa a ser o homem, e já ganha outros traços. Nessa parte da história entra Dona Carolina, que é outra personagem interessante, mas da qual não dá pra falar sem spoilar, então vamos deixá-la pra lá. Uma coisa, todavia, que cabe discutir: será mesmo que Bom Crioulo foi o primeiro romance homossexual da literatura ocidental? Eu não sou entendido de literatura (muito pelo contrário, gente; não façam boa imagem de mim que eu só pareço Cult), mas vejam só: O Retrato de Dorian Gray (que o Escolhendo Livros já resenhou, aliás; você viu? Não? Veja aqui) é uma história anterior a Bom Crioulo e traz como personagens principais três personagens que apresentam características distintamente homossexuais: a admiração de Basil por Dorian, por exemplo, é algo que, pra mim, ultrapassa a admiração que se tem por um amigo querido. Agora, se quem deu a Bom Criouloesse título se referia ao fato de os personagens principais terem de fato se envolvido emocional/fisicamente, aí eu já não sei. De qualquer forma, cabe contestação, porque Shakespeare escreveu sobre tudonessa vida: certamente há de ter um casal gay lá no meio dos manuscritos dele, ha!


Bom Crioulo é uma leitura desconfortável. Os ambientes pútridos, próprios do Naturalismo, são realmente impressionantes e, se a vida naquela época era, ipsis litteris, como o narrador descreve, demos graças a Deus por viver no século XXI. E, se Oscar Wilde foi preso por escrever Dorian Gray, que nem era tão gay assim, e isso na Europa de países ricos e modernos para a época, imagina o tititi que Bom Crioulonão deve ter causado nesta nossa terra brasilis de 1895. Parabéns a Adolfo Caminha pelos culhões. 

Fico por aqui, rapaziada. Qualquer hora eu volto com mais; demoro mas volto. Um abraço procês!


Fonte // Editora Draco
Bem-vindos! Selem os cavalos e baixem os elmos. Já afiaram suas espadas devidamente? Os feitiços estão guardados embaixo da manga? Não esqueçam de levar a sua fé, seja ela nos Deuses Antigos quanto no Novo que surge no horizonte. Venham, escolhedores! Hoje somos Arthur, somos Merlim, somos Mordred, Guinevere, somos qualquer um que possa lutar por seus objetivos e crenças mais profundas. Hoje somos a prova de que as lendas jamais morrem, mas são renovadas sob vários olhares.

Excalibur é a coleção de contos arturianos da editora Draco, organizada pela autora de Castelo das Águias, Ana Lúcia Merege. Aqui, 12 contos recontam as lendas, desvendando mitos e abraçando nossas almas, puxando-nos para um universo onde tudo é possível. A seguir, vejam a minha visão pessoal de cada um dos contos e do livro em si. Avante! 


A Memória da Espada, Roberto de Sousa Causo, o primeiro conto se trata da história de Durius, o único homem que conseguira ferir o Rei Arthur em toda a existência. Morgana ressuscita o cavaleiro e faz dele seu criado, dando-lhe a missão de matar o rei. As coisas não são fáceis, porém, pois várias escolhas e dramas internos se colocam a frente da missão - transformando a vida pacata dos personagens num turbilhão.


A narrativa, em terceira pessoa, conta a história sob os ponto de vista de quatro personagens: Arthur, Morgana, Durius e Kay - o fiel cavaleiro do Rei Arthur. A história é recheada com a complexidade dos personagens - que chegam a ser reais, palpáveis. As histórias paralelas ao trama central chamam atenção e deixam o mundo presente no conto mais mágico e agradável ao leitor. O personagem de Durius é aquele que mais chama atenção do leitor - se sobrepujando aos demais. A narrativa é simples, de fácil absorção, mas sem perder a grandiosidade. Os diálogo ocorrem com naturalidade e nada é forçado dentro d'A Memória da Espada. O desfecho é mágico. Definitivamente um dos meus favoritos. 

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O Espelho, Liège Báccaro Toledo. Baseado no poema "A Dama de Shallot", O Espelho conta a história da menina Mary que, ao encontrar um antigo espelho no porão de sua casa, vê-se em um mundo mágico cheio de fadas e seres maravilhosos. Tal mundo, porém, torna-se o seu maior pesado ao descobrir sua história e quem lá o habita.

Narrado em primeira pessoa pelo ponto de vista de Mary. A história é incrível, com beleza nos detalhes. A personagem é incrível, cativando logo o leitor, assim como as descrições nos fazem entrar em um pesadelo mágico. 

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Momento Decisivo, Luiz Felipe Vasques & Daniel Bezerra. Momento decisivo é, de longe, o conto mais peculiar de toda a antologia. Sua história ocorre no espaço sideral, onde a humanidade (após várias mudanças genéticas) se espalhou. Várias colônias surgiram, e, consequentemente, a guerra entre elas. O conto mostra a profecia feita por Myrdyn (Merlim) sobre como Arthur, o soberano das colônias, iria trazer paz e união para toda a humanidade. Temos, aqui, toda a história de Lancelot e Guinevere e outras tramas clássicas vista sob um filtro de naves, lasers e prótons. 

A princípio, a proposta assusta o leitor e faz com que um pré-conceito surja: "será que é possível por um conto arturiano em um cenário de ficção científica?  A história é original, não caindo no clichê típico da lenda clássica - claro, temos as guerras, os reinos, etc. Mas o cenário difere muito, e isso contribui para a história e complexidade dos personagens. Há dois pontos de vista aqui, ambos bem trabalhados. As cenas de ação são uma joia descritiva, e tudo isso é feito com um texto de absorção fácil. 

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Cavaleiro Anônimo, André S. Silva. É a história trágica de um menino que sonha em se cavaleiro. Acompanhamos o personagem desde sua infância, quando ajudava o pai a ser lenhador, até os acontecimentos que o fizeram escolher a vocação de cavaleiro. Contra os pais, o menino foge de casa e vai para Camelot, onde consegue alcançar seus objetivos. Porém, a ambição é maior e ele deseja algo mais. Sua vida vira de cabeça para baixo ao mostrar a verdadeira realidade por trás de suas escolhas. 


A trama é simples, mas contém traços que a distinguem de histórias parecidas. O conto é escrito de forma mais crua, verdadeira, trazendo, em sua história, uma linha tênue que parece transcender a ficção. Em primeira pessoa, o protagonista conta a história vista pelo tempo presente - o que pode confundir o leitor algumas vezes, mas nos deixa mais próximos do personagem. 

Acho que os personagens poderiam ser mais trabalhados: as poucas cenas em que temos profundidade são um pouco estreitas, devido ao objetivo que parece ser a base do narrador. 

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Mau Conselho, Pedro Viana. Conta a história clássica de um ponto de vista completamente diferente. No conto de Pedro Viana, o jovem Artur é obrigado a deixar o reino - e então tem de assumir um identidade nova. Vira Mordred, apelido dado por seu mestre; o grande mago Merlim. Quando descobre que seu irmão Geoffrey assume a sua própria identidade, Arthur (agora, Mordred) perde o rumo em meio a sentimentos que podem mudar o destino de todo o reino. Todos os personagens clássicos são reunidos na narrativa: e a trama se prende na visão de Arthur sobre Geoffrey, o amigo Lancelote, Morgana, Merlim, e é claro - a bela Guinevere.

Ótimo conto, com um dos enredos mais originais de toda a coletânea. A narrativa cativa rápido o leitor que, sob o ponto de vista de Mordred, engloba com voracidade o mundo apresentado e as características fortes dos personagens - tamanha a maestria narrativa. O ponto de vista é natural, cabendo perfeitamente ao personagem - quase parece que é o próprio protagonista que descreve todas as cenas, mesmo sendo em terceira pessoa. Os diálogos são naturais e bem colocados, e a leitura não é pesada nem de difícil absorção. Eu adorei cada parte do conto, mesmo.

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Você já sabe o que fazer.


A Solução Final, A. Z. Cordenonsi, conta a história do imperador Arturious, governante da Britonnia. Sob um filtro futurístico, a história é uma reintrodução da lenda clássica. Há uma guerra acontecendo, e, além da batalha iminente, o Imperador tem que se preocupar com boatos sobre o fato de a sua esposa, a Rainha Guinevere e o Cavaleiro das Rosas, Lancelot, estarem juntos. A figura de Morgana aparece como a irmã de Arthur, que é a grã-sacerdotisa e grande espiã do reino. As intrigas surgem em cada linha, fazendo o personagem beirar o desespero.


Narrado em terceira pessoa, a história é boa - mesmo contendo todos os clichês dos contos arturianos, a trama dá reviravoltas que prendem o leitor. Há, porém, ao meu ver, um enorme excesso de informação nas páginas transcorridas - nomes, lugares, datas... que confundem a leitura. Mesmo com uma linguagem não tão rebuscada, a densidade com que as coisas foram comprimidas deixam o texto pesado e tornam a leitura preguiçosa. Em alguns casos, tive que voltar certas páginas para saber quem era tal personagem e por que estava em determinada cena. 

O mundo criado por Cordenonsi é incrível, e os personagens que o compõem poderiam ser melhores trabalhados, mas parece que a grande quantidade de informação deixa a personalidades deles fraca, diante do geral da trama. O final é bom, mas parece chegar de tropeços, sem explicação ou lógica bem trabalhadas. 

Trecho: 


O Herdeiro de Shallot, Ana Cristina Rodrigues. Narra a história de Phelipe, que cresceu em Shallot, sem nunca poder sair das paredes do castelo. Quando mais velho, a sua mãe, então, revela o destino do rapaz e a sua história. Phelipe, ao completar 18 anos, após ser feito cavaleiro, segue para Camelot - onde se encontra completamente sozinho.

A história se trata, basicamente, sobre a questão da transição do paganismo para o cristianismo. O protagonista vê-se em uma rede de poderio comandada pelo Deus único, e jura jamais deixar a fé que lhe acompanha desde o nascimento. Há sensibilidade e beleza no uso das palavras. Os diálogos são ótimos, e os personagens cativam facilmente o leitor. Só achei o ritmo muito rápido, como se houvesse pressa em terminar a história. O final ficou vago, sem deixar tempo para cenas que causem um sentimento de clímax no leitor. Parece que é sempre um jogo de expectativas não saciadas. 

Trecho: 
Era uma vez um elfo encantado que vivia num pé de caqui e sabia que, pra ampliar, tinha que clicar bem aqui. RIMOU EU SOU UM GÊNIO!



A Fada, Marcelo Abreu. Ok, eu amo esse conto, me animei. Somos apresentados aqui a um mundo pós-apocalíptico, com o caos da guerra iminente matando lentamente a esperança do povo. A protagonista, Julia (minha xará, cof cof), mostra então sua "trupe", que, para dar esperanças e força de vontade para o povo vencer a luta, revive as lendas encontradas num antigo livro. Ela encarna o papel de Morgana, uma fada há muito esquecida - e assim os outros vão surgindo, Merlim, Arthur, Mordred... e a lenda revive. Em meio à guerra, como manter as aparências e separar a realidade das histórias perdidas? 

A protagonista é um jubilo aos olhos do leitor - com uma profundidade magnífica, e a escrita transforma a história em um enredo cheio de tramas que prendem a atenção. Diálogos ótimos e ponto de vista muito bem trabalhado, o enredo intriga e encanta na originalidade da história - que nunca perde o ritmo, e mantém o clima de lenda arturiana mesmo no cenário apresentado. As relações dos personagens são muito realistas e profundas. O arco do roteiro segue perfeitamente, dando um final surpreendente e, ao meu olhar, perfeito. Só consigo pensar em elogios para esse conto, sério. 

Trecho:

O Fio da Espada, Melissa de Sá. Um conto sobre conflitos, lealdade e decepções. Melissa de Sá nos mostra a história de Dainwin, um filho de um nobre com poucas propriedades que sonha em ser cavaleiro. A história mostra sua trajetória como cavaleiro menor até se tornar, devido o seu próprio esforço e força de vontade, escudeiro de sir Lancelot. Tal coisa inquieta-lhe o espírito, pois o Primeiro Cavaleiro é conhecido por não possuir escudeiros. Ao longo da trama, segredos se revelam, e Dainwin se vê perdido em uma questão: a quem ele deve ser fiel?


Possivelmente Dainwin é um dos melhores personagens da coletânea - tão completo em tão poucas páginas, tão real. Sua batalha interior poderia ser adaptada em qualquer situação, e nos identificamos facilmente com o protagonista. A trama é original - principalmente por dar menos destaque aos personagens da corte, que costumam ser o foco geral das lendas arturianas. A narrativa é ótima, também, apesar de que eu tive dificuldade de imaginar uma ou duas cenas. A narrativa em terceira pessoa, sob o olhar de Dainwin só exalta os dons de narrativa de Melissa de Sá, que cria um mundo incrivelmente detalhado e mágico. Um dos melhores contos pra sempre, sério.


Trecho:

As Mãos Vermelhas de Isolda, Octávio Aragão. Lancelot toma o rumo da história. Ele tem a missão de verificar a morte suspeita de Tristão de Liones. Chegando ao castelo onde morava sir. Tristão, e pede para interrogar sua mulher - Isolda de Blanchemans. As coisas correm diferente do esperado, porém.

Lancelot Du Lac é um personagem que atrai os leitores, querendo ou não. A história, porém, deixa pouco espaço para aprofundamento das características dos personagens que movimentam o conto. As personagens de Isolda (são duas!) parecem robôs que automaticamente respondem às falas para darem continuidade. Mesmo com a narrativa sendo boa, achei que as coisas acontecem realmente muito rápido no conto, causando confusão na trama - nos perdemos diante de tanta informação em pouco espaço. O desfecho é súbito, apressado e a série de acontecimentos que levam a ele são igualmente fracas... é como se o conto narrasse apenas uma cena de 5 minutos, sendo que há mais que isso. 

Trecho:

A dama da Floresta, Ana Lúcia Merege. Conta a história de uma anciã e o mundo que a cerca. Ela é a "vó" do seu povo, a anciã que sabe os segredos das ervas e suas propriedades, aquela que ajuda as mulheres a terem seus bebês e que reza à noite para os Deuses que vivem escondido nas árvores. A anciã, desde a tenra infância, aprende os segredos da natureza, e convive com segredos obscuros que podem mudar a vida de qualquer um. 

A trama é das mais originais de toda a coletânea: mistura religião, dramas morais e temas diversos e obscuros. Ana Lúcia Merege apresenta os personagens clássicos com os nomes originais das lendas, como Myrdyn para Merlim - o mago que aqui se apresenta um pouco diferente da versão que conhecemos dos contos arturianos. A escrita, em primeira pessoa, deixa um tom onírico no universo apresentado - como se estivéssemos cobertos por brumas que exalam segredos antigos. Sobre segredos é o que aprendemos no conto, a importância vital deles.

A anciã puxa atenção do leitor, com seu ponto de vista maduro e esclarecido, que, mesmo sendo uma figura de "poder" ainda tem espaço para dramas tipicamente humanos, e podemos ver a mudança dos pensamentos dela quando criança e já adulta. Não apenas a única personagem que chama atenção, mas todos os narrados - dando atenção principalmente para Myrdyn e Nimue, a filha da personagem. O arco narrativo é incrível, mostrando claramente uma espécie de linha do tempo, que acompanha a evolução de cada um dos personagens com maestria, dando um movimento fluído à história. Um dos melhores contos, sem dúvidas.



O Rei às Margens do Rio, Cirilo S. Lemos. Ok. Esse conto é doido. Sério. Pirado, doidaço, mas bom pra caramba. O termo dieselpunk é usado para caracterizar o estilo da história, mas eu mal faço ideia do que se trata - pelo que li, é tipo ficção científica passada na década de 30/40 com uma pegada meio futurística. A história é de um menino chamado Levítico que vive no estado do Rio de Janeiro, que tem um cachorro chamado Merlim e uma guerra acontecendo em território brasileiro. Acompanhamos o protagonista por aventuras muito parecidas com viagens-astrais e contextos históricos bacanas que dão um desfecho surpreendente.

Surpreendente é a palavra que se encaixaria melhor no conto. A escrita é ótima, com o tom interiorano típico dos personagens e clima nostálgico, mas também futurístico em certos pontos. O personagem de Levítico é profundo ao extremo, e somos encantados por ele facilmente, assim como compreendemos a sua visão de coisas como o mundo e a sua família.

Diálogos muito perfeitos, naturais e realistas dão vida aos personagens. O cenário é muito bem escrito, e sentimo-nos facilmente presos ao conto, dentro da narrativa. Com conflitos interessantes e trama extremamente madura, o final é incrível - dando um clima totalmente diferente, um desfecho surpreendente ao conto. Muito bom, mesmo.


No geral, Excalibur é uma daquelas coletâneas para a vida toda. Quem não gosta de lendas arturianas? Todos amam! São elas que inspiram as mais diversas histórias, e elas que são um dos maiores mistérios da humanidade. Eu acredito fielmente em personagens como Merlim e Morgana, em guerreiros como Lancelot, e rainhas lindas feito Guinevere. Os 12 contos aqui escritos são histórias originais que renovam o mito, dão um novo ar aos magos e reis, polem as espadas e amassam os escudos com pancadas de criatividade. O livro é um ótimo não apenas no seu conteúdo, mas na produção.

A capa é divina, o papel é resistente e o livro tem uma qualidade incrível - garantindo uma boa sobrevivência por anos. Eu abri o meu muitas vezes, e não há sinal algum de decomposição. O livro é baseado em vitrais medievais, e temos a impressão de estarmos tocando um livro antigo, medieval. Excalibur é uma viagem ao passado da humanidade, somos convidamos para conhecer terra distantes (ou não), com mágica e guerra em cada canto. Viramos reis, magos, guerreiros e até mesmo as próprias espadas e os lugares que cercam tais personagens. Viramos uma lenda.