Latest Posts


Foto: Nikos Lima
Promessa é dívida. É com orgulho no peito e saudades na alma que eu lhes apresento a cobertura oficial do EL na Bienal do Livro 2013 no Rio de Janeiro, um pedacinho da experiência (e do sufoco) que tive no terceiro dia do evento. Não vou mentir; nem tudo foram rosas. Por mais que este seja o meu debut na Bienal, tentei não me cegar aos problemas - fator típico de toda "primeira vez" -  para que pudesse escrever um post sincero e verídico. Mas não fique aí pensando que eu vou ficar criticando deus e o mundo não! Uma coisa que não deveria ser surpresa para ninguém, mas que vou reforçar aqui é o quanto tudo vale a pena no final. Pois por trás de toda a correria, há uma sensação acalentadora de que estamos vivendo algo único e inesquecível.

No dia 31 de agosto, mais precisamente às 9h30 da manhã, cheguei no Rio Centro com a alma lavada. Digo isso porque eu e os amigos que me acompanhavam conseguimos não pegar tanto engarrafamento no caminho para o local e tudo indicava que não iríamos pegar filas demasiadamente assustadoras. Afinal, havíamos chegado cedo; o pessoal que já estivesse ali provavelmente estava vindo na mesma maré que a nossa. Até mesmo quando saltamos do taxí e olhamos para os ônibus escolares entupidos de gente no estacionamento, pensei "Hey, lá dentro deve estar vazio ainda."

Que fique como um lembrete para próximas vezes: Ah, como você é inocente, Trinta.


Foto: Nikos Lima
A entrada direta para o pavilhão laranja estava praticamente cuspindo gente para fora, uma bagunça visual claustrofóbica. Eram famílias com carrinhos de compra para um lado, encontro de blogueiras pro outro e muita gente (como sempre) se aproveitando das filas desorganizadas.

Imagem meramente ilustrativa, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Ou não.
Quanto a isso, deixe-me explicar o problema: Cada guichê dava para uma fila teoricamente única, que serpenteava em várias curvas para caber dentro do salão de entrada. Porém, perto do balcão de ingressos, haviam barras de ferro montadas com o intuito de arrumar o povo horizontalmente aos guichês, para que os seguranças designassem as pessoas uma a uma em direção aos atendentes livres - Tipo uma fila de banco. Sabe o que isso significa? Que a estratégia do começo da fila não foi a mesma do final. A técnica utilizada só mostrou o despreparo da equipe, pois as filas iam se condensando a medida que o povo se aproximava dos guichês de atendimento, misturando todo mundo em interseções apertadas, com direito a muito calor, cotoveladas e empurrões. Durante mais de uma 45/60 minutos, passamos um aperreio digno de Rock in Rio e eu, honestamente, concordo com o que o meu namorado disse: "Os organizadores do evento ainda veem a Bienal como aquela de 15 anos atrás, quando o número de visitantes era muito menor." Uma conclusão direta e precisa.

Assim que finalmente entrei no Pavilhão Laranja, senti o leitor dentro de mim dar cambalhotas de alegria. Quase todos os stands faziam promoções, disponibilizavam bottoms e marcadores de texto. Logo de cara peguei uns muito bonitinhos de uma editora infanto-juvenil, incluindo um da Brinque-Book. Perto de uma propaganda enorme da Globo, uma moça estava disponibilizando jornalzinhos com o mapa e eu não fui burro de deixar isso passar despercebido: Nele, ficava claro que boa parte das grandes editoras de ficção - Intrínseca, Rocco, Arqueiro, Novo Conceito etc - estavam no Pavilhão Azul, o que significa que o Trinta já tinha um objetivo. Passeei rapidamente pelo Laranja e descobri que ele era voltado em geral para crianças de 1 a 8 anos, com promoções de cinco a dez reais em livros dobráveis e coloridos (Esses livros sempre costumam ser muito caros em livrarias, acreditem no meu deslumbre!). Minha amiga comprou vários para os seus alunos e disse que eram livros realmente bons (Ela é professora de maternal).

A diferença clara que você tem quando passa do Pavilhão Laranja para o Pavilhão Azul é visível, ou melhor, audível, pela quantidade de garotas histéricas por metro quadrado. Caso não saibam, no auditório Rachel de Queiroz aconteceria um encontro de fãs com o autor Nicholas Sparks, o queridinho das adolescentes. Particularmente, eu não sou fã de seus livros (Já li Querido John e A Última Música, e apesar do segundo ser tragável, já entendi a fórmula do xarope de ouro do sujeito) mas queria ver a palestra inicial porque não dá pra negar que o sujeito é um grande nome da literatura mundial. Sou do partido que toda experiência gera conhecimento e não me faria mal ir lá bater o cartão, né? Pois é. Agora vamos voltar para o lembrete inicial...

Ah, como você é inocente, Trinta.

A fila estava dando VOLTAS no pavilhão, as garotas estavam gritando "COMEÇA, COMEÇA!" a cada rangido da porta e ainda faltavam horas pro indíviduo chegar para a palestra. A mesma amiga que comprou os livros infantis foi para lá com o namorado (Corajoso o menino) e disse que estava impossível de esperar ali e acabaram desistindo de participar do programa. Não que eu exatamente culpe os fãs (eu faria a mesma coisa pela J.K Rowling e a Lionel Shriver, por exemplo), mas eu fique triste pela mãe de uma amiga que veio com a gente - uma senhora já idosa que é fã assídua do Sparks - não conseguir entrar na fila. Não dava para correr o risco. Mas felizmente eu e ela tivemos uma recompensa muito legal quando entramos na Editora Nova Conceito ainda vazia. Já já eu explico.

Foto: Nikos Lima
Como vocês podem ver aí em cima, esse é o stand que eu mais gostei da Bienal no quesito estética. Ficou realmente bem elaborada a fachada de livros, por mais que nenhum dos títulos escolhidos seja do meu gosto (Mas eu entendi que eles queriam enaltecer os últimos lançamentos do mês). Por sorte, assim que entrei com a mãe da minha amiga, nós dois conseguimos uma senha para a fila de autógrafos com a Emily Giffin, uma autora que eu só conhecia por ser a dona da série Something Borrowed, que deu origem para um filme de 2011 com a Kate Hudson e a Ginnifer Goodwin (A Branca de Neve de Once Upon a Time!). A equipe da editora é muito simpática, exalando um carinho pelo seu trabalho visível desde o jeito educado de lidar com os fãs até a forma como arrumavam o stand. E foi bem aí que a Bienal sofreu um dos seus maiores problemas do dia: Durante várias horas, o Pavilhão Azul ficou com problemas no sistema de cartão de crédito e débito local e as únicas compras aceitas eram em dinheiro vivo. Muita gente, incluindo o meu grupo, passou sufoco nessa hora - Até porque, eu já estava na fila para comprar o Uma Prova de Amor da Emily Giffin.

Obviamente eu comprei um livro da dita cuja para não pagar o mico de ir pedir autógrafo sem nada para ela assinar. Quando nós voltamos quase no fim do dia para pegar o autógrafo (Meu número era 385), ela já estava MORTA de cansada e tudo que consegui falar na hora era "I'm so excited to get to know your work" (Estou muito empolgado para conhecer o seu trabalho em inglês). Ela respondeu com um "Thank You" super alheio de quem estava pedindo arrêgo a horas e eu acabei ficando com um pouco de peninha. Se um dia eu ficar famoso, tenho medo de como deve ser aguentar horas de assina, foto, assina, foto. 


Foto: Nikos Lima
Além disso, um grande destaque da Bienal foi o trono do Game of Thrones montado pela Editora LeYa. Adorei a forma de divulgação e acredito que muita gente se sentiu ao tirar fotinhas ~poderosas~ no tronão.

Oi.
Outro momento foto que tive foi com o Wimpy Kid do "Diário de um Banana", que rebolava para as fotos mais que uma tchuchuca do Funk. Achei-o super animado e quase não consegui segurar o riso para a câmera. Palmas para a Editora Vergara & Riba!


Pensando um pouco agora, ele parece com o filho do Slender.

Para que eu não precise detalhar cada stand que eu visitei pela Bienal, fica aqui as comprinhas que eu fiz no evento:

1) Necrópolis, do brasileiro Douglas MCT. Editora Gutenberg - Comprei no stand aonde a Paula Pimenta, autora do Minha Vida Fora de Série, estava fazendo sessão de autógrafos. Ela parecia uma fofa e estava falando para Deus e o mundo que o seu novo vício era a série Divergente! Será que ela já sabe sobre o filme?
2) Cidade Mágica, Drew Lerman. Editora Bertrand Brasil. - Fui capturado pelo "Quem leu O Apanhador no Campo de Centeio vai gostar desse livro". O Stand da Editora tava muito bom também, com uma variedade interessante de títulos. Meu namorado comprou o livro do Starcraft (Ele só lê coisa de videogame, praticamente) e acredito ter sido o stand que ele mais se divertiu, com exceção dos stands de HQs (Comix, Panini e Devir).
3) Death Note, Black Edition Vol.1, Tsugumi Ohba. Editora JBC. - O Stand que comprei mais quadrinhos foi na Comix que estava LO-TA-DO de gente. Sempre quis dar uma chance pra DH e acredito que essa edição nova, mais bonitinha, me ajudou bastante a criar coragem para voltar a ler mangá. P.S: Eu terminei o volumão antes mesmo de voltar de viagem, tão bom que a história era. Recomendo!
4) Estado de Graça, Ann Patchett, Editora Intrínseca. - Tava apenas dez reais na Intrínseca, então decidi dar uma chance. O livro narra a história de uma médica que viaja para a Amazônia Brasileira a procura da casca de uma planta que pode resolver o problema de fertilidade feminina em todo o mundo e, aparentemente, a autora ganhou o Prêmio Orange pela obra.                                                                                   5) O Jogo do Exterminador, Orson Scott Card. Editora Devir. Esse livro é um clássico da ficção científica RARÍSSIMO de encontrar. Encontrei  uma edição no stand da Devir, quase chorando de emoção. Para quem não sabe, no final do ano ele virará filme com o Harrison Ford e a Abigail Breslin.                                                                                     6) Dupla Falta, Lionel Shriver. Editora Intrínseca. Finalmente vou ler mais um livro da minha autora preferida! E é claro que eu comprei também...                                               7) Tempo é Dinheiro, Lionel Shriver. Editora Intrínseca.  Que é o que eu acho que vou mais gostar simplesmente pelo tema polêmico: Saúde Pública. Já consigo até imaginar o quanto a língua ferina da Lionel vai atacar.
Gostaram do post? Pois eu adorei escrevê-lo, principalmente para relembrar o quanto eu me diverti e sonhei ali dentro. Se você foi na Bienal do Livro, não deixe de comentar um pouco de como foi participar do evento! Queremos ouvir a sua opinião também.

Até a próxima, leitores! ;)


Bom dia, gente linda!

Voltei. Voltei e já vou logo de cara fazendo um mea culpa porque eu devia ter criado este post há um bom tempo, mas, por motivos mil, incluindo falta de tempo e de internete em casa, não o fiz. Agora que arrumei uma folguinha aqui no serviço, estou cumprindo o dever: trago para esta segunda-feira uma tradução do Flavorwire sobre uma das gigantes da literatura Inglesa: Jane Austen. Vem ver!

Embora a autora de Orgulho e Preconceito seja e esteja presente nas nossas vidas a todo instante, inclusive no meio acadêmico, e tenha grande aceitação do público de modo geral, Austen já encontrou em seu caminho alguns haters e pessoas que duvidaram de sua capacidade artística. Confira nesta tradução exclusiva do Escolhendo Livros quem foram essas pessoas e o porquê.

Charlotte Brontë 

Brontë parece ter ficado extremamente ressentida com a falta de sentimentos de Austen. Para seu amigo George Lewes (que, por acaso, era amante de George Eliot), que havia dito a Charlotte para tentar escrever mais como Austen, ela foi curta e grossa: "eu não tinha visto Orgulho e Preconceito até ler aquela sua frase, e então eu adquiri o livro. E o que encontrei? Um preciso retrato de um rosto lugar-comum; um jardim altamente cultivado e cuidadosamente cercado, com bordas elegantes e flores delicadas; mas nenhum relance  de uma fisionomia brilhante, viva, nenhum campo aberto, nenhum ar puro, nenhuma colina azul, nenhum córrego. Eu dificilmente gostaria de viver com aquelas senhoras e senhores, em suas elegantes, mas confinadas, casas".

Brontë pareceu manter essa opinião por algum tempo. Para outro amigo, anos depois, ela adicionou, "Eu, da mesma forma, li um dos livros da senhorita Austen, Emma — li-o com interesse e com o mesmo nível de admiração que a Srta. Austen julgaria sensato e adequado — qualquer coisa como calor e entusiasmo, qualquer coisa enérgica, mordaz, ou sensível, fica completamente fora de espaço ao elogiar esses trabalhos: a autora teria visto todas essas demonstrações com um sorriso de desdém, teria calmamente julgado como ultrajantes e extravagantes. Ela faz seu trabalho de delinear a superfície das vidas da distinta gente Inglesa curiosamente bem; há uma fidelidade Chinesa, uma delicadeza miúda na pintura: ela incomoda seus leitores com nada de veemente, perturba-os com nada de profundo: as Paixões são perfeitamente desconhecidas para ela; ela rejeita até um diálogo entre conhecidos com aquela tempestuosa Irmandade; até aos Sentimentos ela outorga não mais do que um gracioso, porém distante, reconhecimento; conversa muito frequente com eles atrapalharia a lisa elegância de seu progresso".

Mark Twain 

"Toda vez que eu leio Orgulho e Preconceito eu quero enterrar Austen e bater no esqueleto dela com seu próprio osso da canela", ele escreveu em uma carta para um amigo, em um não-tão-pálido eco do excesso dos usuários do Twitter hoje em dia. Ele disse que uma boa biblioteca era aquela em que não havia qualquer obra de Jane Austen. E, comparando-a a Edgar Allan Poe, de quem Mark também não gostava, ele escreveu: "Eu leria a prosa de Poe se me pagassem, mas a de Jane, não. Jane é completamente impossível. Parece-me uma grande pena terem permitido que ela morresse uma morte natural".

Caramba. Pesquisadores atribuem isso ao amor de convenção de Austen ofendendo o "espírito americano", mas o comentário sobre Poe sugere uma antipatia mais profunda, não?

Ralph Waldo Emerson 

Outro escritor com objeções "americanas" a Austen. "Estou perdido
quanto a entender por que as pessoas glorificam tanto os romances da Srta. Austen, que me parecem de tom vulgar, estéreis em invenção artística, enclausurados em suas infelizes convenções sobre a sociedade Inglesa, sem genialidade, astúcia, ou conhecimento sobre o mundo. A vida nunca foi tão comprimida e estreita... Tudo que interessa em qualquer personagem é isto: ele (ou ela) tem dinheiro para se casar com...? O suicídio é mais respeitável".

Elizabeth Barrett Browning 

"Há mais poesia, mais sobre a vida interna, mais sobre a ideal aspiração, mais sobre uma tendência religiosa no livro do que nós precisamos procurar ou mais do que até mesmo você, meu amado amigo, pode, eu acho, imaginar em qualquer livro da Srta. Austen considerado em um momento de sua estimação mais entusiasta".

Virginia Woolf 

Woolf de fato admirava Austen em alguns aspectos, mas não em todos. Em uma palestra, ela explicou suas ponderações da seguinte forma: "O principal motivo pelo qual ela não nos desperta interesse, ao contrário de alguns autores inferiores, é que ela tem muito pouca rebeldia em sua composição, muito pouco descontentamento, e muito pouco da visão que é a causa e a recompensa pelo descontentamento. Ela parece às vezes ter aceitado a vida muito calmamente conforme a foi descobrindo, e ninguém que lê ou escreve sua biografia está certo de que a vida mostrou a ela muita coisa presunçosa, lugar-comum, e, num mau sentido da palavra, artificial... Acontece muito raramente, mas acontece, de sentirmos que a graça de seu espírito foi dificultada por tamanhos obstáculos; que ela acredita neles assim como ri deles, e que ela é impedida da mais profunda visão sobre a vida humana por meio do respeito que ela dá a algumas convenções não-naturais".

Alfred, Lord Tennyson

Em carta a um amigo, Tennyson ofereceu esse elogio ambíguo: "O realismo e a verossimilhança da persona dramática da Srta. Austen se aproximam daqueles de Shakespeare. Shakespeare, entretanto, é um sol em relação ao qual, apesar de ser um brilhante e pequeno mundo, Jane Austen é apenas um asteroide".



______________________

Shakespeare era o sol e Jane, apenas um asteroide? Vixe. Olha, sinceramente: eu nunca li Orgulho e Preconceito e, na verdade, também nunca me interessei muito pela Jane Austen, mas, aos leitores que já tiveram oportunidade de conhecer o trabalho dela: os críticos pegaram pesado ou ela de fato não é assim tão boa? Deixe sua opinião! Um abraço e até loguinho.



Os mais famosos trolls, críticos e questionadores de Jane Austen é uma tradução exclusiva do Escolhendo Livros deste artigo do Flavorwire

Shakespeare's Birthplace. A Meca para os amantes de Literatura
Por mais de 250 anos, um romântico casarão medieval tem sido o maior centro de visitantes da Henley Street, rua de imenso valor histórico na região de West Midlands, Inglaterra. O point turístico em questão é a casa em que o dramaturgo inglês William Shakespeare, autor de peças imortais como A Megera Domada e Romeu e Julieta, nasceu e morou durante a juventude. 

A belíssima construção abriga atualmente um museu aberto ao público, exibindo em seu interior uma mobília estilizada a estética medieval, o escritório restaurado do pai de Shakespeare, o quarto no qual o autor nasceu e até uma janela de vidro com as assinaturas dos visitantes ao passar dos anos (Dentre eles, Charles Dickens, John Keats, Walter Scott e Thomas Hardy). O sucesso deste patrimônio histórico é tão grande que há uma estimativa que o lugar receba mais de 3 milhões de visitas por ano. Mas sejamos sinceros; quem não gostaria de fazer parte destes números?

  
Todas as visitas possuem um guia turístico vestido com
trajes de época. How cool is that?
A simplicidade dos cômodos pode enganar os visitantes de primeira viagem, mas a verdade é que a casa, aos parâmetros do séc XVI, era uma posse de valor considerável. Ali, Shakespeare viveu até o final dos cinco primeiros anos de seu casamento com Anne Hathaway (Não, não é a Mulher Gato de Nolan!), para depois partir para sua nova casa em Stratford (a qual, infelizmente, não existe mais). Além da exposição interna, é possível assistir leituras das peças originais do autor na parte externa da casa, com atores fantasiados como os personagens de seus livros (Imagina que mágico, reviver a morte de Julieta ou a cena final inesquecível de Hamlet nos jardins da casa!). Nós do Escolhendo Livros, como somos legais para os nossos leitores mochileiros, temos até umas dicas para quem planeja dar uma passadinha por lá: Em primeiro lugar, compre os ingressos antecipadamente. Pode sair bem mais barato do que procurar tudo em cima da hora, afinal, é um cidade turística muito movimentada. Para chegar em Stratford é preciso sair de Londres através da estação de Marylebone, preferencialmente bem cedinho, para poder ver todas as cinco casas que pertenceram a família Shakespeare no mesmo dia de chegada. Pegar a viagem de 6:45 da manhã é o ideal, mas caso você não seja uma morning person, às 9:10 tem um trem que também pode servir. 
Fonte:  Gallery.nen.gov.uk

Quer uma palhinha das maravilhas encontradas na Shakespeare's Birthplace? Assista o vídeo a seguir e se dê o luxo de viver um romance europeu!



Nenhuma guerra termina na primeira batalha. Para uma vitória ser declarada, é preciso força de vontade, suor na testa e especialmente neste caso... Um pouquinho de cara de pau. Pois é, leitores, chega de engolir esta frase feita de "Não julgue o livro pela capa"! Voltamos mais uma vez com a coluna mais rebelde do EL, para o desgosto das professoras solteironas de literatura e o alívio dos compradores compulsivos de livros. Sentiu a nossa falta?

Relembrando...



Escolhendo Livros do Jeito Que Você Não Deve funciona assim: Cada um dos dois (Dessa vez, a dupla Laísa e Julio) escolhe um livro que leu, mas sabe que o outro não leu (e nem faz ideia do que se trata). Trocamos as capas dos livros e, só com ela, tentamos adivinhar a sinopse. Depois do monte de achismos cômicos (porque é claro que vai ser), cada um escreve sobre o real conteúdo do livro que escolheu.

Livro que a Laísa escolheu pro Julio adivinhar:


Pela capa, o Julio acha que a sinopse do livro é...
O Universo é um tabuleiro de xadrez, sempre aprendeu o jovem Marcus Kyung Kyint Lee. Desde quando criança, os avós de Marcus Kyung o ensinaram as coisas mais estranhas e lhe deram conhecimentos de uma filosofia praticamente inexistente: a de que "o Tudo é o Nada". Aquele conceito nunca foi claro para Marcus - até o dia em que ele se viu de frente com o Poder da Criação A Partir do Nada, algo que lhe permitia vivenciar todas as estórias que quisesse. Mas nada sairia de graça, pois, detendo tal poder, um grupo misterioso faria de tudo para consegui-lo. Agora, em meio a mistérios e questões fundamentalistas, Kyung corre contra o Não-Existente-Tempo para aprender a controlar o Conceito da Criação.

Laísa falando sobre o que realmente é o livro:

Quanta filosofia, meu deus do céu! Se o nome do livro já parecia um excerto do existencialismo de Sartre, a sinopse do Julio fez questão de terminar o trabalho. Mas a obra original de Nikelen Witter passa longe desse Tempo-Não-Existente-Que-Existe-Mas-Não-Existe. Territórios Invisíveis conta a história de 5 pré-adolescentes, os gêmeos Ariadne e Hector, e seus amigos Leo, Camila e Neco. Leo tem seu irmãozinho caçula sequestrados por homens misteriosos e seus amigos resolvem a ajudá-lo a resgatá-lo. Como? Trocando-o por uma caixa mágica, com um "sol que chora", escondida no fundo de uma escavação arqueológica. Ela seria a chave para libertar um perigoso mal, a Fúria, que seria usada para unir o mundo dos Soh-Lay, divindades míticas, ao dos humanos, como fora, eras passadas. Na busca pelo garotinho sumido, os 5 amigos fazem a grande travessia para uma ilha chamada Yvymarã. Lá encontram um senhora que passa todo seu conhecimento sobre a caixa e a irmandade que foi criada para não só protegê-la bem como guardar o segredo dos Soh-Lay.

Livro que o Julio escolheu pra Laísa adivinhar:

Pela capa, a Laísa acha que a sinopse do livro é...
O Cavaleiro Inexistente narra a vida de de um jovem camponês que na busca de si mesmo se muda para a cidade da China Imperial. Lá encontra sua verdade no Yin e Yang e aprende a arte da guerra local. Torna-se um importante guerreiro derrotando o temível dragão vermelho alcançando a honra de fazer parte do seleto grupo Os Cavaleiros do Zodíaco, seu nome passa a ser conhecido então como o bravo Cavaleiro Inexistente, aquele que conhece as façanhas de dominar seus inimigos até a loucura.
Julio falando sobre o que realmente é o livro:
 Hoje a coluna tá que tá, hein? É território invisível, cavaleiro que não existe, o tempo que não passa... Praticamente uma aula de filosofia on drugs. Na verdade, a história de O Cavaleiro Inexistente é narrada por uma freira confinada em um convento, decidida a contar a bizarra história de Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, cavaleiro que se distingue pela impecável armadura branca - e pelo fato de não existir. Por defender a virgindade de uma donzela, Agilulfo se tornou paladino de Carlos Magno, posição que exerce com seriedade extrema. Mas aquele feito heróico é posto em dúvida. Para comprová-lo, Agilulfo sai em busca de uma virgindade perdida quinze anos atrás , e no caminho viverá aventuras engraçadíssimas, dignas de um ótimo romance de cavalaria às avessas.

Para quem não sabe, eu até já fiz uma resenha de um livro do autor aqui no EL chamado O Visconde Partido Ao Meio. Gostaram da coluna de hoje? Pode deixar que semana que vem tem mais loucuras no Escolhendo Livros do Jeito que Você Não Deve!



Dia lindo lá fora e uma tag nova no blog. Tem presente melhor? A nossa querida parceira Nadja Moreno do Escrev-Arte indicou o Escolhendo Livros para responder algumas perguntinhas e eu, Trinta, estou aqui para saciar toda a sua curiosidade. Vamos lá?


A AQUISIÇÃO

1 - Sempre compra você mesma seus livros, ou tem anjos da guarda? Se tem quem são eles normalmente?

Trinta:
 Por mais que ganhar presente sempre seja bom, eu, particularmente, prefiro comprar os meus próprios livros. Não que eu tenha pedido pra a minha equipe do paraíso, vulgo família, parar de me dar livro, cruzes, não sou louco - A questão é que eu adoro ir em livrarias ou zapear pelos sites procurando minhas drogas literárias. Livro para mim é que nem roupa; Ninguém sabe o tamanho, o gosto e a qualidade que mais me apetece além da minha própria persona. 

2 - Gasta quanto (em média) por mês em livros? Já estourou o cartão de crédito com livros?

Trinta: De um ano para cá, eu coloquei um post-it mental na minha cabeça que me fez muito bem: "Rafael, você tem MUITO livro ainda na sua estante, o suficiente até para suprir sua cota literária por uns seis meses. Para que comprar coisas novas?". Por mais que você possa me responder - "Ah, mas cheirinho de livro novo é tãããão bom..." - A verdade é que não adianta nada acumular livro que tu não vai ler. Acredite em mim, depois que eu passei a repetir essa frase para mim mesmo sempre que entro em qualquer lugar com o potencial de um ataque frenético de cartão de crédito, meus gastos diminuíram e eu aproveitei muito mais as leituras estocadas no meu quarto.

3 - Consegue livros emprestados com frequência? Se sim, quem te empresta normalmente?


Trinta:
Ok, agora vamos para um pequeno segredinho meu: Não gosto de pedir livros emprestados. Sabe qual é o pior? É que o motivo é até um pecado capital, minha gente. Eu m-o-r-r-o de medo de eu gostar do livro e, depois, ter que devolvê-lo pro dono. Sou um invejoso literário. ):
Por isso, prefiro sempre dar um jeito de comprar meus próprios livros, é muito mais seguro para a minha sanidade mental. 


O DELEITE

1 - Lê em média quantos livros por mês?


Trinta: Olha, eu ando muito lento ultimamente. Ano passado eu chegava a ler 3 livros por mês. Esse ano, devido a faculdade, o trabalho e as mudanças que tenho passado, se eu ler 1 mensalmente é uma dádiva divina. Mas para não me diminuir muito, eu sempre levo um livro na bolsa, nem que seja só para eu dar uma folheada na fila do banco, HAHA.

2 - Lê em média quantas páginas em um dia da semana? E fim de semana?


Trinta:  
Não faço a mínima ideia. Mas eu não acho que tenho passado de 50 páginas por semana não. Como disse, ando muito ocupado, infelizmente. 

3 - Consegue abandonar um livro no meio da leitura?

Trinta:
Conseguir,eu consigo. Gostar é outra coisa! Me dá uma agonia desistir de um livro, porque eu sempre acho que estou desmerecendo a obra ou até ignorando o fato que eu gastei dinheiro nisso. Por isso, eu sempre me OBRIGO a ler um livro até o final, mesmo que isso signifique que eu tenha uma leitura péssima. Mas sabe que terminar de ler um livro chato tem os seus lados positivos? Além de melhorar o seu senso de crítica, você sabe muito bem o que não mais procurar na hora de ir na livraria. 

 O LOCAL DO CRIME
1 - Consegue ler em local movimentado? (ônibus, fila de banco)

Trinta: Sim, mas evito. Tinha uma professora de Direção de Arte e Cenografia que vivia me dizendo que tinha labirintite (aquela doença que você fica tonto quando tem muito dinamismo visual na sua frente), e mesmo que não tenha nada, acabei me traumatizando com a ideia de que ficaria doente lendo no ônibus ou num local cheio de gente para ficar me distraindo. Eu sou muito bobo, putz...

2 - Prefere ler na mesa, sofá, no chão ou na cama? 

Trinta: No chão. Eu estudo no chão, leio no chão, durmo no chão, faço tudo no chão (ui). Eu não sei porque eu sou assim não, mas sempre gostei de me jogar no piso do meu quarto e ficar olhando pro teto. Vai ver eu era um tapete de tigre empalhado em outra vida. 


3 - Qual a hora do dia que prefere para ler?

Trinta: Gosto de ler sendo banhado  pela luz do luar (Tô poético hoje, beijos). 

OS IMPEDIMENTOS

1 - É solteiro (a)? Se não seu companheiro (a) te dá espaço para ler?


Trinta: 
Não, tenho um namorado. E ele odeia ler (quase me separei dele por isso, mas ele me comprou com jóias e comida na mesa - N), por isso ele sempre me dá um espaço quase como se houvesse uma plaquinha de "CUIDADO, CAMPO RADIOATIVO DETECTADO" quando eu estou com um livro. Os opostos se atraem, como diziam as novelas mexicanas.

2 - Lê no trabalho? Se sim, qual emprego dá esta dádiva de ler na hora do serviço?

Trinta:
 Por mais que eu sempre leve o meu Kobo para que, quem sabe, apareça uma oportunidade de ler um pouquinho, essa benção nunca acontece. Ai, a quem eu estou tentando enganar? Eu trabalho no computador, qualquer coffee break é dedicado a facebook, meus filhos.

3 - Já deixou de sair com a galera só para ler aqueles capítulos irresistíveis?

Trinta: Já deixei de sair porque tinha pudim de leite na geladeira. Acho que isso responde a sua pergunta. 

AS INSANIDADES

1 - Já sonhou ou teve pesadelos vivendo as histórias de um livro, qual foi o livro?


Trinta:
Hum, eu acho que eu já tive sonhos envolvendo Hogwarts. Tipo eu indo pra câmara secreta, ou coisa do tipo. Mas recentemente, eu tinho tido sonhos mais Cinquenta Tons de Cinza style... Brincadeira. (that's what she said).

2 - Qual a loucura que já fez ou faria para conseguir um livro?

Trinta: Eu já roubei a biblioteca do colégio. Mas eu, sinceramente, acho que todo mundo já fez isso pelo menos uma vez na vida sem querer. A única diferença é que...
Eu quis. *risada maléfica*

Ai, como eu sou bandido.


3 - Já chorou ao terminar um livro? Foi de felicidade ou tristeza? Qual foi o livro? 

Trinta: Putz, vamos lá: Precisamos Falar Sobre o Kevin, Menina de Vinte, O Mundo Pós-Aniversário, o último livro da Série A Mediadora, O Pacto... Eu sou um chorão com livros e pior: Tem alguns clichês específicos que sempre me atingem. Mas prefiro não dizer quais são para não desmistificar o meu orgulho. HAHA!


INDICAÇÃO

Fascinadas por Livros
Epílogos e Finais
Fantasiando com os Livros
My Bookshelf
I Eat Livros

Quer responder a tag Como Eu Leio também? Poste as respostas no seu blog que a gente dá uma passadinha por lá! E não esqueça de nos avisar, viu?



Quem acompanha o Escolhendo Livros sabe muito bem que eu sou um amante voraz de videogames. Acredito que, na atualidade, o universo dos consoles é um dos campos mais férteis para a criação de narrativas dinâmicas e multimidiáticas, tanto pela capacidade de inserção que os jogadores tem a sua frente quanto pelas inúmeras roupagens que o storytelling pode conter. Então quando eu digo que resolvi dar uma chance para Scott Pilgrim Contra O Mundo - uma graphic novel canadense inspirada no estilo visual dos fliperamas dos anos 80 - não é uma grande surpresa, não é? Com um herói pronto para a porradaria, uma mocinha indefesa (mas sem perder a vibe "too cool for school") e vários chefões/ex-namorados para atormentar o caminho dessa história de amor indie, Scott Pilgrim é o assunto para esse domingo pós-férias!
                              

Fonte: Fanpop

Lançado por aqui no Brasil em 2010, o primeiro volume de Scott Pilgrim Contra o Mundo nos apresenta a vida de Scott Pilgrim (dã), um jovem voluntariamente desempregado, dono da banda meia-boca Sex Bomb-Omb e com um histórico de namoradas consideravelmente instável. A última da lista é a colegial Knives Chau, uma chinesa de 17 anos que é completamente apaixonada pelo protagonista, a ponto de ser um verdadeiro grude. Mas quando Scott conhece a garota de seus sonhos Ramona Flowers, o rapaz decide jogar tudo para o alto e correr para conquistar a misteriosa entregadora de cabelos roxo da Amazon. No entanto, pouco ele sabe que para ganhar o coração de Flowers, ele precisará enfrentar a Liga dos Ex-Namorados do Mal de Ramona, um bando cheio de figuras bizarras e loucas que não vão deixar Scott levar a melhor sem uma boa luta à la Street Fighter.

O próprio criador da série Bryan Lee O'Malley deixa bem claro na contra-capa do livro: "Scott Pilgrim é a obra da minha vida". Logo, se há um fator positivo da HQ que podemos enxergar com facilidade é o quanto o autor se entrega ao trabalho. A apresentação dos personagens com "fichinhas técnicas", as onomatopéias características (*pausa*, *despausa* etc) e as piadas cheias de referências pop conseguem convencer o leitor de que o universo da história é crível e, de certa forma, único. Esse comprometimento consegue construir alguns momentos de verdadeiro brilho na trama, como por exemplo o término de Knives e Scott, que ilustrou, em poucos quadros, a frieza emotiva do protagonista e o amor adolescente da chinesinha com uma simplicidade admirável. 

Outro acerto impossível de deixar passar é a construção de alguns personagens e... Aff, a quem eu estou tentando enganar? Da construção especialmente de um deles; o Wallace. Sim, o colega de quarto gay do Scott. Bem, o que posso dizer... Ele é hilário. Sabe aquele personagem que sai completamente do estereótipo e, justamente por isso, parece real e palpável? Pois esta é a definição para essa obra-prima em traços de nanquim. Sarcástico, esperto e com uma língua afiada, o melhor-amigo-bicha-má solta alguns comentários de morrer de rir, se tornando para mim o personagem mais interessante da cabeça de O'Malley.
Pode me cantar também, Wallace. Eu aceito. >:
Fonte: Comics Bulletin
Porém, independente do sentimento de puro amor que tenho pelo Wallace ou as boas risadas que tive durante a leitura, sinto-lhes dizer que Scott Pilgrim não evolui muito mais do que isso - Um livro de gags. O fio narrativo principal perde o propósito depois da metade do primeiro volume; as "cenas de ação" são exageradas demais para serem empolgantes e excessivamente repetitivas para caírem no cômico; o traço simplificado não me agradou em vários momentos e, principalmente, o protagonista é um pé no saco. Todas as vezes em que ele mostrava o quão obtuso e vazio ele conseguia ser, o meu cérebro apitava um "Por favor, alguém chacoalha esse menino, que ele tá se achando a última caixa de bombons lacrada nas lojas Americanas". A Ramona, então, nem se fala. Normalmente não tenho problemas com manic pixie dream girls*, mas ela é tão limitada a este conceito que não tem como não achá-la supérflua.

Não se engane, não quero desmerecer a criação do autor. Até porque, a legião de fãs da série estão aí para se oporem ao meu post. Eu, todavia, prefiro ficar com o filme de 2010, que me fez gostar bem mais de alguns outros personagens devido as atuações on point (Estamos falando de Kieran Culkin,  Mary Elizabeth Winsted, Anna Kendrick, Chris Evans etc) e a uma direção de arte impecável. Só para dar uma palhinha, assistam o trailer e tirem suas próprias conclusões:




*"O conceito, criado pelo crítico Nathan Rabin do site AV Club durante uma resenha de “Elizabethtown”, parte do princípio de que para cada homem solitário e macambúzio existe uma heroína feminina (os gêneros não são fixos, mas os manteremos assim para o bem deste artigo) que vai notá-lo no canto mais obscuro de qualquer sala de aula e enxergar nele um potencial incrível que ele jamais havia notado sobre si. Juntos, eles embarcariam numa aventura de auto-descoberta que, dependendo do diretor, poderia vir acompanhada de uma excelente trilha sonora, e os levaria a um inevitável e romântico final feliz." Leia mais sobre este conceito no blog Matéria Obscura.

 
Se você acompanhou "O Choro da Donzela" aqui no EL, já deve conhecer o trabalho fantástico da Laísa Couto. Fantasia, misticismo e encantamento são apenas algumas características de seus contos e livros, que sempre enfeitiçam a alma dos leitores que procuram conhecer um pouco mais de sua história. Hoje, trazemos para vocês "O Encontro" , uma história original e exclusiva da Laísa para o Escolhendo Livros. Boa Leitura!



Encontro
                                                                       por Laísa Couto

Naquele momento, eu estava especialmente ansiosa. Nunca havia imaginado que finalmente nos encontraríamos. Como eu ainda o esperava, examinei a sala com curiosa cautela, era redonda, isso eu já sabia, com todos os objetos descritos em seus perfeitos lugares, como eu poderia esperar algo diferente? Dei alguns passos em direção a uma janela próxima,  a noite era negra em contraste com os inúmeros pontinhos brilhantes que cintilavam distantes. Mirei a vastidão do horizonte se perdendo sob a escuridão, os vales estreitos daquele aglomerado de colinas pareciam ondas tranquilas perdidas no mar.

       Meus pensamentos fugiram por um instante, e num estalo voltei a minha realidade, será que ele estava atrasado?  Já tinha um certo tempo que eu o esperava e nada... somente o sopro do vento gélido invadia aquela sala circular. Me aproximei da lareira que ainda crepitava algumas fagulhas quentes. Esfreguei minhas mãos para espantar o frio e dei outra olhadela pela sala... e nada... Eu ainda continuava sozinha, admirei por um instante sua enorme mesa em forma de meia-lua abarrotada por pergaminhos,  restos de tocos de velas derretidas num castiçal e uma coleção de penas para escrever, eu bem o sabia que ele não era muito organizado, vendo o exemplo de pilhas e pilhas de livros amontoadas pela sala, não consegui conter uma risada interna.


     Para me distrair um pouco, alcancei uma pilha próxima e comecei a estudar um conteúdo , abri um volume encapado de couro cru e surrado, quando uma voz falou:


       “Desculpe-me a demora.”


       Meu coração deu um salto e acabei derrubando o livro no chão. Com rapidez peguei o livro e o devolvi a pilha, preocupada em não fazer uma avalanche de livros. Escutei uma risadinha à minhas costas, virei-me vagarosamente, contendo minha imensa curiosidade sob a ansiedade. E lá estava ele, sentando sob uma poltrona de veludo cor de vinho diante a lareira, que agora crepitava mais viva  que nunca, presumi que ele tinha aproveitado de sua arte para tal feito e dirigi-me silenciosa para outra poltrona a sua frente, a qual indicara para eu sentar. Depois disso, o silêncio se prolongou ainda mais e eu me recusava a quebrá-lo, mirando meus dedos que eu estalava nervosamente.


       - Presumo que tenha esperado muito tempo para este encontro. E julgo que não jogará esse momento fora, não é mesmo? - Sua voz era mansa, mas tinha um certo tom de divertimento.Eu tomei fôlego e disse:



       - Ok, o senhor acha que estou com medo, não acha?” - respondi com outra pergunta, encarando-o dessa vez. Seu cabelo ralo e desgrenhado não escondia as sardas que idade adquirira sobre o couro cabeludo, os fios finos e alvos caiam sem disciplina para os lados, sem demonstração de que foram penteados. Sob os olhos pequenos e negros, as pálpebras caíam pesadamente enrugadas atribuindo-lhe um olhar cansado e sério, no entanto com uma profunda e misteriosa brandura. Vestia uma capa com capuz de linho grosso cor verde-mugo, que escondia as vestes marrom internas sobreposta por um colete dourado. Sob o colo, descansava um chapéu em forma de cubo na cor lilás, suas abas eram muito largas, o suficiente para proteger os ombros e estava extremante amassado, como se o dono tivesse sentado várias vezes em cima por engano. Meu olhar procurou por mais um acessório, que eu sabia ser o objeto inseparável daquele que estava sentado a minha frente e logo o encontrei encostado no espaldar da poltrona – o cajado, um instrumento aparentemente tosco, feito de raízes retorcidas prendendo uma pequena esfera na cor esmeralda na ponta superior.


     -  Não, nunca achei que tivesse medo  - respondeu ele sem hesitar e retribuindo o olhar penetrante.  “ Também estive a sua espera, achei que nunca a conheceria pessoalmente.  No entanto, o grande dia chegou e cá estamos, o criador e a criatura. - Eu senti meu sangue correr para as maças do meu rosto ao escutar as duas últimas palavras.  - Sinto que veio a procura de respostas a muitas indagações pertinentes que o tempo não foi capaz de pontuar... Revelo a você, que minha mente anda ultimamente tão nublada quanto a sua, menina. Até parece que não conhece o velho Zagut...


       - Zucchius Zagut Nicolai Vitruvius Furnerius – recitei, lembrando-me do dia que procurei esses nomes num livro velho de astronomia. Zagut deu um grande sorriso. “Ah..senhor...”

           - Zagut, simplemente Zagut  - interrompeu  e corrigiu, sem parecer irritado.


       Eu apenhei um caderninho dentro do bolso da minha jaqueta jeans e uma caneta, antes de começar de novo, Zagut ficou muito interessado no objeto cilíndrico e com demasiado interesse perguntou o que era.


          - É uma caneta esferográfica - respondi rabiscando numa das folhas do caderninho.

          - Oooh! - exclamou ele surpreso ao ver a tinta preta saindo do fino tubo.  -É com essa espécie de mágica que vocês do outro mundo usam para escrever sobre o pergaminho? Muito interessante!

         - Ah, não Zagut, não é mágica. A tinta...a tinta fica dentro desse finíssimo cilindro aqui dentro, olhe... - Então, eu mostrei a caneta a ele, que a examinou com cuidado, forçando a vista e se aproximando mais do fogo.

      - ESFEROGRÁFICA... Nome incomum esse, vou acrescentar ao meu dicionário!” - disse ele contente, satisfeito com a recém descoberta palavra e devolvendo a caneta a mim.


      - Acertou quando disse que eu vim atrás de respostas, Zagut – confessei, pois eu como ninguém sabia que o mago tinha o dom de captar e antecipar um assunto antes mesmo que lhe contassem. - Sei que me conhece melhor que eu o conheço, sei que conhece minha estória, os personagens vividos em minha mente, e toda aventura inacabada.... Vim até aqui para desvendar o grande mistério, sei que o senhor conhece o caminho, eu penso...eu tento...mas parece que tudo escapa a minha memória, que quanto mais eu busco sobre essa verdade irreal, mais me sinto tudo escorrer pelas minhas mãos... Eu procuro ver além de sua mente, e não consigo ver mais nada... - eu disse, com uma pontada de frustração e uma enorme vontade de chorar.


         - Já pensou, minha cara, que talvez não haja segredo algum para desvendar? - disse o mago com delicadeza. - O mistério tem vida própria, só ele decide quando deseja se revelar. Não, não é verdade quando diz que não me conhece, me conhece tão totalmente ou melhor do que eu poderia julgar, afinal, sou apenas criatura, sou o reflexo dos resquícios da sua boa alma, menina. Conheço-a...conheço-a o suficiente, mas não completamente, o que eu conheço já basta para saber que tem vontade e coragem para seguir, só basta ter a consciência de que não estará sozinha, pois tem a mim e muitos outros amigos, imaginários,  no entanto amigos de verdade. - Eu anotava rapidamente no caderninho algumas de suas sábias palavras para não esquecer. - Nos momentos de angústia, não precisará vimde tão longe para me consultar, sou somente um velho mago, cheio ainda de muitas tarefas a cumprir, você sabe disso, me incumbiu de realizar importantes feitos e sabe que não posso falhar... por isso preciso de você em paz. As notas melodiosas do seu coração precisam continuar cantando para que Lagoena viva, entenda, agora não é mais pela dor, mas pelo amor....pelo amor de viver, necessitamos que viva para vivermos também...”

Continua...